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Um transtorno psiquiátrico pode trazer algum benefício ao paciente? Com Phelps, foi isso que aconteceu

No nosso imaginário coletivo, doença mental está fortemente ligada a sofrimento, perdas em diversas áreas da vida, estigma e preconceito. Nada mais previsível, considerando o seu efeito devastador na vida de muitos portadores, de suas famílias e o abandono da saúde mental nas políticas públicas no país. Mas será que pode existir algo bom por […]

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Foto: Ivan Pacheco

No nosso imaginário coletivo, doença mental está fortemente ligada a sofrimento, perdas em diversas áreas da vida, estigma e preconceito. Nada mais previsível, considerando o seu efeito devastador na vida de muitos portadores, de suas famílias e o abandono da saúde mental nas políticas públicas no país.

Mas será que pode existir algo bom por trás desse cenário tão negativo? E mais importante, quais fatores podem polinizar tais aspectos positivos?

Estudos mostram que indivíduos com transtorno de humor bipolar na idade adulta podem ter uma capacidade de inteligência na infância maior do que a média da população. De longa data, reconhece-se que algumas crianças com transtorno do espectro autista podem ter capacidades perceptivas muito diferenciadas. Situação semelhante ocorre com outras doenças.

Uma estrela da natação é prova disso. Não se preocupe, vamos passar longe do já batido triste episódio protagonizado pelo nadador Ryan Lochte. Vamos nos concentrar no ultracampeão Michael Phelps. Revisitando a sua história de vida, encontra-se um jovem inquieto, desatento e com problemas escolares na infância que levaram ao diagnóstico de transtorno de déficit de atenção/Hiperatividade (TDAH) aos 9 anos e ao uso de medicação para o transtorno até os 12 anos. Sim, ele usou a tão controversa medicação estimulante!

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento associado à imaturidade do funcionamento de algumas áreas cerebrais. O quadro se caracteriza por um padrão de comportamento em que sintomas isolados ou combinados de desatenção, hiperatividade e impulsividade dominam o dia a dia do indivíduo, principalmente em atividades pouco empolgantes. A doença acomete cerca de 5% das crianças e adolescentes e 2,5% dos adultos. Como uma pessoa com essas características pode ter o foco e persistência para arrebatar 28 medalhas olímpicas?

Deixando de lado a condição física privilegiada para o esporte em questão, Phelps tem algumas características comuns em pacientes com TDAH. Tais características, quando bem canalizadas e trabalhadas, podem ser muito benéficas. Uma energia impressionante e capacidade para “hiperfoco” em atividades que motivam seu interesse. Aliás, isso, muitas vezes, leva os familiares e profissionais a creditarem o problema erroneamente apenas a preguiça e desmotivação.

No caso de Phelps, somado a esses fatores, existe o elemento polinizador final: a ação incansável da mãe, Debbie Phelps, estruturando, organizando, planejando os passos junto com o filho. Funcionando quase como, nas palavras do professor Paulo Matos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um lobo frontal acessório enquanto tal região cerebral ainda está imatura.

Outros estudos têm surgido recentemente na mesma direção. Um deles sugere, por exemplo, que algumas características do TDAH possam ser valiosas para o empreendedorismo. Assim, um grau controlado de impulsividade pode ser crucial para a disposição de correr algum risco, característica essencial de um bom empreendedor.

Vale, portanto, reservar espaço para aquilatar forças e potencialidades dos nossos pacientes em qualquer avaliação clínica cuidadosa. Quem sabe uma nova medalha olímpica possa vir também de outro tipo de condição potencialmente adversa, diferente daquela enfrentada por Rafaela Silva, nosso ouro olímpico no judô!

luis-augusto-rohde

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