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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Alfabetização midiática e informacional

O ensaísta Davi Lago lembra que o processo é incontornável para a manutenção democrática

Por Davi Lago Atualizado em 27 set 2020, 12h41 - Publicado em 27 set 2020, 10h57

Como combater fake news? A União Europeia articulou uma equipe de pesquisadores com a finalidade de combater a disseminação crescente de notícias fraudulentas nos pleitos eleitorais. O chamado Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Notícias Falsas e Desinformação apresentou em 2018 um relatório com recomendações para o combate aos conteúdos falsos baseado em seis pilares: (1) mais transparência por parte dos portais e provedores; (2) alfabetização midiática e informacional; (3) desenvolvimento de ferramentas para capacitar usurários e jornalistas a combater a desinformação; (4) promoção do uso positivo de tecnologias de informação de rápida evolução; (5) proteção da diversidade e da sustentabilidade do ecossistema dos meios de comunicação; (6) promoção de pesquisas acadêmicas sobre a desinformação. Chama a atenção o ponto número dois sobre a alfabetização midiática e informacional, já que em regimes democráticos o cidadão é a fonte e o destinatário do poder. Ou seja, a estratégia decisiva no combate à desinformação é educativa.

Conforme demonstra a pesquisa Redes, liberdades e controle de Benjamin Loveluck, a noção de informação alterou seu sentido no século vinte. Antes, ela designava um conteúdo semântico destinado a fornecer um “esclarecimento” ou uma “notícia”, originalmente em um contexto de investigação policial ou judicial, e, em seguida, também como um “fato levado ao conhecimento público” no contexto dos meios de comunicação de massa. Contudo, a partir da década de 1920, a ideia básica e a própria reflexão sobre a informação se voltaram sobre a forma das mensagens, e as maneiras de codificá-las, quantificá-las, processá-las e trocá-las com a ajuda de ferramentas matemáticas, independentemente de seu conteúdo semântico. Loveluck afirma que a internet é, em grande parte, “o resultado dessa reviravolta teórica, não só em sua concepção técnica, mas também no discurso informacional que acompanha as redes de computadores e de telecomunicação”. Vivemos em uma sociedade cada vez mais informatizada, portanto, a alfabetização midiática é processo incontornável para a manutenção democrática.

Desde o início deste século, com o avanço da internet no cotidiano, autores como Tzvetan Todorov alertam que a grande ameaça às sociedades ocidentais não são os autoritarismos externos, mas a persistência de democracias imaturas em seu interior. Cidadãos sem discernimento, imersos em bolhas incomunicáveis, são presas fáceis para todo tipo de desinformação. Ao receberem notícias falsas, compartilham prontamente, sem o devido questionamento. No Brasil, a discussão sobre estas questões precisa levar em conta o déficit educacional da população. De acordo com os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2020, o brasileiro lê pouco, cerca de 4,2 livros por ano. Apenas para comparação, os franceses leem 21 livros por ano em média conforme levantamento divulgado ano passado pelo Centre Nacional du Livre. Sem cidadania, educação e promoção da leitura é impossível combater informações fraudulentas. Como afirmou Emile Faguite, a arte de ler é a arte de pensar.

* Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo

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