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Dois papas, um cardeal e muitas dúvidas: padres devem casar?

Estão pesadas as intrigas do Vaticano, a reaparição conturbada do aposentado Bento XVI provocou situação inédita e o celibato sacerdotal está no centro

Por Vilma Gryzinski - 15 jan 2020, 16h25

O cristianismo, com seus prodígios e horrores no aspecto terreno, está acabando.

É triste, mesmo para os não crentes, ver a força motriz da civilização ocidental, se apagar.

E mais triste ainda para aqueles que continuam a acreditar na mensagem mais poderosa da história ver o declínio refletido nos embates entre o que se convencionou chamar de tradicionalistas e reformistas.

Os dois termos são altamente simplificados. Uma prova: o conflito entre dois tradicionalistas a respeito de um livro assinado por ambos.

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Um deles, ninguém menos que Bento XVI, o papa emérito cuja abdicação continua sem uma explicação satisfatória.

Recolhido ao silêncio – quase literal pois sua voz virou um sussurro – e a uma cadeira de rodas, Joseph Ratzinger ficou mais popular depois da abdicação.

Isso entre os tradicionalistas, uma corrente que vai desde extremistas desequilibrados que consideram o argentino Jorge Bergoglio a encarnação do antipapa até teólogos e acadêmicos com argumentos muito bem fundamentados contra iniciativas autodestrutivas dos reformistas.

A que está no centro das atenções no momento é o celibato dos sacerdotes.

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A proposta da ordenação de homens casados feita no Sínodo da Amazônia foi quase tão chocante quanto as manifestações bizarras de culto à Pachamama, entidade andina representada por uma mulher grávida.

A defesa do celibato foi assumida, num livro intitulado Do Fundos de Nossos Corações, por Robert Sarah, um cardeal importante e articulado, prefeito da Congregação do Divino Culto e da Disciplina dos Sacramentos, respeitado entre os tradicionalistas de cabeça mais fria.

Como acontece com outros religiosos cristãos da África, ele é conservador em matéria de moralidade sexual e os mandamentos sobre a vida sacerdotal. Bispos da Igreja Anglicana na África, por exemplo, rejeitaram o sínodo que aprovou a ordenação de mulheres.

O bafafá com o livro do cardeal Sarah envolveu uma colaboração do papa aposentado.

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O representante mais próximo de Bento XVI , o arcebispo George Gänswein, disse que o nome dele deveria ser retirado como co-autor porque sua colaboração com o livro era limitada a um artigo.

Sarah estrilou, mostrou correspondência indicando o contrário e todo mundo acabou ficando mal na foto.

Mas a questão do celibato não só permanece como vai crescer. Deve constar dos “novos caminhos” que o gaúcho Cláudio Hummes, ex-arcebispo de São Paulo, está incluindo no documento final sobre o sínodo.

O argumento usado para a ordenação de homens casados é a falta de padres na imensidão amazônica.

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Nem a mais inocente das pedras da Praça de São Pedro acredita que não seja um primeiro passo para a gradual introdução do fim do celibato.

De forma geral, é considerada uma atitude progressista acabar com a exigência de que os sacerdotes consagrem a vida a Deus e abram mão, em nome de um apelo espiritual superior, dos apelos da carne.

Também existem argumentos mais pé no chão: os tantos casos de abuso de crianças e jovens, tão absurdamente contrários a todos os ensinamentos da Igreja, talvez diminuíssem. Sem falar nos tantos e conhecidos casos de religiosos que têm “esposas” não oficiais.

Curiosamente, estes argumentos só são usados no caso da Igreja Católica. Não existem campanhas para que monges budistas desistam do celibato.

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Imaginar uma senhora Dalai Lama encantando milionários americanos deslumbrados? Nem pensar.

As igrejas protestantes resolveram a questão com o cisma luterano, há 500 anos.

As ortodoxas, da linhagem de um cisma como o dobro da idade, têm uma divisão interessante: os padres seculares casam-se, mas a hierarquia de bispos e patriarcas vem dos que se dedicam à vida monacal e ao celibato.

O fim do celibato envolve questões de alto teor teológico e espiritual, mas também dúvidas do dia a dia.

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Um padre casado poderia ouvir em confissão sua própria mulher? Ou seus filhos? Ou genros e noras? E ainda por cima absolvê-los?

Se em algum momento o sacramento da ordem e o do matrimônio entrassem em conflito, qual teria prioridade?

E já que podem se casar, padres liberados do celibato poderiam também se separar?

E quem pagaria o plano de saúde da família?

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“Existe um elo ontológico-sacerdotal entre sacerdócio e celibato”, escreveu o cardeal Sarah no livro que criou mais uma crise no Vaticano.

“Qualquer enfraquecimento desse elo colocaria em dúvida o magistério do Concílio (Vaticano Segundo) e dos papas Paul Vi, João Paulo II e Bento XVI.”

“Imploro ao papa Francisco que nos proteja definitivamente dessa possibilidade vetando qualquer enfraquecimento da lei do celibato sacerdotal, mesmo que limitado a uma ou outra região.”

Tanto Sarah quanto o papa emérito frisaram que estavam se manifestando em “obediência filial” a Francisco.

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Talvez imaginando, assim, evitar os tapas metafóricos que o papa argentino vive distribuindo em linguagem cifrada – para não falar nos reais, como os que deu na mão de uma fiel mais exaltada.

Tanto Bergoglio quanto Ratzinger são homens inteligentes e religiosos dedicados. Ambos sabem perfeitamente que a Igreja está em refluxo acelerado.

Ratzinger, um teólogo refinado e altamente espiritualizado, dizia mesmo antes de ser eleito papa que a Igreja se fragmentaria em núcleos não contínuos de fieis comprometidos e dedicados como os primeiros cristãos. Nada mais dos católicos da boca para fora.

Bergoglio, um argentino simpático ao peronismo e à opção pelos pobres, fala muitas vezes de uma Igreja que se volte para as periferias, que mude não só seu olhar como o próprio motivo de olhar.

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Quem está com a razão?

É uma questão que vai demorar para ser respondida.

Ou talvez não tenha como ser respondida.

Em qualquer caso, não é a Pachamama que tem a resposta.

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