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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Questão de prioridade: da fila do ônibus para a das vacinas

Na escassez de imunizantes, depois dos grupos de alto risco, a lógica indica que o controle da pandemia se faz com a proteção de quem mais precisa circular

Por Marcos Emílio Gomes Atualizado em 18 fev 2021, 14h51 - Publicado em 18 fev 2021, 12h06

Tudo que se faz em situação de emergência tem intrinsecamente o risco de falhas que só são descobertas a posteriori. Foi assim com o auxílio emergencial, que, sabe-se agora, na discussão de uma nova dose, passou da medida das reais necessidades e abrangência. Mas a crítica é, de certo modo, uma engenharia de obra pronta – necessária apenas para evitar a repetição de problemas.

Do mesmo modo, já está claro a esta altura da vacinação que os critérios de administração da escassez adotados pelo Ministério da Saúde e pelas repartições encarregadas do processo nos estados e municípios podem ter efeito bastante reduzido no combate à velocidade de disseminação do coronavírus se não houver aprimoramento no cronograma, na ordem dentro dos níveis de prioridade e na distribuição das doses para os lugares onde são mais necessárias.

Assim, essas semanas de estreia da aplicação de vacinas, até pela limitação da quantidade disponível, fornecem bons elementos para se pensar no aperfeiçoamento do planejamento, em lugar de continuar prometendo o que não dá para cumprir, como tem feito o ministro Eduardo Pazuello. Se não houve atenção para antecipar a compra de imunizantes e o plano foi feito à última hora, ainda há tempo para organizar algo mais eficiente daqui para diante.

A prioridade para profissionais de saúde, idosos e grupos de alto risco, como população de rua e encarcerados, de fato pode reduzir a mortalidade nesses segmentos específicos – o que é importante para definir a solidariedade social diante do seu nível de exposição ou de fragilidade.

Nesses segmentos, o máximo que se pode aprimorar é aumentar o rigor na identificação dos vacinados para que não se amplie a burla por parte de médicos, enfermeiros e dentistas em nada relacionados à covid-19 que entram pela janela da imunização em várias cidades, acompanhados de pequenas autoridades paroquiais.

Mas, ao ampliar a distribuição para as outras faixas prioritárias, um critério a ser considerado é o do nível de exposição do cidadão ao risco de contaminação, determinado principalmente pela utilização do transporte público, certamente o foco mais evidente de disseminação viral.

Ou seja, nas grandes cidades, dentro de cada grupo prioritário, podem ser os primeiros aqueles que comprovem o uso de ônibus, metrôs e trens de subúrbio, com os cartões cadastro no sistema público ou com seu vale-transporte. O mesmo vale para trabalhadores que usam sistemas com veículos fretados.

A questão, nestes casos, é de controle sanitário, na medida em que não há como reduzir os riscos para essas pessoas que podem contrair o vírus a qualquer momento e tornar-se um vetor de novas infecções. Por exemplo: a turma da limpeza, que ganha menos e não tem carro, toma vacina antes dos colegas de uma repartição. Ou os colhedores de maçã são vacinados antes dos administradores da fazenda.

Noutro exemplo, ainda mais concreto: nas Forças Armadas, que compõem o grupo prioritário que vem logo depois de professores, polícias e bombeiros, seriam vacinados na primeira leva os soldados que se deslocam de ônibus para o quartel e na última os tenentes e capitães que vão de carro para o serviço.

Em outra perspectiva de aperfeiçoamento do plano adotado até agora, também a distribuição de um número proporcionalmente maior de vacinas para as áreas onde há mais casos e mortes faz mais sentido do que o loteamento realizado com base na densidade populacional. No Amazonas já se observou de algum modo essa proposição e espera-se que logo apareçam resultados do acerto na decisão.

Como há sólido controle estatístico sobre os pontos em que a epidemia avança mais rapidamente, é fácil determinar quais cidades ou, nas capitais, até mesmo bairros podem ser atendidos com vacinas antes de outros. Num paralelo com outras epidemias, causadas por mosquitos, a nebulização de inseticidas se faz sempre com mais intensidade nos locais onde há mais casos da doença.

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As estatísticas da cidade de São Paulo, por exemplo, mostram, desde o começo da pandemia, que os níveis de transmissão em bairros pobres e periféricos são bem maiores do que naqueles mais urbanizados e atendidos por serviços mais eficientes. Como se trata de uma antecipação de apenas semanas de um local em relação a outro, e como os benefícios são coletivos, até os moradores de áreas com menos contaminados teriam razão para ceder a prioridade.

Uma das razões pelas quais o planejamento da vacinação tem essas e provavelmente muitas outras oportunidades de aperfeiçoamento se relaciona com o próprio caráter dessa experiência inédita no planeta, de uma pandemia verdadeiramente global.

Decorrido o primeiro ano de uma nova história do planeta Terra, é quase inacreditável que tão pouca gente tenha se dado conta de que a atual mudança na economia e no comportamento dos humanos não é uma situação transitória.

Acontece um processo universal de negação, representado por um discurso quase generalizado sobre a possibilidade de o mundo voltar ao “normal” quando a vacinação tiver alcançado número suficiente de pessoas para compor a chamada imunidade comunitária.

Certamente a humanidade só prosperou porque sempre existiram otimistas acreditando que as temporadas de seca um dia acabariam, mas nada teria dado certo se não houvesse os realistas sugerindo guardar provisões para um longo período de escassez.

No caso da pandemia, o limite do otimismo talvez seja o de acreditar que se alcançará, sim, a imunidade coletiva, mas a visão realista e absolutamente minoritária indica que muita coisa terá mudado definitivamente quando se chegar lá – por razões como a permanente desconfiança do risco de uma nova pandemia e, principalmente, pela adoção de modelos novos de ação, econômica e sanitariamente mais sensatos.

A opção definitiva pelo trabalho em casa para grande parte dos profissionais, a prevalência do comércio online sobre o das lojas físicas e o estabelecimento de teias crescentes de sistemas logísticos transplanetários, integrados da produção e estoque até a distribuição por motoboys são apenas a pontinha visível de um iceberg de transformações.

Prédios de escritórios possivelmente não serão mais formigueiros humanos, centros comerciais em caixotes fechados terão de se abrir e arejar, escolas adotarão novos modelos conciliando o regime presencial com o virtual. Turismo, convenções de negócios e migrações foram impactos para sempre. As alterações profundas no modo de vida contemporâneo vieram para ficar.

A maior das consequências, porém, relaciona-se com a desigualdade de oportunidades entre ricos e pobres em cada país e, no plano global, entre países muito ricos e países muito pobres. Já era previsível bem antes da pandemia, mas se acirrou a um ponto que cria riscos de impacto imprevisível.

O desafio posto exige competências e coragem maiores do que se vê tanto na organização de processos de vacinação quanto na discussão de reformas tributárias e fiscais que continuam partindo do princípio de que tudo será igual quando a pandemia passar.

Se passar, não será.

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