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1º de abril, o dia da verdade no Brasil

Como seria a vacinação no Brasil se o governo tivesse fechado o acordo com a Pfizer logo no início

Por Salmo Raskin 1 abr 2021, 12h58

15/7/2020

A Pfizer e o governo brasileiro iniciam negociação de um acordo de compra de doses da vacina da Pfizer. Depois de várias reuniões com integrantes do governo a Pfizer faz uma proposta formal de fornecimento de 70 milhões de doses de sua vacina ao Brasil, propondo iniciar a oferta de vacinas já em dezembro de 2020. Porem o contrato inclui clausulas que poderiam ser interpretadas como abusivas, entre elas que o Brasil deveria assumir todo o risco judicial de possíveis ações por eventos adversos sérios oriundos da vacinação.

A Pfizer pressiona o governo brasileiro alertando que iniciar a vacinação em dezembro de 2020 é bastante diferente de vacinar em março ou abril de 2021. Pfizer alerta que pode parecer pouco tempo de diferença, mas o impacto desses três, quatro meses representa do ponto de vista econômico, milhões, e do ponto de vista de vidas, um valor incalculável. As áreas técnicas do Ministério da Saúde e da Fazenda se reúnem, analisam artigo científico da USP que demonstra que cada brasileiro internado por COVID-19 em UTI gasta em média cem mil reais aos cofres públicos (https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.24.20248633v1).

E que, portanto, mesmo que abusivas, as cláusulas propostas pela Pfizer não têm impacto econômico significativo, e com a redução de internamentos em UTI que a vacina poderia produzir em curto espaço de tempo, em poucos dias se economizaria não só os valores potencialmente gastos com ações judiciais, mas também todo o investimento na compra e distribuição das vacinas. Apresentam o relatório ao Presidente que convoca para o mesmo dia um pronunciamento em rede nacional. Mais de 150 milhões de brasileiros grudados em suas TVs assistem o Presidente explicar que está sendo pressionado pela Pfizer com cláusulas contratuais leoninas, para ele inaceitáveis. Mas que a área técnica lhe apresentou relatório mostrando que do ponto de vista financeiro uma pequena redução no número de internamentos em UTI, proporcionado pela vacinação, seria o suficiente para equilibrar os potenciais gastos decorrentes das clausulas leoninas.

E que baseado nesta informação, e na sua preocupação e responsabilidade em salvar vidas, tomou a decisão de aceitar a proposta contratual da Pfizer, mesmo com cláusulas consideradas abusivas. Afirma o Presidente que vai reservar 70 milhões de vacinas, que começariam a ser ofertadas já em dezembro de 2020. O Presidente informa a nação que já tomou as devidas medidas com o apoio do Congresso Nacional para tornar legal a assinatura do contrato com a Pfizer em regime de urgência. E ao seu estilo, o Presidente lembra os brasileiros que o Brasil é um dos maiores consumidores do mundo do medicamento Viagra, produzida pela Pfizer, e que, portanto, a Pfizer deveria ser mais flexível na negociação com o Brasil.

No dia seguinte ao discurso em rede nacional a decisão do Presidente de fechar o acordo com a Pfizer mesmo diante das cláusulas leoninas, repercute fortemente no país e no mundo. A Bolsa sobe e o Dólar cai. A popularidade do Presidente atinge índices nunca antes alcançados. Brasileiros iniciam boicote a compra de Viagra, cuja venda no Brasil cai 40% nas duas semanas seguintes. A Pfizer divulga comunicado informando que em consideração a grande nação que é o Brasil, ofertara 300 milhões de doses (e não 70 milhões), o que permitirá vacinar até final de março de 2021 toda a população brasileira maior de 18 anos de idade.

14/9/2020

Para planejar e executar o maior programa de vacinação de todos os tempos, o Presidente faz uma troca no Ministério da saúde. Assume Eduardo Pazuello, que com grande experiência em logística, propõe o início da preparação do país para ampla campanha de vacinação. Em discurso de posse, ao lado de todos os Governadores, Pazuello pede união nacional para vencer o inimigo em comum, SARS-CoV-2. Convoca o Empresariado para ajudar na parte da infraestrutura da vacinação na qual o Estado brasileiro é deficitário. Pede trégua a mídia, e conclama todos a uma união suprapartidária em torno da recuperação da saúde e economia do país.

