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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Despreparo diante do coronavírus é sintoma de subdesenvolvimento

Medidas para conter a epidemia revelam problema aritmético, desprezo pelo risco e desconfiança sobre viajantes, num retrato da desigualdade entre nações*

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 15 mar 2020, 18h13 - Publicado em 27 fev 2020, 21h54

Países também têm, entre si, relações de desigualdade, o que determina que alguns são subdesenvolvidos, outros são considerados em desenvolvimento e, em minoria, desenvolvidos.

A questão da desigualdade entre nações traz relação também com a competência e qualificação dos gestores públicos. É certo que nações subdesenvolvidas têm, em geral, funcionários públicos menos qualificados e mais propensos a dizer ou cometer equívocos que acabam custando caro aos cidadãos daquele país – quando não se metem em atividades ainda mais graves.

No caso brasileiro, há muito a comentar quanto à capacidade e até o tirocínio de nossos ministros e demais funcionários governamentais, para ficar apenas no campo das competências.

Mas, de imediato, não pode passar sem espanto a afirmação do secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, que, em entrevista sobre as medidas adotadas para o risco de disseminação do Covid-19 no Brasil, disse, nesta quinta 27, que a triagem de passageiros de voos internacionais é inexequível e ineficaz, argumentando que deter “cada passageiro um minuto a mais para questionamentos e medição de temperatura” equivale a criar “um caos sem precedentes na chegada ao país”.

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A lógica mais elementar demonstra que, numa hipotética fila de passageiros, se cada um demorar um minuto a mais para sair do aeroporto, o último deles demorará exatamente um minuto a mais do que demoraria normalmente. O tempo extra não se soma, passageiro a passageiro, em progressão contínua, mas sim ao que cada um despende em seu desembarque.

Além disso, como sabe qualquer cidadão que tenha voado de retorno ao país ou mesmo um estrangeiro que tenha desembarcado aqui, os lentos procedimentos de imigração não ficariam em praticamente nada aumentados pelo acréscimo de um minuto para cada atendido.

Aliás, caberia até pensar em medir a temperatura dos passageiros enquanto esperam na fila pelo atendimento dos postos de entrada no país. Desse modo, nem esse minuto extra de que fala o secretário seria acrescentado à espera.

Para coroar sua explanação, o secretário informou que só oito em cada 100 infectados poderiam ser detidos numa fiscalização sanitária em aeroportos. Lendo ao contrário, pelo menos 8% dos viajantes de risco seriam detidos nessas barreiras – o que Gabbardo e o Ministério da Saúde acham pouco.

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Por fim, o secretário considerou que passageiros em estado febril, para burlar a fiscalização, poderiam tomar duas aspirinas antes de passar pelo controle, tornando inútil a barreira sanitária.

Diante disso cabe perguntar se ele, Gabbardo, cujo currículo parece adequado à função, voltando de uma viagem a um país em que a epidemia corre solta, percebendo durante a viagem sintomas graves da doença, tentaria fraudar um controle médico ou preferiria ser atendido de imediato?

A resposta ajudaria muito a entender como o secretário se preparou para o processo de explicar a campanha de enfrentamento ao risco de epidemia. Nada indica que tenha refletido sobre o que falou.

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(*) A alteração mais recente neste texto trocou o endereço de e-mail do colunista.

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