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Há relação nas mutações do SARS-CoV-2 com a doença nos visons e humanos?

Os pesquisadores estão alertas e já desenvolveram métodos para rapidamente identificar a associação com as infecções

Por Salmo Raskin Atualizado em 10 nov 2020, 12h42 - Publicado em 10 nov 2020, 12h32

Visons, cuja pele é historicamente valiosa para casacos, ficam em cativeiros em fazendas, principalmente da Dinamarca (país aonde há 3 Visons para cada habitante!), Holanda, Espanha, Polônia, Suécia, Itália, EUA e China. Presos em gaiolas “personalizadas” e a princípio isoladas, mas que são permeáveis permitindo a passagem de vírus entre elas.

Em abril de 2020 foi constatado que humanos que tomam conta de alguma destas fazendas na Holanda se infectaram pelo SARS-CoV-2 e em seguida infectaram visons, que infectaram outros visons. Acredita-se que através da poeira inalada nestas fazendas, contendo partículas com fezes de visons infectados, humanos se infectaram com o SARS-CoV-2 provenientes de visons. Desta forma se descobriu não só que os visons são particularmente suscetíveis ao SARS-CoV-2, sendo que muitos já morreram decorrentes da Covid-19, como podem infectar seres humanos.

Mais problemática que esta cadeia de transmissão humano-animal-humano, autoridades da Dinamarca dizem que detectaram mutações no SARS-CoV-2 que infectou os visons. Um vírus tenta escapar das defesas imunológicas de seu hospedeiro mudando o código genético que codifica para a proteína que usa para se grudar na membrana da célula do hospedeiro. SARS-CoV-2 utiliza uma parte da região RBD da proteína Spike para se grudar a proteína ACE2 da membrana das células de seus hospedeiros, entre eles humanos e visons. Segundo o governo da Dinamarca, cinco grupos (“clusters”) de novas variantes foram detectadas na sequência genética de SARS-CoV-2 em visons de inúmeras fazendas que fazem parte da industria de casacos, todas localizadas no norte da Dinamarca.

Quatro destes grupos de variantes genéticas parecem não requerer maior cuidado. Mas o quinto grupo destas variantes (“Grupo 5″ ou Cluster 5”) é composto por 4 mutações que poderiam ser perigosas, denominadas 69del, I692V, M1229I e Y453F. Afirmam os Dimarqueses que já detectaram 214 pessoas com uma das variantes dos cinco grupos de mutações, e entre estas, 12 pessoas teriam variantes detectadas especificamente no Grupo 5, e que isto seria muito preocupante visto que, segundo as autoridades dinamarquesas, estudos preliminares feitos por eles (cujos resultados foram divulgados para autoridades européias e para a OMS, mas não publicamente) sugerem que cepas contendo as variantes do Grupo 5 poderiam ser mais resistentes a anticorpos de pacientes que ja se recuperaram da COVID-19, e, portanto, pessoas infectadas por estas cepas poderiam ser menos responsivas a tratamentos e vacinas. Porém este argumento parece não fazer muito sentido, visto que as vacinas contra Covid-19 foram desenvolvidas para gerar mais de um tipo de anticorpo contra várias partes da proteína Spike, de modo que, se um anticorpo específico não funcionar por causa de uma mutação no vírus, outros funcionarão.

Mesmo assim, como este tipo de estudos são demorados para dar resultados conclusivos, os dinamarqueses optaram por não correr riscos, escolheram agir de maneira rápida e preventiva, e abater os 17 milhões de Visons, assim como efetuar um lockdown parcial e testagem de toda a população da região do norte da Dinamarca em busca de infectados. As autoridades dinamarquesas informam que já estavam planejando estas medidas, e a detecção de novas cepas genéticas em visons foi só a gota d´água final para tomar tal decisão. O processo de abate dos visons já iniciou e deve ser finalizado nos próximos dias.

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Na comunidade acadêmica mundial a decisão dinamarquesa não é um consenso, se o ponto de partida para a decisão foram as mutações. Alguns cientistas defendem que não há forte evidência de que tais variantes genéticas possam trazer um impacto importante nos tratamentos e vacinas, no presente momento. Por exemplo, das quatro variantes do Grupo 5, três se localizam fora da parte mais importante da proteína Spike (a região RBD), e portanto não devem ter maior impacto. A quarta variante, Y453F, situada na RBD de Spike, parece que é a que mais preocupa os Dinamarqueses, pois raramente havia sido detectada em humanos, sendo praticamente específica dos Visons.

O receptor de membrana ACE2, por onde o SARS-CoV-2 entra nas células, é semelhante mas não igual em Humanos e Visons. Esta variante Y453F pode ter surgido para adaptar o SARS-CoV-2 especificamente à infecção de Visons, o que não quer dizer que seja mais eficiente na infecção de humanos. Alem disto, com centenas de milhares de cepas de SARS-CoV-2 testadas em infectados de todos os locais do mundo, jamais foi detectada uma única pessoa infectada por uma cepa que contenha ao mesmo tempo as quatro variantes do “Cluster 5”. Mesmo que estas variantes sejam importantes para a infecção no humano, e cepas com estas variantes talvez possam teoricamente escapar da atuação de tratamentos com certos anticorpos monoclonais, isto não é a mesma coisa que dizer que escaparão de todos os anticorpos monoclonais nem das vacinas. Tanto é verdade que a variante Y453F já foi detectada nos procedimentos de pesquisa do desenvolvimento do Regeneron, anticorpo monoclonal que Trump usou, e justamente por isto o coquetel é constituído não por apenas um mas por dois anticorpos monoclonais, um deles justamente visa inibir variantes como a Y453F. Ou seja, é uma velha inimiga conhecida.

Mas há consenso na comunidade cientifica de que o problema visto de forma mais ampla é que até agora nós somos disparados o principal hospedeiro do SARS-CoV-2, mas há perigo se o vírus se adaptar a outros animais, especialmente aqueles que estão submetidos a forças evolucionárias diferentes dos humanos. Por exemplo, os Visons ficam estocados em gaiolas, e a transmissão, infectividade e taxa de mutação podem ser maiores. E os Visons virando um reservatório de SARS-CoV-2 poderiam infectar não apenas diretamente humanos, mas também outros animais, e outros animais infectarem humanos. Neste sentido há consenso que não se pode permitir uma epidemia paralela, já basta a nossa; na dúvida sobre o perigo destas mutações, da dificuldade de impedir que pessoas se infectem e transmitam estas cepas, e o risco de animais virarem reservatórios de longo prazo do vírus, os Visons já estão sendo abatidos.

Apesar de que a chance real de que estas variantes genéticas presentes nos visons causem problemas para os humanos é pequena, os pesquisadores estão alertas e já desenvolveram métodos para rapidamente identificar quais mutações poderiam propiciar ao SARS-CoV-2 escapar de quais anticorpos monoclonais e de quais vacinas, e também estão organizados para rapidamente detectar a presença de novas mutações em SARS-CoV-2 em qualquer lugar do mundo, seja em humanos ou animais. Portanto, há cautela, mas não deve haver temor.

A somatória dos fatos científicos infelizmente faz com que esteja correta a decisão preventiva de abater os Visons que vivem em cativeiros. Pecar pelo excesso nesta situação é mais prudente que perder o momento certo de agir. Mas não deixa de ser inusitdo que já hajam reações contra o abate, muito maiores do que contra a histórica crueldade com os Visons na ansia de vender os famosos casacos. Já que tal medida dramática será efetivamente tomada, não seria uma má idéia que fosse também o início do encerramento para sempre da industria de pele dos Visons!

Gilberto Tadday/VEJA
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