Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Donald Targaryen e suas múltiplas crises: equilibrista do abismo

China, Irã, Coreia do Norte e Venezuela são as encrencas internacionais simultâneas, fora o surto migratório incontido. E Trump? Energizado como nunca

Fica combinado: depois de domingo, nunca mais faremos comparações com Game of Thrones. Principalmente as que colocam a cabeleira loira e o estilo incendiário de Donald Trump na mesma categoria à qual a infeliz guinada narrativa conduziu Daenerys Targaryen.

Quando a série era sobre poder e não bobagens novelescas, o eunuco Varys, o chefe de serviço de espionagem ingloriamente incinerado, teve uma das suas muitas frases lapidares: “Eu escolho meus aliados cuidadosamente e meus inimigos mais cuidadosamente ainda”.

Parece Maquiavel, mas a versão mais conhecida é do U2, em Cedars of Lebanon.

O método de Trump para escolher inimigos não pode ser considerado irracional, apesar da imensa torcida, nacional e internacional, para que dê tudo errado e ele se comprove um maluco a ser retirado de camisa de força – ou algemas, ou ambos – da Casa Branca.

A teoria do governo de malucos sustenta que Trump comprou brigas demais e ao mesmo tempo. E qualquer uma delas pode degenerar em explosão financeira ou bélica.

Com as turbinas ligadas e o nariz firmemente direcionado para a eleição presidencial do ano que vem, Trump não dá o menor sinal de stress.

Ao contrário, segundo reconheceu amargamente um de seus mais virulentos críticos, Joe Scarborough, apresentador de um programa de comentários políticos, está parecendo “vinte anos mais jovem” do que os dois principais pré-candidatos da oposição, Joe Biden, 76 anos, e Bernie Sanders, 77. Trump tem 72.

A crise mais quente, no momento, é com o Irã. Trump escolheu cuidadosamente reacender essa inimizade, contra a vontade de todas as outras potências, satisfeitas com o acordo que prorrogava o potencial iraniano para fazer e entregar bombas nucleares.

Curiosamente, Trump manteve a promessa de sair do acordo e negociar um melhor. A parte de negociar ainda está longe.

Mas as novas sanções americanas, que imobilizam os demais signatários do acordo pelo simples motivo de que os Estados Unidos são uma hiperpotência e os outros não, estão pesando num país já encrencado, com inflação de 50% e alto custo das intervenções externas (Síria, Líbano, Iêmen, Gaza).

Para complicar, ou talvez explicar várias das movimentações atuais, os Estados Unidos estão esperando o fim do ramadã, a quaresma dos muçulmanos, para anunciar a proposta de paz entre Israel e palestinos, encomendada por Trump ao genro, Jared Kushner, com a premissa de não repetir as pouco bem sucedidas iniciativas do passado.

O deslocamento de mísseis convencionais iranianos em embarcações ou bases terrestres no ponto G do petróleo, o Golfo Pérsico, colocando tropas americanas em seu raio de ação, seja com objetivos agressivos ou defensivos, provocou a reação do gigante americano: envio do porta-aviões Abraham Lincoln, de bombardeiros B52 e de mensagens tonitruantes.

Só para lembrar: nenhum dos dois países quer um conflito bélico, mesmo que terceirizado. Donald Trump não será conduzido a uma guerra que não quer por seus falcões, John Bolton (“Bigode”, ironizou o embaixador iraniano em Londres) e Mike Pompeo, o secretário de Estado que foi ao Iraque avisar que as diferentes militâncias xiitas vão se ferrar se não tomarem cuidado com a aliança com o Irã.

Trump não é George W. Bush e Bush não foi “enganado” por assessores belicosos a se afundar no barro da invasão do Iraque. Era o que queria fazer e fez, com os resultados conhecidos.

Os altos comandos militares americanos querem menos ainda um novo conflito de solução indefinida, exceto pelo uso da força numa escala que ninguém aceita.

O que não significa que não aproveitem para, responsavelmente, tirar uma casquinha e pedir o que militares, de todos os tempos e lugares, mais desejam: verbas. Mesmo com 750 bilhões de dólares no último orçamento.

