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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

O que a risada de Temer revela

Ex-presidente e convivas riram de Bolsonaro. Mas deboche é com o povo brasileiro e fala mais sobre a elite do que sobre o atual governo federal

Por Matheus Leitão 14 set 2021, 16h08

Viralizou o vídeo em que o ex-presidente Michel Temer (MDB) ri da imitação de Jair Bolsonaro (sem partido) feita pelo humorista André Marinho, do programa Pânico. A cena se deu em um jantar organizado por Temer e que ocorreu no apartamento do empresário Naji Nahas.

O verdadeiro deboche, no entanto, é com o povo brasileiro. No momento em que Temer ajuda Bolsonaro porque precisa salvar a si próprio, como o Blog explicou em outro post, ele tenta se vender como um pacificador.

Esse adjetivo, no entanto, só se aplica a Temer caso signifique fazer vista grossa para os erros e desvios que sabotam o futuro do país –que continua sendo “do futuro”, como disse Stefan Zweig, mas que tem ficado apenas na promessa.

À mesa, apenas homens brancos e ricos, à imagem e semelhança das elites paulistana e carioca que ainda não aceitaram a evolução do tempo e da sociedade e insistem no modelo do “homem cordial”, conceito do historiador Sérgio Buarque de Holanda que remete à passividade simpática do brasileiro que permite uma relação de confusão entre família e Estado.

Além de Temer, de seu assessor que filmou a cena e de Nahas, estavam à mesa integrantes da imprensa, do direito, da medicina, do empresariado e da política. Tudo junto e misturado. Uma amostra fidedigna do topo da pirâmide social que não olha para além do próprio pé.

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No momento em que o Brasil volta a viver a tragédia da fome, da falta de vacinas, de insumos médicos, da inflação, do desemprego e do agravamento do fosso social, fazendo com que a distância entre os mais ricos e os mais pobres só aumente, a risada de Temer e de sua turma é um deboche com o povo brasileiro.

O primeiro motivo é que essa turma ajudou Bolsonaro a chegar ao poder. André Marinho imitou Bolsonaro e outras pessoas no jantar. Antes disso, vale lembrar, ele apoiou a eleição de Bolsonaro junto com seu pai, o empresário e político Paulo Marinho, atual presidente estadual do PSDB no Rio de Janeiro.

Todo mundo tem direito de errar. Mas vale lembrar que, antes da eleição, uma simples pesquisa no Google mostrava a quem quisesse que Bolsonaro sempre atuou em favor de privilégios e trens da alegria para servidores militares, defendeu a tortura, homenageou e admitiu amizade com milicianos e tratou mal as mulheres. Não é novidade, portanto, que o presidente seja um inepto, como Marinho gosta de insinuar em suas piadas sobre Bolsonaro. O capitão não mudou em nada em relação a quando Marinho estava fechado com ele.

Também à mesa o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente e dono do PSD, que também já se sentou à mesa com o PT de Lula e Dilma, com diferentes grupos do PSDB, com o MDB de Temer, com o bolsonarismo e se sentaria novamente com todos eles, rindo de quem quer que eles quisessem.

Como num romance de Eça de Queiroz e de Machado de Assis, as risadas de Temer no jantar da elite desnudam diversos setores da sociedade.

Por fim, chama atenção que em um jantar com tanta pompa, numa sala que lembra salões dos museus imperiais, aconteça na casa de um dos maiores trambiqueiros da história do país, Naji Nahas, conhecido por ter quebrado a Bolsa do Rio de Janeiro com um golpe de cheques sem fundo. Depois disso, ele se envolveu em outros escândalos. A elite não vê problemas em se sentar com esse tipo de gente.

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