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Ilustrador critica texto do curador do Jabuti: ‘Homofobia e iconofobia’

Para Roger Mello, vencedor do Hans Christian Andersen, deslocamento da ilustração para as categorias técnicas mostra desconhecimento da imagem narrativa

Por Maria Carolina Maia Atualizado em 15 jun 2018, 16h39 - Publicado em 15 jun 2018, 12h01

O ilustrador Roger Mello viu não apenas homofobia, mas também iconofobia na mensagem dirigida pelo agora ex-curador do Prêmio Jabuti, Luiz Armando Bagolin, ao seu companheiro, Volnei Canônica, na última terça-feira, 12. No espaço para comentários de uma coluna feita por Canônica para o site PublishNews, em que o especialista em literatura infantil criticava as mudanças no Jabuti, Bagolin escreveu, com ironia, que Volnei Canônica estava fazendo “principalmente a defesa indefectível de seu amor”, Roger Mello. “Afinal hoje é dia dos namorados. Bjs a vcs!”, concluía. Bagolin pediu demissão no fim da manhã desta sexta-feira.

A mensagem viralizou no meio literário e foi considerada homofóbico por muitos nas redes sociais. “Se fosse um casal heterossexual, diriam que é machismo”, pondera Mello, terceiro brasileiro a vencer, na história, o Hans Christian Andersen, principal prêmio dedicado à literatura infantil. Os outros dois foram as escritoras Ana Maria Machado e Lygia Bojunga. “Eu vejo relações entre homofobia e iconofobia, o pavor da imagem”, diz Mello, para quem o deslocamento da categoria ilustração para a área de prêmios técnicos do Jabuti demonstra “o desconhecimento da relevância da imagem narrativa ou sua desvalorização frente à cultura da palavra”.

“A palavra é, junto à cerâmica, a invenção mais relevante da humanidade, mas não exclui a imagem narrativa. O livro sempre foi ilustrado. Papiros, placas de barro, feixes de bambu, rolos, códices”, diz. “O termo ‘perícia técnica’ é esdrúxulo nesse caso. Parece CSI. Não vamos dissecar para entender. Isso é atraso. Não serve também para a ilustração científica, que envolve arte e ciência. Porque arte não exclui ciência. O livro é um objeto polissêmico, amplo, um gênero feito de muitos gêneros. É também respiração e ritmo.”

  • Outras mudanças feitas por Bagolin que Mello e Volnei criticam são a extinção da categoria livro-reportagem e a fusão das categorias infantil e juvenil. “Ao juntar as categorias infantil e juvenil, eles desvalorizam ao mesmo tempo o infantil e o juvenil, que são responsáveis por mais da metade das vendas do mercado”, diz Mello. “Queremos diálogo em favor da inclusão dos jovens que abarrotam as feiras e estão sendo deixados de lado.”

    A edição deste ano do Jabuti reduziu de 19 para 18 as categorias da premiação, com a intenção de diminuir a cerimônia de entrega dos troféus, que durava horas e era muito cansativa. Também foram cortados o primeiro e o segundo lugares de cada categoria, o que Roger Mello acredita que seria suficiente para dar dinamismo ao evento. Com menos ganhadores, os valores dos prêmios crescem: o vencedor de cada categoria leva 5.000 reais e o de livro do ano, 100.000 reais. A festa está marcada para 8 de novembro.

    Procurado, até o fechamento deste texto o curador do Jabuti não foi encontrado para comentar o caso. Ele entregou seu pedido de demissão à Câmara Brasileira do Livro (CBL) no final da manhã desta sexta.

     

    ‘Briga pelo Jabuti’

    Tanto Roger Mello como Volnei Canônica sustentam que estão brigando pelo Jabuti, um prêmio que dizem admirar e que esperam que “volte a ser inclusivo”. “Queremos o Jabuti digno, com sua relevância e valor simbólico”, diz Volnei.

    “Fico realmente triste que a CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o curador que deveriam pensar a área não conseguem enxergar o importante papel da literatura para os jovens leitores com o valor simbólico e de formação que ela representa”, afirma Volnei. “Todo esse movimento é para dizermos que não vamos aceitar mais retrocessos e nem que vamos deixar que tratem a literatura infantil e juvenil como uma literatura menor.”

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