Aliás, o mais recente relatório da Fundação Heritage sobre o estado das Forças Armadas avisa que perderam capacidade de sustentar o que sempre foi um objetivo estratégico do planejamento militar: manter duas guerras “importantes” ao mesmo tempo (obviamente, não com potências nucleares).

Além da eterna reclamação de falta de verbas, o relatório aponta outro problema: o recrutamento está encolhendo.

Este é um dos pontos em que, incrivelmente, o sucesso cria problemas. Com a economia aquecida e o mercado de trabalho no limite, diminuem também os candidatos ao serviço militar, uma opção tradicional de jovens com escolaridade média e empregabilidade baixa.

Em outra ironia, o sucesso da política econômica de Trump e do emprego farto ajudam a atrair as multidões de imigrantes irregulares em números sem precedentes.

O presidente que se elegeu com base na proposta de fazer um muro bem alto e bem bonito para controlar o fluxo incontrolável na fronteira com o México está vendo o movimento aumentar. Em abril, foram apreendidas 109.144 pessoas na fronteira, o maior número desde 2007.

A economia de 21 trilhões de dólares, com o milagre do crescimento sem inflação, é uma atração irresistível.

Eta problema bom, diriam os afligidos por números anêmicos, resultados lúgubres e desemprego crônico.

Trump evidentemente sabe que a janela de oportunidade criada pela economia forte está aberta para comprar a briga comercial com a China. Até entre antitrumpistas de raiz, porém racionais, existe consenso que o roubo maciço de propriedade intelectual, entre outros abusos chineses, precisa ser controlado.

“A pior coisa que se pode fazer numa negociação é parecer desesperado. O cara do outro lado cheira sangue e você está acabado”, prescrevia ele em The Art of the Deal.

No livro ele também diz que leu dezenas de livros sobre a China, ganhou muito dinheiro em negócios com chineses e conhece o padrão de pensar deles.

Na época, estava falando de negócios imobiliários, o cerne de sua fortuna. No ano passado, ele declarou uma renda de no mínimo 434 milhões de dólares – esta declaração, que não é a feita para a Receita, baseia-se em faixas.

Seu patrimônio total continua trancado, mas suficiente para fazer dele o presidente mais rico da história dos Estados Unidos

Claro, Donald Trump é bobo. Espertos são os que acreditam na versão espalhada pelo New York Times, com base em declarações de renda da década de noventa passadas por uma fonte, de que ele é um enganador e perdedor porque registrou um baque contábil de 1 bilhão de dólares.

A capacidade adquirida num mercado de tubarões brancos como o imobiliário de Nova York pode, evidentemente, não bastar para questões externas de alta complexidade.

O fofo Kim Jong-Un voltou a aprontar na Coreia do Norte e Trump o deixou plantado na última negociação cara a cara, usando um de seus princípios básicos.

Não podemos esquecer que baby Kim sobrevive por causa do escudo protetor da China. E a China, claro, está em confrontação comercial com os Estados Unidos.

Será que Trump não sabe disso? Será que é bobo mesmo? Ou, mais realisticamente, a tática da audácia pode ter resultados negativos?

A Venezuela é um bom teste. Os Estados Unidos não têm interesses vitais no país, embora a geopolítica (localização, petróleo, potencial de encrenca regional) não possa ser ignorada.

A cooptação e pressão sobre figurões do regime não deram certo na manobra do 30 de abril – ou pelo menos não deu certo até agora.

A caixa de maldades dos Estados Unidos ainda tem um bocado de recursos, mas a ideia é conseguir o resultado máximo – um pós-Maduro com traumas relativamente baixos e reequilibrado em termos de aliança – com intervenções mínimas, coordenando sanções econômicas com operações de inteligência.

Fazer o máximo com o mínimo parece absurdo para quem vê apenas o estilo caótico, tuiteiro e briguento de Trump e acha que ele, inebriado pelo poder, vai dar uma de Daenerys e incendiar o mundo.

“O poder mora onde os homens acham que mora. É uma ilusão. Uma sombra na parede”, dizia lorde Varys.

Pronto, acabaram as comparações com Game of Thrones.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s