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Assim passa a glória do mundo: Bush pai e as lições do poder

O Muro de Berlim caiu, Saddam Hussein foi tocado para fora do Kuwait e a União Soviética acabou. Nem assim o presidente conseguiu ser reeleito

Uma das piores coisas que aconteceu na vida de George Herbert Walker Bush foi não ter morrido alguns anos antes.

Teria evitado a fase da expressão abobada e a bobeira da mão deslizando nas protuberâncias traseiras de mulheres que posavam a seu lado na cadeira de rodas.

Nada, porém, foi mais arrasador do que perder a reeleição para um caipira dos cafundós do Arkansas chamado Bill Clinton, num dos mais instrutivos exemplos dos caprichos do poder em toda a história política americana.

Poucos presidentes tiveram fatos tão memoráveis a seu favor como Bush pai. Alguns, por pura sorte: a derrocada do comunismo na Europa Oriental já estava traçada quando ele assumiu, em janeiro de 1989, em boa parte por seu antecessor, Ronald Reagan e em parte maior ainda pela ascensão de Mikhail Gorbachev na União Soviética.

Mas o fim pacífico do comunismo nos países-satélites, nove meses depois, provavelmente o maior milagre político de nossa era, não era garantido e possivelmente teria desdobramentos fatídicos sem a firmeza de um presidente pouco dado a exibicionismos e as garantias da superpotência americana.

Botar Saddam Hussein para correr do Kuwait invadido cinicamente, num sinal de que o poder embriaga até profissionais do calibre brutal do ditador iraquiano, foi obra inteiramente de Bush.

“Isso não vai durar, não vai durar, esta agressão não vai durar”, reagiu Bush às primeiras notícias sobre o arrastão de tropas iraquianas sobre um vizinho muito menor e desaparelhado, embora fabulosamente rico.

O relato foi feito por John Meacham no livro Destino e Poder. Foi uma resposta tão intensa que até o assessor Brent Scowcroft se surpreendeu. “De onde saiu isso?”, perguntou.

“De mim mesmo, é meu”, respondeu Bush, um presidente nada chegado a elocubrações intelectuais, apesar do pedigree de primeira classe: neto de senador, filho de político e banqueiro, casas enormes cheias de cachorros e filhos à moda do patriciado, herói de guerra, Yale, milionário do petróleo por direito próprio, embaixador na ONU, diretor da CIA e vice-presidente de Reagan.

Meacham escreve que decidir tirar Saddam do Kuwait não foi um passeio para Bush. Forçar aliados que prefeririam olhar para o outro lado deu um trabalho danado.

“Não está na hora de dar moleza”, aconselhou Margaret Thatcher numa conversa por telefone. Ao contrário de Reagan, Bush não tinha afinidade com ela e a considerava “uma mulher difícil”. Mas adorou a expressão empregada.

Não deu moleza, usando uma mistura de diplomacia, sedução, promessas, troca de favores e pressões pesadas que só os poderosos podem fazer.

Mesmo no apagar das luzes, Gorbachev hesitava em abandonar um cliente tradicional como Saddam. E em pelo menos cinco ocasiões Bush achou que poderia sofrer impeachment se não conseguisse a autorização do Congresso americano.

Com tantos preparativos, expectativas e prognósticos tenebrosos, foi uma euforia coletiva quando o exército de Saddam pôs o rabo no meio das pernas e saiu correndo do Kuwait. Ao todo, morreram 132 americanos, boa parte em acidentes.

Quando a Operação Tempestade no Deserto acabou, em 27 de fevereiro de 1991, com sucesso extraordinário, Bush, chamado na intimidade de 41 para distingui-lo do filho, o presidente número 43, estava com 89% de aprovação popular.

Ele só não seria reeleito por um ato divino, era a impressão unânime. Em novembro do ano seguinte, o novato Bill Clinton.

A economia estava desenxabida, o acordo do NAFTA (que Donald Trump mudou e pretende encerrar de vez) era impopular com o operariado e muita gente ainda não se conformava que os impostos tinham subido, depois da promessa famosa feita pelo presidente de que isso não aconteceria. Até os desequilíbrios hormonais que sofria, por causa de uma doença na tiróide, talvez tenham influenciado na atuação fraca em debates.

Bush teve 37,4% dos votos, contra 43% para Clinton. Uma derrota acachapante que comparou a sofrer de câncer. Os dois, depois de entrarem para o clube dos ex-presidentes, se reaproximaram e até estabeleceram uma espécie de amizade colorida.

“Ele não vale nada”, brincava Bush. Referia-se a o ego insaciável que levava Clinton a tentar seduzir, mesmo que metaforicamente, todas as pessoas com quem cruzasse.

Sobre seduções reais, ao contrário de Clinton, Bush pai manteve total discrição sobre casos extraconjugais. O mais conhecido foi com a secretária Jennifer Fitzgerald, mas nunca aflorou escandalosamente, embora Hillary Clinton tenha tentado explorar o caso quando as gatas no armário do marido dela começaram a aparecer ainda durante a campanha.

Uma falta de classe total, plenamente ignorada por Barbara Bush, com seus cachorros, suas roupas sem graça, o colar de pérolas de bijuteria e o cabelo teimosamente branco, como é típico do patriciado.

O lado bom de Bush ter chegado aos 94 foi que entrou na era Trump, o suficiente para que todos os adversários que o consideravam a encarnação do mal e do republicanismo mais perverso passassem a elogiá-lo como um exemplo de bom comportamento presidencial.

A esta altura, provavelmente ele já havia compreendido que a glória do mundo passa e até prega alguns sustos. Restam os cães e sua fidelidade. Os únicos amigos que um homem pode ter em Washington ou em qualquer outro lugar onde o poder reine acima de tudo.

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