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Alerta vermelho: mundo volta a parar por temor do vírus e suas variantes

Declaração de finalidade para poder viajar, quarentena compulsória em hotéis e volta do confinamento puro e duro assombram países ocidentais

Por Vilma Gryzinski 28 jan 2021, 08h09

“Todo mundo precisa estar preparado para ter potencialmente sérias alterações em suas viagens”. 

Em linguagem mais direta do que diplomática, o Departamento de Estado avisou assim os americanos que se encontram no exterior, alertando-os que retornar aos Estados Unidos pode “ficar mais difícil por um tempo”.

Os que pensam em fazer viagens opcionais, devem reconsiderar “seriamente” a decisão.

Em outras palavras: com os estrangeiros provenientes de países onde já grassam ou podem se disseminar uma ou mais das três variantes do vírus da Covid-19, incluindo o Brasil, já proibidos de entrar nos Estados Unidos, quem pode enfrentar restrições agora são os próprios cidadãos americanos ou residentes.

Não vamos nem lembrar o tempo em que erguer barreiras a estrangeiros era considerado coisa da direita brucutu, que dirá a nacionais.

Tendo assumido a presidência há uma semana, Joe Biden, como todos os outros governantes responsáveis, está enfrentando com as armas disponíveis o que já foi chamado de “pandemia dentro da pandemia” e precisa mostrar serviço.

As restrições aos próprios cidadãos estão sendo introduzidas na Grã-Bretanha – numa espécie de proibição cruzada: como a primeira variante, chamada de Kent, por seu lugar de origem, provém da Inglaterra, os locais ao mesmo tempo que proíbem são proibidos de circular internacionalmente.

Os  cidadãos britânicos provenientes de trinta países onde as variantes foram ou poderão ser detectadas, pela proximidade com os já identificados, terão que ser compulsoriamente internados em hotéis de aeroporto durante dez dias até que dois testes comprovem não estar contagiados.

A quarentena é paga do próprio bolso, com quantias em torno de 1.500 libras – uns doze mil reais. Quem conhece hotéis do tipo sabe que é como ter que pagar por sua própria estação no inferno.

O “processo de isolamento administrado”, eufemismo para a quarentena em lugar controlado, afeta potencialmente cerca de 350 mil cidadãos britânicos residentes nos países da lista negra.

E quem quiser sair do país precisa apresentar uma declaração com “motivo válido” – algo que evoca os países da antiga órbita soviética ou o Brasil do regime militar, mas evidentemente não tem a mesma natureza estruturalmente autoritária, apesar da grande semelhança.

“Sair de férias não é motivo válido”, avisou Priti Patel, a ministra do Interior que sempre defende medidas mais duras de combate à epidemia.

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Os outros motivos considerados válidos pelos viajantes serão verificados pelas empresas aéreas no momento do check-in. Mais um pouco de estação no inferno.

Em resumo: as restrições a viagens e livre movimentação estão sendo notavelmente apertadas por governos que não conseguem diminuir as contaminações e mortes.

Ou mesmo aqueles que, tendo algum sucesso na queda ou na estabilização dos números, enxergam a nova tempestade armada no horizonte: variantes que são mais contagiosas ou letais – ou ambos – podem se tornar dominantes, com a perspectiva assustadora de que as vacinas, ou algumas delas, não tenham a mesma eficácia. 

A reinfecção de uma moradora de Manaus abriu essa possibilidade. Se os anticorpos gerados pelo contágio inicial não bastaram para evitar uma segunda infecção, potencialmente o mesmo pode acontecer com os já vacinados.

Na França, a volta do confinamento estrito, com escolas fechadas, horário rígido para poder sair de casa e porte de declaração para confirmar o cumprimento da norma, é uma das opções bastante prováveis. Está sendo chamado de “confinamento preventivo”.

Quem resiste, no momento, é Emmanuel Macron – talvez esperando que, como aconteceu na primeira onda, o clamor social causado pelo medo justifique uma paralisação do tipo que nenhum governante gosta de decretar por saber os resultados em economias já cambaleantes.

O toque de recolher, em vigor a partir das seis da tarde, “não é um freio suficiente” para a propagação do vírus, disse o porta-voz do governo, Gabriel Attal, preparando o terreno para o novo aperto.

Brasileiros, britânicos e sul-africanos são hoje considerados ameaças em potencial por causa das variantes surgidas nos respectivos lugares de origem e já estão proibidos de viajar para praticamente todos os países.

Uma vez instaladas as restrições, dificilmente serão suspensas a curto prazo. Alguns especialistas do setor de viagens chegaram a falar num prazo de até um ano – uma verdadeira catástrofe para empresas aéreas e outras dessa área.

Isso vai segurar a propagação das novas formas do vírus? Dificilmente. Em hospitais de algumas regiões da Espanha, a variante de Kent já é diagnosticada em um de cada cinco casos.

Mas a opinião pública apoia em massa a ideia de “fechar as fronteiras” ao vírus modificado e nenhum governante quer ser acusado de negligência num momento em que a sirene do alerta vermelho volta a tocar.

O mundo pré-coronavírus existente na Europa, em que era facílimo visitar parentes no exterior, ter uma casa de férias em outro país, sair da neve para uma temporada de férias na praia ou pegar o Eurostar para ir trabalhar toda semana em outro país, parece cada vez mais uma miragem do passado.

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