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Como a inteligência artificial mudará a cardiologia

O recurso não vai substituir os médicos, mas os médicos que o utilizam vão substituir aqueles que não a usam

Por João Fernando Monteiro Ferreira 23 jun 2021, 14h39

A inteligência artificial não vai substituir os médicos, mas os médicos que a utilizam vão substituir quem não a usa

A frase do título foi dita pelo cardiologista, cientista, professor de medicina molecular e autor norte-americano Eric Topol. Eleito para a Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos e um dos dez pesquisadores mais citados na área médica no mundo, com mais de 1,2 mil artigos revisados, Topol ministrou aula sobre inteligência artificial (IA) no 41º Congresso Virtual da SOCESP, que aconteceu entre os dias 10 a 12 de junho. Na palestra “Como a Medicina Digital mudará nossa prática?” o especialista ressaltou os benefícios das novas ferramentas de tecnologia para o cotidiano da prática médica. Segundo ele, a inteligência digital vai mudar a atuação cardiológica e os médicos precisam aprender a usá-la a favor.

Seu principal foco científico tem sido as ferramentas genômicas e digitais para individualizar a medicina. De acordo com nosso convidado, a medicina precisa de acurácia e é a esta exatidão que a IA nos levará  em um futuro próximo: não só ter dados digitais, mas utilizá-los em prol da eficiência de diagnósticos e tratamentos.

Neste ponto entram em cena os novos conceitos deste universo de máquinas treinadas para jogar no mesmo time que os médicos: deep learning (aprendizagem profunda) e redes neurais. O conceito de redes neurais está interligado ao conceito de deep learning: tratam-se de processos computadorizados, que empregam algoritmos para imitar o trabalho feito pelo cérebro humano. Usando algoritmos, podem reconhecer padrões escondidos e correlações em dados brutos, agrupá-los e classificá-los. São responsáveis por avanços recentes, com computadores fazendo reconhecimento de fala e áudio, além do processamento da linguagem natural.

Para que ficasse claro o nível de acuidade que a IA pode alcançar, Topol explicou que um especialista terá a chance de 50% de acertar o sexo de uma pessoa apenas observando sua retina. “Mas quando colocamos centenas de milhares de retinas dentro de uma rede neural, a probabilidade de acerto da máquina é de 97%”, disse o pesquisador.

Aliás, o exame de fundo de olho é um aliado e tanto também para os cardiologistas, que conseguem avaliar artérias, veias e nervos. Diabetes e a hipertensão estão no ranking das doenças que podem ser diagnosticadas pelos olhos antes mesmo de o paciente ter algum outro sinal suspeito. A retina é um portal para monitorar pressão sanguínea, regulação da glicose e até prever a quantidade de cálcio no corpo.

Do conceitual à prática

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Ainda em sua aula, o palestrante exemplificou o emprego das novas ciências, citando eletrocardiogramas que ganham novo status com as redes neurais. A IA aplicada ao  método diagnóstico tradicional consegue determinar o gênero, o nível de hemoglobina ou uma hipertensão pulmonar, com precisão impossível de ser alcançada por outros meios.

O cientista ainda destacou o fato de toda esta análise pormenorizada já estar disponível para o público por meio de acessórios como smartwatchs, que vêm com a função eletrocardiograma e podem identificar potencial isquemia, por exemplo. Há relatos de usuários que conseguiram se salvar graças ao alerta do relógio.

Outro exemplo da aplicabilidade da IA é quanto ao ultrassom que, em sua versão futurista, com scanner acoplado a um smartphone, realiza um exame completo e ainda permite o compartilhamento imediato das imagens em alta resolução. Topol ressalta que a tecnologia possibilita a visualização não só das câmaras cardíacas, como dos vasos, da força da contração e até do fluxo de cores para determinar alguns vazamentos de válvulas. Também é possível scanear outros órgãos, como carótidas, seios e vesícula.

A versão automatizada garante que mesmo profissionais sem formação específica em imagens consigam ler um ecocardiograma, identificando doenças cardíacas congênitas. Por ser minimalista e portátil, é possível ir até o paciente sem necessidade de levá-lo a um centro diagnóstico, garantindo a execução do exame mesmo em comunidades distantes e sem recursos.

Topol ainda chamou a atenção para as novas funcionabilidades das videochamadas: diagnosticar uma fibrilação atrial por meio da câmera do computador, a partir de mudanças dos padrões faciais dos pacientes? Sim: o que ainda soa como ficção científica já é realidade devido à rede neural profunda.

COVID-19

Em um momento histórico em que o contato com os pacientes ficou restrito, Topol enfatiza que os médicos em geral e os cardiologistas em particular devem promover a telemedicina e estimular a continuidade dos tratamentos e procedimentos mesmo em meio à pandemia. Segundo ele, a falta de contato físico não inviabiliza a qualidade da consulta, nem em termos de dados –  cada vez mais abundantes – e nem termos de relação interpessoal. O pesquisador acredita que, ao contrário, o fato de estarmos mais conectados pode restaurar a relação médico paciente. “Uma das qualidades essenciais do médico é o interesse pela humanidade. E a IA é uma ferramenta que nos ajuda a cumprir esta meta”.

Letra de Médico - João Fernando Monteiro Ferreira
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