14/10/2020

A Pfizer publica no New England Journal of Medicine artigo científico demonstrando resultados de Fase 1 de sua vacina, com excelente resultado sobre a segurança da vacina. Ministério da Saúde inicia as preparações para vacinação em massa. Baseado na publicação dos resultados de Fase 1 do estudo da Pfizer, Ministério da Fazenda refaz as estimativas de custos com possíveis efeitos adversos graves oriundos da vacinação, e projeta que o Estado brasileiro gastará ainda menos do que o inicialmente calculado e apresentado ao Presidente.

9/11/2020

A Pfizer anuncia em Press Release os excelentes resultados de fase 3 de segurança e eficácia de sua vacina, com pouquíssimos efeitos colaterais. Anuncia que que em breve fará detalhada publicação científica em renomado periódico científico. Governo Brasileiro avança nos processos de infraestrutura para vacinação em massa. O Brasil sempre foi exemplo mundial na capacidade de vacinação em massa, de modo que os obstáculos desta vez não serão de grande monta.

11/12/2020

A FDA, mais rigoroso órgão regulador do planeta, após analisar vasta documentação entregue pela Industria Farmacêutica, autoriza o uso emergencial da vacina da Pfizer.

15/12/2020

Governo brasileiro monta Comitê suprapartidário para coordenar o processo de vacinação em massa. Principais pesquisadores da área de infectologia do Brasil fazem parte do Comitê. Comitê conta com representantes do Empresariado, que vai apoiar massivamente a campanha de vacinação, pois quer retribuir ao país e também tem enorme interesse na volta da economia e fim de restrições sociais. A Sociedade Civil organizada também tem representantes no Comitê e inicia ampla campanha pública informando sobre a importância e segurança da vacinação. O país está unido contra o inimigo em comum, SARS-CoV-2.

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31/12/2021

A Pfizer publica no New England Journal of Medicine artigo científico demonstrando que sua vacina é muito segura e com pouquíssimos casos de efeitos adversos graves. Eficácia de 95%, e que não necessitará de cadeia de frio rigorosa para armazenamento e transporte da vacina. A vacina, já aplicada em massa em Israel há 10 dias, começa lá demonstrar queda no número de hospitalizações. Diante dos resultados de Fase 3 publicados pela Pfizer, a equipe econômica refaz os cálculos iniciais que sugeriam que o custo com ações judiciais seria pequeno quando comparados com custos a serem evitados por internamentos em UTI, e conclui que o custo/efetividade será ainda maior do que o estimado inicialmente. Planeja reabertura completa da economia do país para 1 de abril de 2021, e projeta expectativa de crescimento do PIB brasileiro de 2% ao final de 2021.

1/1/2021

Anvisa autoriza uso emergencial da vacina da Pfizer. Inicia campanha de vacinação em massa no Brasil. No primeiro dia, 10 milhões de brasileiros são vacinados, batendo recorde da campanha da gripe suína e da influenza.

1/2/2021

Ministro Paulo Guedes anuncia em cadeia nacional que a redução de internamentos em UTI no primeiro mês de vacinação já gerou uma economia suficiente para fazer caixa para possíveis ações judiciais, para pagar todo o investimento na compra das vacinas e para sustentar por mais alguns meses o auxílio emergencial. Nenhum caso de efeito adverso grave da vacina é registrado no Brasil, nenhuma ação judicial é registrada.

1/3/2021

50% dos brasileiros maiores de idade já receberam a segunda dose da vacina da Pfizer. Quatro pessoas entraram com ação judicial contra o Estado entre 75 milhões de brasileiros já vacinados. Números de casos, internamentos e mortes por COVID-1 no Brasil despencam. O país se prepara para um retorno gradual a normalidade.

