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Flip: autor de ‘Trainspotting’ quer ‘virar’ série

Autor lança romance no festival literário e negocia adaptação de outros livros para TV e sala escura

Por Da Redação - Atualizado em 30 jul 2020, 22h23 - Publicado em 29 jun 2016, 13h51
PARIS, FRANCE - APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

Rafael Aloi

Irvine Welsh é um dos principais nomes da Flip 2016, que tem início nesta quarta-feira e segue até domingo, em Paraty, com homenagem à poeta brasileira Ana Cristina César. O escritor escocês participa de uma mesa nesta quinta sobre a dependência química na literatura nos Estados Unidos e no Reino Unido, tema que debate com o americano Bill Clegg, de Retrato de Viciado quando Jovem (Companhia das Letras).

Antes de sua chegada ao Brasil, Welsh conversou com o site de VEJA para falar um pouco sobre o livro que lança no país durante o festival literário, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas (tradução de Paulo Reis, Rocco, 416 páginas, 48 reais), que se passa em Miami, um local distante do seu cenário preferido, a terra natal, Escócia. “Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pelo próprio corpo, e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso.”

A vida sexual das gemeas siamesasO escocês também falou sobre o seu livro mais famoso, Trainspotting, lançado em 1996, que foi adaptado para os cinemas e rendeu dois livros derivados. “É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, e eles são muitos especiais para mim”, confessou o ator.

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Welsh também mostrou que conhece um pouco da literatura tupiniquim. Apesar de não se lembrar do nome do livro que leu – pela descrição da trama, pode ser Dias Perfeitos, de Raphael Montes –, ele disse ter gostado e sugeriu que mais histórias fossem vertidas para o inglês. “O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso”, analisou.

Confira a entrevista completa com Irvine Welsh:

Você escreveu Trainspotting em 1996. Lançou a sequência Pornô em 2002, e a prequel Skagboys em 2012. No ano passado, resgatou um dos personagens no livro The Blade Artist (O Artista Afiado, em tradução direta). O que o encantou tanto naquela história criada na década de 1990 que o fez revisitá-la tantas vezes? Eu amo esses personagens. É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, eles são muitos especiais para mim.

E o que fez os leitores gostarem tanto da história? Acredito que é porque mostra uma sociedade em transição. Uma transição para um mundo que nós não queríamos. A tecnologia mudou tudo o que fazíamos, e o capitalismo destruiu o que sobrou.

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No Brasil, você está lançando A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. O romance se passa em Miami, um local bem diferente da Escócia e do Reino Unido, onde suas outras histórias eram ambientadas. Por que você decidiu fazer essa mudança? Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pela imagem do próprio corpo, e Miami e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso, o que a Escócia não tem. Então, eu tive que escolher Miami, porque era o melhor lugar para essa história.

Você agora está morando nos Estados Unidos, como vê a diferença entre a cultura americana e britânica? Estou aqui na Escócia há um mês, e o que percebi é que aqui as pessoas bebem mais (risos), festejam mais. Eu adoro quando vou aos Estados Unidos e depois retorno ao meu país, porque aqui as pessoas berram uma com as outras, se abraçam, brigam, sempre com uma bebida na mão. São mais calorosas.

E você prefere falar sobre a cultura do seu país natal ou da América, onde mora agora? O mundo é muito grande, então eu busco não me limitar a um único tipo de cultura. Mas sou apegado ao local de onde venho, e é um lugar em que sempre posso me aprofundar sobre quando escrevo. Gosto daqui, pois há coisas únicas. Mas há sempre muita coisa acontecendo no mundo sobre as quais posso escrever.

Como já falamos, o seu novo livro se passa em Miami, um lugar que tem muita cultura latina. Você estudou essa cultura, ou já conhecia alguma sobre ela? Vocês aí na América Latina são gente fina, escutam músicas muito boas, usam roupas legais, gostam muito de festejar, beber, têm comidas ótimas, não tem o que não gostar daí. Talvez um dia eu escreva um livro que se passe nessa região, mas vocês já têm muitos escritores bons por aí. E com certeza eles fariam um trabalho melhor do que o que eu.

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Você conhece algum autor brasileiro? Há um tempo, conheci um rapaz que me deu um livro, um livro bem estranho, sobre um cara que sequestra a namorada e a prende em uma mala, e a obriga a fazer uma viagem com ele. Eu não lembro agora nem o nome do livro nem do autor, mas era bem interessante. O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas, o que se torna um obstáculo. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso.

E quais autores inspiraram você? Eu não tenho um nome específico. Na verdade, eu gosto dos que são ruins, aqueles que eu realmente não gosto do que li, porque eles me encorajam a pensar ‘Eeu preciso fazer algo melhor do que isso’. Enquanto os autores muito bons, às vezes desencorajam a gente, pois não sei se conseguiria fazer algo tão bom quanto eles (risos).

Você fica incomodado quando as pessoas o  chamam de “o autor de Trainspotting? (Risos) Não. Eu vejo isso de uma forma positiva. Eu me sinto lisonjeado que meu livro ainda seja tão lembrado.

Você está envolvido de alguma maneira com a sequência produzida por Danny Boyle? Ah, claro. Eu sou o produtor executivo do filme. Outro dia mesmo estive nos sets de filmagem conversando com os atores.

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O roteiro do filme é realmente baseado em Pornô? Um pouco. Mas é mais evoluído, pois Pornô já está um pouco velho, tem quase 15 anos. Tivemos que atualizá-lo e torná-lo mais contemporâneo. O filme trará os principais elementos do livro, mas também tem muita coisa nova e mudanças grandes. O que eu acho que ficou mais interessante, pois eu não quero ver exatamente a mesma história que criei, prefiro ver algo novo.

Que outros livros seus você gostaria de ver no cinema? Eu gosto de Filth, que já ganhou um filme em 2013, e acho que fizeram um bom trabalho nele. Eu já fui procurado sobre uma adaptação de A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, mas ainda estou avaliando. Há ideias para transformar Skagboys e Crime em séries de TV, também.

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