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Bolsonaro, liberte a saúde brasileira: defenda apenas a hidroxicloroquina

E abandone a crítica ao distanciamento horizontal. A ciência defende como fato científico inequívoco, o “fique em casa”

Por Luis Augusto Rohde - Atualizado em 19 maio 2020, 13h20 - Publicado em 19 maio 2020, 12h31

O tema que me interessa no momento é entender o porquê da insistência no distanciamento social horizontal global no país, traduzido no slogan “fique em casa”, com evolução ao lockdown em algumas capitais.

Friso, já de antemão, que não estou falando de lançar mão da estratégia num momento inicial ou em áreas geográficas restritas, onde uma junção de fatores coloca a saúde pública fora de controle. Nesse contexto, é fundamental reorganizar o sistema de saúde, UTIs, disponibilidade de respiradores e muito mais. Mesmo do ponto de vista mais primitivo, a neurociência tem inúmeros exemplos de como a reação automática inicial a uma ameaça de morte por um predador no mundo animal é a fuga para uma toca protegida. Portanto, nada mais natural do que a humanidade concordar em entocar-se, ameaçada por algo nunca enfrentado e que tem o potencial de morte. Ainda mais quando isso vem com o selo científico de que estamos lançando mão da única estratégia cientificamente comprovada para evitar a propagação do vírus.

Minha dúvida é: não estaríamos no momento de dar um passo a mais e questionar racionalmente qual a melhor estratégia para o país, ou melhor ainda, para as diversas partes dele daqui para frente? Por que a dificuldade de ir adiante e apoiar a saída do “fique em casa” numa ação coordenada pelo governo central e/ou seus equivalentes estaduais e municipais? Por que agredir equipes de pesquisa da UFPEL que querem trazer dados científicos para a discussão?

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A resposta óbvia seria: há evidência inequívoca de que essa estratégia é a única eficaz e temos que permanecer nela. Pois é: confesso a minha inaptidão, embora vasculhe todas as bases cientificas. Não consegui, até hoje, encontrar um estudo que compare diferentes estratégias de distanciamento e me mostre de forma convincente, levando em conta um cenário mais abrangente, qual é a melhor. Isso acontece mesmo quando tento me valer da ajuda de colegas epidemiologistas. Para minha surpresa, vejo a ciência brasileira (e vários epidemiologistas com claro comprometimento social) defender como fato científico inequívoco, o “fique em casa.”

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A questão poderia ser simplesmente uma tentativa altruísta em prol da humanidade como um todo, mesmo sem evidência científica maior. Afinal, como já exemplifiquei anteriormente em outra coluna, ninguém salta de um avião sem paraquedas, só porque não há ensaio clínico controlado mostrando o desfecho de saltar com ou sem o equipamento. Algo entranhado na memória atávica genética, no sentido de um esforço coletivo de preservação da espécie? Pois é, a natureza humana não tem se comportado assim, mesmo com quase meio milhão de mortes por malária mundialmente a cada ano, um número talvez similar ao que iremos terminar de mortes esse ano pela Covid-19, mundo afora. Se a motivação fosse a ajuda ao povo brasileiro como um todo, é de se refletir também, como já levantado por outros, sobre os dados do artigo publicado no Lancet Global Health por autores brasileiros, mostrando o alto impacto da recessão na mortalidade no Brasil.

A terceira possibilidade seria que há setores que se beneficiam da crise e eles têm forte influência nas estruturas do poder. Um oportunismo que sempre existiu em momentos de crise. Nada surpreendente, mas deixo essa avenida para os cientistas sociais e políticos.

O importante aqui é: como se consegue mobilizar uma população toda em torno de algo dogmático lhe dando ares de fato cientificamente comprovado? Como cientista do comportamento e psiquiatra, gostaria de explorar o campo com a lente do que me é familiar, mesmo reconhecendo que, como qualquer visão, ela é parcial e restrita.

Vamos a uma primeira hipótese sobre o comportamento humano, o conhecido “salve-se quem puder!”. Ouso levantar a hipótese de que o “fique em casa” é endossado com tanto apego pelas classes mais favorecidas (em que se inclui o autor dessa coluna e seu público leitor) porque o medo medular é, mais do que qualquer outro, a falta de um respirador ou UTI para si ou para alguém próximo. A malária está longe de casa!

