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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Existe vida depois da morte…

A vida dos outros. Se a internet permite alcançar a eternidade digital, estampar a doação de órgãos nas redes sociais pode garantir milagres ainda maiores

Por Marcos Emílio Gomes - 18 set 2020, 17h19

O Brasil é uma país que tem relativo sucesso na área de transplantes de órgãos, algo que o governo atual ainda não prejudicou, talvez porque tenha não tenha prestado atenção a esse detalhe.

Apesar das grandes realizações nesse campo, uma das maiores dificuldades para fazer crescer significativamente o número de transplantes no país é o consentimento das famílias de potenciais doadores para a retirada, a tempo, de órgãos que possam ser implantados em pacientes inscritos nos sistemas que organizam os diversos tipos de procedimentos.

Há, no entanto, uma ideia simples prosperando a esse respeito, capaz de ampliar bastante a quantidade de doações.

Considerando que uma parte significativa e crescente da população tem perfis em redes sociais, essa ideia consiste em estimular usuários do Facebook, Linkedin, Youtube, Instagram e outros tipos de rede a registrar nos seus perfis, preferencialmente nas fotos que os identificam, a informação de que são doadores de órgãos.

Para as famílias de potenciais doadores, assim como para os sistemas que trabalham na captação de órgãos para doação, essa medida pode contribuir para acabar com dúvidas e hesitações em momentos definitivos, na decisão sobre a realização de procedimentos de coleta.

Embora essa sugestão não altere a legislação sobre doações – segundo a qual é a família quem tem direito de dispor sobre a doação, independentemente da vontade expressa em vida pelo potencial doador –, a ideia aumenta a possibilidade de que a intenção do falecido, registrada em seu perfil, venha a ser respeitada.

A proposta pode ter força de convencimento ainda maior porque boa parte dos perfis em redes sociais sobrevive depois da morte dos usuários, seja como memoriais dos falecidos, seja porque ninguém se mobiliza para removê-las ou ainda porque há alguma burocracia a cumprir para conseguir a exclusão.

Do ponto de vista prático, não faltam programas que permitem a usuários de redes sociais criar marcas d’água com algum tipo de texto ou imagem sobre suas fotos, dando personalidade própria à decisão de informar sobre a condição de doador de órgãos.

A maior parte desses programas é gratuita e muitos funcionam sem a necessidade de baixar nada no celular ou no computador – apenas com o acesso de um link na internet.

A campanha Setembro Verde pode ser a oportunidade para um grande movimento no mundo digital em favor das doações

Campanhas de interesse público, ainda que sejam brilhantemente criadas, perdem eficiência na medida em que vão se repetindo.

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No caso das campanhas desenvolvidas há alguns anos para veiculação no mês de setembro, representadas graficamente por um laço na cor verde, a ampliação de objetivos da mobilização indica que essa perda de alcance por sorte ainda está distante.

O programa teve início para divulgar apoio à inclusão social das pessoas portadoras de deficiência, logo passou a incluir alertas sobre a prevenção do câncer de intestino e tornou-se, já há algum tempo, uma espécie de campanha nacional anual pela doação de órgãos.

Este ano, como todo e qualquer outro projeto, o mês dedicado à conscientização de potenciais doadores foi impactado pela pandemia do coronavírus, pelo distanciamento social e, naturalmente, pela redução de espaço na mídia para outros temas de saúde, diferentes da Covid-19.

No entanto, o sistema de doações de órgãos no Brasil ainda é um grande caso de sucesso.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil é o segundo país no ranking de realização de transplantes e o SUS financia 96% dos procedimentos desse tipo.

O número de doadores, porém, não evolui conforme a fila de pacientes esperando doação e a disseminação do SARS-Cov-2 tem uma contribuição negativa na oferta de órgãos que ainda está longe de uma avaliação correta.

Uma das características do mundo digital é a capacidade de registrar atos e informações sobre qualquer pessoa para a eternidade.

Se alguém teve o nome citado na rede mundial em alguma ocasião, basta uma pesquisa em site de busca para chegar a essa informação.

Se sua imagem e seus registros podem permanecer para sempre, na internet, por que não permitir que, usando essa mesma ferramenta, também seus órgãos tenham sobrevida, salvando a vida de outros?

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