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O acelerado processo de “bolsonarização” de Marcelo Queiroga

Em nome da aproximação com o presidente, Ministro da Saúde vem se afastando cada vez mais da ciência

Por Camila Nascimento Atualizado em 22 out 2021, 13h37 - Publicado em 22 out 2021, 13h33

O anúncio do substituto do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde provocou algum otimismo entre aqueles que ainda acreditavam em uma guinada na direção negacionista do governo frente a pandemia. Afinal, o escolhido não vinha do setor militar e, sim, da área médica: Marcelo Queiroga ocupava o cargo de presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e, até então, era um profissional respeitado entre seus pares. Passados sete meses da posse, no entanto, a expectativa de uma atuação mais técnica e totalmente embasada na ciência se frustrou, a ponto de Queiroga ser um dos citados pelo relatório final da CPI da Pandemia. A comissão sugere que ele seja indiciado por epidemia com resultado de morte e prevaricação. Queiroga negou-se a falar sobre essas acusações: “Não sou comentarista de relatório”, disse.

Cada vez mais, em nome de suas ambições políticas e da tática de sobrevivência na Esplanada dos Ministérios, Queiroga vem se “bolsonarizando”. Embora venha declarando que pretende seguir no governo até 2026, nos bastidores comenta-se que ele tem a pretensão de tentar uma candidatura ao senado em 2022. Antes de assumir o atual posto, Queiroga já era conhecido pela família do presidente. Ele foi uma indicação do senador Flávio Bolsonaro, de quem é amigo pessoal. O ministro é próximo do também cardiologista Hélio Figueira, sogro do filho de Bolsonaro. Após as eleições de 2018, Queiroga integrou a equipe de transição do governo na área de saúde.

Um dos episódios que mostrou seu esforço para não trombar de frente com o chefe foi no caso da suspensão da vacinação de adolescentes. O Ministério da Saúde recomendou a paralisação da imunização de jovens entre 12 e 17 anos sem comorbidades, em setembro. Queiroga classificou a vacinação de adolescentes como “intempestiva” e admitiu que havia recebido um pedido de Bolsonaro para rever a orientação. Na tentativa de defesa da medida, o ministro usou argumentos falsos. Queiroga disse que a OMS não indica a vacinação de jovens nessa faixa etária e que os seu benefícios não haviam sido ainda claramente definidos. Na verdade, a OMS não tem nenhuma contraindicação à imunização de jovens entre 12 e 17 anos, apenas considera mais urgente a priorização das populações mais vulneráveis que ainda não tiveram acesso aos imunizantes. O ministro também citou o caso de um adolescente de São Bernardo que morreu após tomar a primeira dose da Pfizer, mas o óbito não estava ligado à vacina.

Outra cruzada de Queiroga em nome do alinhamento com Bolsonaro é na questão do uso obrigatório de máscaras. Em agosto, Queiroga afirmou ser contra a medida em entrevista ao canal Terça Livre, de Allan dos Santos (o blogueiro bolsonarista teve o pedido de prisão decretado na quinta, 21, por ordem do ministro Alexandre Moraes, do STF) . Recentemente, Queiroga reforçou o seu posicionamento: “Sou absolutamente contrário [a leis que obrigam o uso de máscara e passaporte de vacinação]. O governo federal defende primeiro dignidade da pessoa humana, a vida, a liberdade. Eu acho que uma lei para obrigar qualquer coisa é um absurdo, porque não funciona. Temos que fazer as pessoas aderirem às recomendações sanitárias”, argumentou. 

Alvo constante de críticas por causa dessas posturas, Queiroga deu vexame em viagem a Nova York, na qual fez parte da comitiva que acompanhou o presidente por ocasião da Assembleia Geral da ONU em Nova York. Diante de um grupo de brasileiros protestavam contra Bolsonaro, Queiroga respondeu com um gesto obsceno. Um vídeo da atitude do ministro foi amplamente divulgado nas redes sociais. Na mesma viagem, Queiroga contraiu Covid-19 e foi obrigado a permanecer no hotel em Nova York, cumprindo a quarentena obrigatória.  Após o diagnostico, ele compartilhou no Instagram uma postagem anti-vacina. A publicação sugere uma ineficácia dos imunizantes e do uso da máscara no combate à doença. “Que ironia! Ministro @marceloqueiroga seguiu todos os protocolos, vacinou com a Coronavac, usa máscara o tempo inteiro e foi contaminado. O presidente não se vacinou, não usa máscara estava ao lado dele e não pegou. Melhoras ministro!”, dizia o post.

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