3/3/2021

A imprensa tem acesso aos já famosos estudos de projeção realizados em julho de 2020 pelas áreas técnicas dos Ministérios da Saúde e da Fazenda, e atualizados no fim de 2020. Toda a mídia divulga os relatórios técnicos apresentados ao Presidente na época, demonstrando que sem a vacina estimava-se que poderíamos atingir cerca de 70 mil novos casos de COVID por dia a partir de março de 2021. Desses, pela evolução natural da infecção, 5% iriam se agravar e precisar de UTI. Então, dos 70 mil novos casos diários estimados cerca de 3.500 novos brasileiros seriam admitidos em UTIs a cada dia de março de 2021. A análise técnica detalha o estudo da USP, que demonstrava que o gasto médio por paciente internado por COVID em UTI é de R$109 mil.

Estes 3.500 brasileiros que precisariam entrar a cada novo dia em uma UTI onerariam os cofres públicos em cerca de 380 milhões de reais, por dia, todos os dias. O estudo dos dois Ministérios também leva em conta a simulação na qual, sendo o Brasil inteiro vacinado com a vacina da Pfizer, e todos os que tivessem uma reação adversa séria entrassem com uma ação judicial contra o Estado brasileiro (Ministério da Justiça opinou nesta parte do relatório que tal fato seria possível, mas muito improvável), o Estado brasileiro teria que se defender de cerca de 500 Ações judiciais.

A análise técnica estimava no mesmo relatório que se cada um dos 500 acometidos por reações adversas geradas pela vacina da Pfizer processassem o governo, e todos ganhassem 80 mil reais (valor similar ao recebido em uma ação movida por uma paciente que desenvolveu sequelas com a vacina contra H1N1), o Brasil gastaria, com indenizações, 40 milhões de Reais. E que o gasto na compra de 300 milhões de doses da vacina da Pfizer seria de 15 bilhões de reais. Ministérios concluíram que a redução de internamentos em UTI equivalente a apenas 30 dias seria suficiente para economizar aos cofres públicos o valor total da compra das vacinas para da Pfizer para toda a população, assim como para pagamento de todas as potenciais ações judiciais. A população ao ser informada do estudo, aplaude o Ministério da Saúde e da Fazenda pela análise e compreende ainda mais a decisão do Presidente de aceitar as cláusulas leoninas do contrato. Panelaço em prol das nossas autoridades são ouvidos no país inteiro.

31/3/2021

A vacina da Pfizer se mostra eficaz também contra a nova variante brasileira P1 e segura para adolescentes, gestantes e lactantes. Eficácia de 90% é comprovada para proteger inclusive de uma pessoa se infectar pelo Coronavírus. Gastos com internamento em UTI por COVID-19 despencam e Governo economiza bilhões de Reais. Parte desta economia é destinada a recuperação das Empresas. Brasil é ovacionado internacionalmente como exemplo de planejamento e sucesso no combate a pandemia. Atrai investimentos do mundo todo, bolsa dispara e dólar cai muito. Real se valoriza. Milhares de vidas são salvas. Popularidade do Presidente atinge níveis inimagináveis. Uma estátua de cinco metros de altura do Presidente ao lado do Ministro Pazuello, é erguida na Esplanada dos Ministérios. Eles são considerados heróis nacionais. Ministério da Saúde acerta com a Pfizer a compra de mais 100 milhões de vacinas para vacinar os menores de 18 anos até o final do terceiro trimestre. A pior pandemia dos últimos cem anos está chegando ao fim no Brasil.

1/4/2021

Infelizmente, é o Dia da Mentira. Brasil é o país do mundo com maior número de casos de COVID-19 por dia. Uma a cada quatro mortes por Covid no mundo acontece no Brasil. 4 mi pessoas se internam em UTI a cada dia no Brasil, quando tem vaga. Menos de 3% da população recebeu duas doses de qualquer vacina. Ministério da Saúde anuncia que o número de vacinas em abril será menor do que o inicialmente informado. Contrato com a Pfizer prevê entrega de apenas 13 milhões de doses da vacina até Junho, se tudo der certo. Morrerão hoje 4 mil pessoas por COVID-19. Ontem, anteontem, amanhã e depois de amanhã também. Brasil, aonde todo dia é Dia da Mentira.

Letra de Médico - Salmo Raskin
Gilberto Tadday/VEJA
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