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Cai a ficha: democratas percebem estrago de protestos violentos

A boa colocação de Joe Biden nas pesquisas levou a oposição a demorar muito para entender que anarquia nas ruas conta pontos contra o candidato

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 31 ago 2020, 15h46 - Publicado em 31 ago 2020, 08h28

Nem uma única das várias espécies de raposas políticas especializadas em campanhas eleitorais se daria ao luxo de achar que, criada a fama, está na hora de deitar-se na cama.

Incrivelmente, foi isso que aconteceu com os profissionais qualificadíssimos que pilotam a campanha de Joe Biden enquanto o candidato, com farol baixo, faz apenas aparições especiais e controladas.

Os oito ou até mais pontos do candidato democrata em todas as pesquisas criaram o maior perigo de uma campanha eleitoral: a complacência.

Pesaram também outros fatores importantes, como a necessidade de atender as alas mais à esquerda do partido, participantes nada entusiasmadas da frente única contra Donald Trump e muito mais interessadas em apoiar, quando não participar, dos protestos antirracismo que degeneraram para violência, vandalismo, saques e anarquia.

Quando abriram o olho, Donald Trump já havia alegremente capturado a bandeira da lei e da ordem e, com boa probabilidade, votos de eleitores assustados com o que estão vendo acontecer nas ruas das cidades mais importantes do país.

As cenas em Washington na sexta-feira, na saída da noite de encerramento da convenção republicana, foram impressionantes. 

Um senador, Rand Paul, atacado com impropérios e empurrões que só não viraram coisa pior por causa de um cordão de segurança improvisado, com policiais usando suas bicicletas como barreira.

Outro senador, Tim Scott, que é republicano e negro, foi peitado e chamado de “Pai Tomás” por menininhas brancas de bandana no rosto. 

Outros atacados: um militante gay, Brandon Straka, chamado daquela palavra feia que, se fosse da oposição, deixaria o país em pé de guerra, e fisicamente intimidado, o mesmo que aconteceu com o deputado republicano Brian Mast, com o agravante que ele perdeu as duas pernas na guerra do Afeganistão.

“A violência sem sentido não vai nos curar”, disse, desanimadamente, Joe Biden depois que as pesquisas mostram uma virada importante: dos 62% dos americanos apoiaram os protestos que se seguiram à morte de George Floyd, em 25 de maio, só 48% continuavam a ter opinião favorável.

É um número bem importante, mas longe de funcionar a favor na disputa pelos 10% de eleitores indecisos que podem definir a eleição: se a maioria se inclinar por Biden, o democrata terá uma vitória histórica. Caso contrário, virará Hillary Clinton Parte II.

Vendo a narrativa dar indícios de virada, com os manifestantes idealistas e pacíficos, embora um tanto irados, virando agentes do caos, os veículos de comunicação que apoiam Joe Biden sem sequer a preocupação de disfarçar começaram a soar os alarmes.

“A direita tem uma mensagem muito clara que martela com força incessante: os democratas querem a anarquia sem lei nas ruas e uma destrutiva política econômica socialista. Seus filhos não estarão seguros”, escreveu Nathan Robinson na edição americana do Guardian, avisando que sente um “perigoso cheiro de 2016 no ar”.

Por enquanto, as reações de Biden e dos outros candidatos democratas – lembrando que em 3 de novembro também estão em jogo todos os 435 postos da Câmara e 35 dos 100 do Senado – são bem fracas.

Em vários sentidos, os dois partidos procuram empurrar para o campo oposto a culpa por dois desastres. 

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Os democratas querem debitar na conta de Trump os mortos pelo coronavírus, que passarão de mais de 200 mil quando chegar a eleição.

Os republicanos responsabilizam prefeitos e governadores democratas pela violência nas suas cidades, não só pelos protestos sem nada de pacíficos como pela criminalidade comum, incentivada pelos cortes de verbas para as forças policiais.

Nessa disputa entre negativos, os acontecimentos pendem mais a favor de Trump. 

Os desastres causados pelo vírus foram mais ou menos absorvidos, mesmo com as mortes ainda “estabilizadas” num nível de mais de mil por dia.

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Mas os protestos violentos continuam, provocando agora casos de homicídios dos dois lados. Obviamente, o risco de que degenerem para confrontos a bala cria um cenário apavorante.

A nova onda praticamente emendou com as manifestações originais depois do outro caso que inflamou as tensões raciais, ocorrido em Kenosha, uma cidade pequena – uns 100 mil habitantes -, do tipo com a qual a população fora dos grandes centros pode se identificar, além de perceber claramente que a violência das manifestações é insuflada por gente de fora, treinada nas táticas da baderna profissional.

No incidente em Kenosha, Jacob Blake levou sete tiros depois de não atender as instruções dos policiais que respondiam a um pedido de socorro por risco de violência doméstica – ele tinha várias acusações nessa área, além de denúncia por agressão sexual agravada (invadiu a casa de uma ex-namorada e a submeteu a penetração por dedo, com detalhes escabrosos).

A parcela da população que quer “Deus, pátria, lei e ordem” já vota em Trump sem precisar de outros incentivos.

A disputa é pelos votos dos eleitores que desaprovam várias de suas atitudes, não se entusiasmam absolutamente por Joe Biden, repudiam comportamentos violentos da polícia e se assustam com a virulência dos protestos.

Adicionalmente, não querem ser chamados de racistas, o epíteto agora usado contra qualquer um que não levante o punho, ajoelhe-se ou não gritem o nome de negros mortos pela polícia.

Isso não é exagero de expressão: grupos de manifestantes invadem as áreas ao ar livre de restaurantes, ampliadas por causa da epidemia, e exigem que as pessoas às mesas entoem slogans de protestos.

“A maior ameaça a uma lavada eleitoral democrata não é o republicano na Casa Branca, mas os manifestantes que estão destruindo cidades em nome da justiça social”.

Quem escreveu isso foi Willie Brown, ex-prefeito democrata de São Francisco e veteraníssimo aposentado da política – tem 86 anos.

Brinde extra: foi ele quem abriu as portas do serviço público para uma namorada trinta anos mais jovem chamada Kamala Harris.

Hoje candidata a vice na chapa de Biden, ela deveria prestar atenção na mensagem do ex-mentor: quem quer ganhar eleição, não deve deitar-se prematuramente na cama da vitória antecipada.

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