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De dar vergonha: bullying contra alunos de Novo Hamburgo

Luminares do pensamento moderno se enchem de falsa superioridade moral para execrar estudantes pelo pecado supremo de ser de classe média

Por Vilma Gryzinski - 14 Jun 2017, 08h52

“Jovem”, “adolescente”, “garoto”, “menino”. Alternativamente, “rapaz”. Foram estes o adjetivos amplamente empregados em relação a uma vítima de 17 anos agredida de forma vil, com as palavras  “ladrão” e “vacilão” tatuadas em sua testa por aparente tentativa de furto de uma bicicleta e outras misérias.

Seu rosto em nenhum momento foi mostrado, conforme exige a lei. Os autores da agressão foram presos em flagrante.

O dono da bicicleta disse que não conseguiu dormir e que se tivessem dado “uns tapas na orelha dele” estaria tudo resolvido. Como é pobre e deficiente, a defesa de uma agressão atenuada não causou repúdio.

Considere-se agora o tratamento dispensado aos alunos de uma escola de Novo Hamburgo que usaram trajes de profissões humildes para uma atividade chamada “Se tudo der errado”. Foram expostos, execrados, nacionalmente condenados, chamados de vanguarda do preconceito, submetidos a um bullying de proporções assustadoras.

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Não tratamos aqui das reações imediatas, inflamadas, destemperadas das redes sociais. Foram comentaristas, acadêmicos, profissionais dos mais altos padrões, com tempo e preparo para analisar o que havia acontecido.

Os estudantes envolvidos no caso não foram submetidos à execração pública,  por um erro de julgamento e de comportamento. Foram moralmente estraçalhados por ser de classe média, um pecado indelével na visão de seus detratores e, pior ainda, estudar numa escola evangélica.

Do ponto de vista retrógrado e tolamente ideológico dos sapientes acusadores, classe média só é bom quando as classes D e E estão ascendendo a ela, em geral em virtude de política econômica “popular”, sinônimo de equivocada e fadada ao fracasso.

Os envolvidos costumam preferir termos mais objetivos como “melhorar de vida”, “tirar diploma”, “conseguir aumento”, ou “trabalhar por conta própria”. Tudo isso sendo espertos o suficiente para “aproveitar a chance”.

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Se, depois de dar um duro danado, levantar cedo, dormir tarde, fazer turno duplo, não ter domingo nem feriado, conseguem aumentar a renda, tornam-se o quê? Perversos agentes do capitalismo?

Em qual momento os valentões dotados de falsa superioridade moral pensaram na situação dos estudantes, de seus pais e professores? Em como o erro deveria ser corrigido de forma educativa, depois que muitos pais se queixare, com razão, dele? Em como menores de idade transformados em sinônimo de tudo o que pior existe no país poderiam ficar injustamente estigmatizados?

Ser objeto de preconceitos é doloroso, até cruel. “Pobre”, “negro”, “brasileiro”, “velho” e toda a gama de práticas sexuais são palavras neutras, em si. Conforme o uso, transformam-se em armas para humilhar e ferir.

Mas também é possível rir da cara dos que passam atestado da própria idiotice. Gente forte resiste ao apelo fácil de palavras e gestos preconceituosos, sempre tão facilmente à flor da boca ou dos dedos.

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Gente fraca cede e mostra os fundilhos. Quem manifesta deliberadamente preconceitos diminui a própria estatura interior e se coloca em inferioridade moral. Também tem prejudicada a capacidade intelectual de analisar pessoas e situações pelo que são de fato.

A atitude mais clássica dos preconceituosos é considerar os objetos de seus preconceitos como “não-pessoas”.

É claro que os que humilharam os alunos da escola gaúcha acreditam firmemente nos seus bons propósitos. Mas é claro também que os colocaram na situação de “não-pessoas”, símbolos desprovidos de humanidade de algo tão  condenável, detestável, odioso quanto a classe média.

Saídos, todos, de suas fileiras, os execradores reagem automaticamente a seu treinamento: os pobres são vítimas da sociedade; a classe média, seu algoz. Compreensão, comiseração, compaixão são exclusivos para os “jovens”, os “rapazes”, os “garotos”, os “meninos”.

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Estas são designações usadas para desestigmatizar menores criminosos. Por exemplo, depois que um assassino de 16 anos  confessou doze homicídios, um caso infame de anos atrás em Novo Hamburgo, o “garoto e os pais tiveram a primeira audiência  com a Promotoria da Infância e Juventude”.

As palavras tão cuidadosas, claro, também só se reservam aos que estão espacialmente longínquos. De perto, são aquilo que todo mundo diz.

Não existem leis que obriguem uma camada da sociedade a gostar da outra ou a não ter chiliques, infantilmente, para todo o sempre, contra sua própria origem.  Mas dá vergonha ver o bullying contra menores por parte de quem nem por um único e fugidio instante reconhece seus julgamentos cruéis como tal.

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