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Assim, o que nos move individualmente não, necessariamente, é o melhor para o país como um todo. Essa hipótese não estaria muito dissociada do que é a real natureza humana na concepção de alguns pensadores. Para quem duvida, vale olhar os experimentos com o paradigma dos modelos de escolha discreta sobre o que leva os indivíduos a avaliarem uma morte como menos valiosa do que outras.

Alegações de que isso é besteira porque estaríamos protegidos por um sistema de planos de saúde ou, em último caso, através do pagamento particular, nos garantindo um leito indisponível no SUS, não se sustentam. Na hora do ‘pega para valer’ (atenuação do colunista), se ele ocorrer, fora alguns “outliers”, seremos todos iguais numa lista única, mediada por critérios, Deus queira, objetivos. Basta ver a situação, quando a coisa apertou, em Manaus. Aliás, o que humanitariamente parece ser mais do que justo.

Nesse cenário, não causa qualquer espanto que continuemos propagando o mantra: “fique em casa”. Algo como 5% de retração da economia na Suécia ou, seu equivalente brasileiro, os lares da classe média alta, não é um grande problema, afinal de contas. Então, pedir para a classe menos favorecida ficar mais algum tempo sem comer pode não ser um esforço tão grande. Do contrário, vão faltar respiradores para todos! Não que os mais pobres não tenham medo também de não ter respirador, mas eles têm diversas outras ameaças mais prementes e diárias para sobreviver. É claro também que falamos aqui de um aspecto da natureza humana e em situação de excepcionalidade, onde o acionamento de mecanismos intrapsíquicos primitivos se exacerba. Não podemos nunca esquecer de outras matizes da natureza homana tão bem expressas na dedicação dos profissionais de saúde aos doentes da Covid-19, mesmo com risco às suas próprias vidas.

O segundo mecanismo é mais complexo, peculiar da nossa espécie e nos remete ao título dessa coluna, ou seja, o que o presidente Bolsonaro tem a ver com tudo isso. Por um desses azares da vida, ou algo que esse colunista não consegue explicar, já que não acredita que seja por qualquer “luz própria” do presidente, ele desafortunadamente, para os menos favorecidos, resolveu colocar em xeque o tal isolamento horizontal. Venho de um estado em que ser gremista significa muito mais do que torcer pelo Grêmio. Significa, acima de tudo, torcer contra o Inter, e vice versa. Estado de ânimo, em outra dimensão, muito bem capturado pelo nosso colunista de VEJA, Alon Feuerwerker em seu artigo As melancias e o caminhão. Frente às características do presidente, e às reações que ele desperta, não é de se surpreender que boa parte dos epidemiologistas, infectologistas e cientistas do país resolveram defender sem qualquer questionamento ou evidência cientifica o distanciamento social horizontal irrestrito e o lockdown em várias áreas como a única alternativa cientificamente válida.  Agora é mostrar que não compactuamos com qualquer coisa que venha do famigerado presidente.

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Besteira. A ciência brasileira reproduz apenas o que acontece também lá fora. Afinal, essa é a estratégia endossada como cientificamente comprovada pela OMS. Sem me alongar em potenciais conflitos de interesse que também acontecem internacionalmente e mesmo na OMS, vale lembrar que nosso presidente não é o único famigerado que anda por aí defendendo a hidroxicloroquina e fazendo desdém do isolamento horizontal. Vide depoimento do presidente Trump, que admitiu usar o remédio.

Pois é, mas, para a hidroxicloroquina, todas as mentes científicas brilhantes do país defendiam a espera por estudos clínicos randomizados e bem desenhados metodologicamente. Quem bom que esperamos. O resultado parece inexistente.

Assim, resta um apelo: presidente, concentre-se na defesa da hidroxicloroquina e abandone a crítica ao distanciamento horizontal. O Brasil merece essa chance de analisar, entender e discutir o melhor caminho a ser seguido.

Ricardo Matsukawa/VEJA
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