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‘Primeiros Contos de Truman Capote’ coloca em evidência o autor em formação

Por Maria Carolina Maia Atualizado em 30 jul 2020, 23h03 - Publicado em 9 abr 2016, 09h00
Rendezvous With Truman Capote  (Photo by JARNOUX Patrick/Paris Match via Getty Images)

Truman Capote (Getty Images)

Rafael Aloi

Em 2013, foram descobertos nos arquivos da Biblioteca Pública de Nova York textos do renomado autor Truman Capote. São pequenos contos produzidos durante sua adolescência e juventude, muito antes de ficar famoso com os romances A Sangue Frio e Bonequinha de Luxo. Alguns chegaram a ser veiculados pela revista da escola que Capote frequentava, outros nunca foram publicados. O livro Primeiros Contos de Truman Capote (Editora José Olympio, tradução de Clóvis Marques, 160 páginas, 32,90 reais) traz 14 destes contos, até então inéditos no país, e que apresentam um escritor em formação.

As história são curtas, com no máximo 15 páginas. Como cenário, o escritor utiliza principalmente o ambiente em que nasceu e passou sua infância, os estados sulistas da Louisiana e Alabama, para ficcionalizar as vidas dos mais diversos tipos de pessoas. Apesar de rápidas e aparentemente banais, todas as narrativas carregam um ponto de tensão forte, como se um grande perigo ou desastre estivesse próximo de acontecer (e acontece, às vezes).

Os contos foram escritos por Capote até os seus 20 anos, sendo impossível atualmente definir com certeza o ano em que cada um foi concebido. Desde cedo, é possível perceber uma grande característica do autor, a empatia. Elemento que mais tarde aparece com vigor naquela que seria sua maior obra, A Sangue Frio. Os contos também evidenciam a atração do autor pelos marginalizados e vulneráveis, uma possível relação com a própria juventude de Capote, um segregado dos meios que circulava por causa da homossexualidade.

Essas figuras excluídas são justamente os elementos mais proeminentes dos contos. Capote as tira das sombras para colocá-las no foco dos holofotes. Surgem nas narrativas pessoas sem-teto (Despedida), uma criança solitária (Hilda e Isto é para Jamie), uma negra se mudando para Nova York (Lucy), uma senhora idosa considerada louca (Senhorita Belle Rankin), uma senhora abandonada à beira da morte (O Estranho Íntimo), uma garota mestiça (Louise), entre outros.

Em dois contos em especial, o escritor destaca os negros, porém não consegue se colocar no lugar deles, sendo necessários que narradores brancos assumam a voz nas histórias descrevendo os outros personagens, considerados mais vulneráveis. Em Lucy, escrito em primeira pessoa, o narrador é uma criança que se muda para Nova York (quase um alter ego do escritor) e conhece uma cozinheira negra que viaja para trabalhar na nova casa. A narrativa conta a relação dessa criança com a empregada deslumbrada com a cidade grande, mas que sente saudade da sua pacata terra natal. Já em Louise, o narrador é uma garota branca que pretende desmascarar sua rival no colégio revelando a todos que ela na verdade é descendente de afro-americanos. Prova de que, apesar do grande talento para a empatia desde cedo, o autor ainda possuía fortes limitações.

Já o conto Almas Gêmeas se diferencia um pouco dos outros textos por se ambientar em uma classe mais favorecida. Acredita-se que este é o ultimo conto da coletânea a ter sido escrito, o que pode indicar como o perfil do autor mudava enquanto ele se aproximava da vida adulta, aos vinte e poucos anos, e sua mudança para a cidade de Nova York, abandonando o pacato e pobre interior americano.

No geral, os textos apresentados no livro trazem o estilo ainda em formação. Primeiros Contos é uma boa experiência para se entrar em contato com os registros mais primitivos de um escritor que ainda viria a se aperfeiçoar ao longo de sua carreira. Apesar de serem suas primeiras tentativas na ficção, Capote já demonstrava um dom inato para narrar grandes histórias.

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