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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

2020: o ano da destruição

Embaixador Roberto Abdenur escreve sobre as tentativas de destruição da democracia, da Amazônia e do legado de atuação internacional do país

Por Roberto Abdenur Atualizado em 29 dez 2020, 12h41 - Publicado em 29 dez 2020, 11h41

O ano de 2020 foi marcado por destruições – ou por tentativas de destruição – em aspectos importantes no cenário nacional: o governo tentou destruir a democracia, deixou a Amazônia entregue ao desflorestamento, foi incapaz de conduzir a economia, tenta apagar um legado de atuação internacional e deve continuar nesse caminho em 2021. No artigo abaixo, Roberto Abdenur, que foi embaixador na China, Alemanha e Estados Unidos e Secretário-Geral do Itamaraty, escreve para a coluna sobre a devastação vivida em 2020 e a importância de que múltiplas vozes se levantem para evitar que a cena se repita em 2021. Abdenur foi questionado sobre o que foi 2020 e o que será 2021. A resposta, bastante pertinente, pode ser lida abaixo: 

2020: o ano da destruição

* Por Roberto Abdenur

Ao longo do ano que agora finda o Brasil passou por diversas instâncias de destruição – ou, pelo menos, de tentativas de destruição. Tudo começou com as multitudinárias manifestações organizadas, incitadas e lideradas pelo próprio presidente da República, com ferozes ataques às instituições democráticas e ao Estado de Direito. Não conseguiu ele destruir a democracia em si mesma, mas abalou o clima de estabilidade e tranquilidade de que ela necessita para fortalecer-se. Bolsonaro prosseguiu com outro esforço de destruição: o da Amazônia, ao mostrar-se leniente e até conivente com os agentes de devastação da floresta – garimpeiros, grileiros, madeireiros – e presidir à desmontagem sistemática das entidades e mecanismos destinados a combater o desflorestamento. 

Foram também destrutivas a falta de atenção aos direitos dos povos indígenas e a incapacidade de debelar os focos de incêndio que atingiram em proporções sem precedentes a Floresta e também o Pantanal. Outra instância de destruição – esta verdadeiramente catastrófica em termos da perda de vidas humanas – foi a atitude negacionista do presidente em face da maior pandemia enfrentada pela humanidade em mais de um século. Foi criminosa a postura de descaso pela doença. Indiferença quanto às mortes e inoperância na tomada de medidas para o efetivo enfrentamento da terrível crise sanitária. Ao contrário de muitos países – vários mais pobres do que o Brasil – entramos em 2021 com enorme atraso  quanto à disponibilidade de vacinas, o que prolongará por ainda muito tempo  os temores e as incertezas da população. Na economia foi também destrutiva a incapacidade de levar adiante as reformas necessárias para reformatar o Estado e viabilizar o revigoramento das atividades produtivas. 

O pouco que se conseguiu foi obra do Congresso, à revelia de um Executivo paralisado por um chefe de Governo inseguro e desnorteado. Com a esmagadora maioria da população em estado de pobreza ou mesmo miséria, e dadas as limitações para o prolongamento do auxílio emergencial, a consequência dessa inação será, no ano que começa, talvez a maior crise social de nossa história. Mas uma obra particularmente notável de destruição  foi a que se deu na política externa. Foi posto a perder todo o valioso legado de uma atuação internacional iniciada há mais de um século por Rio Branco, o patrono de nossa Diplomacia, e enriquecido, desde a criação das Nações Unidas, por sete décadas de atividade dinâmica, que contribuiu para aumentar o poder do país e estimular seu desenvolvimento econômico. Aquela política exterior foi capaz de manter continuidade e coerência ao mesmo tempo em que respondia com realismo e pragmatismo às frequentes mudanças geopolíticas e à introdução de novas questões e desafios na pauta da comunidade internacional. 

A política externa atual se desdobra  numa nuvem de devaneios imaginários gerados por ideologia da mais radical extrema-direita, que combate fantasias como o “globalismo”, o “climatismo”, o “marxismo cultural”, o “covidismo”, o “comunavirus”. Supostamente empenhada na defesa de nossa “soberania”,  essa diplomacia procedeu de fato a uma inédita cessão de soberania,  ao colocar o país em posição de alinhamento submisso com os EUA de Trump. O resultado da destruição de nossa política externa foi situar o país como um “pária” no seio da comunidade internacional. Não é de esperar uma mudança desse quadro enquanto perdure este governo. Em suma: as forças destrutivas do governo Bolsonaro são inerentes à ideologia sectária que é de sua essência. Elas tendem a prosseguir em sua obra de devastação, a menos que contra elas se insurjam múltiplas vozes da sociedade civil, da imprensa  e das instituições que embasam a República, como o Congresso, o Judiciário e a Procuradoria. Urge também que procedam a uma reflexão – e eventual reavaliação – de sua atuação os militares que, embora imbuídos de nobres sentimentos patrióticos e movidos por boa-fé e boas intenções, tanto se permitiram identificar com um presidente impregnado de incontíveis impulsos de destruição.  

* Roberto Abdenur é embaixador e chefiou postos como o da China, da Alemanha e dos Estados Unidos, além de ter sido Secretário-Geral do Itamaraty

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