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José Casado Por José Casado Informação e análise

“Novo” socialismo é viagem à idade da pedra

Favorito na eleição presidencial peruana, o candidato Pedro Castillos promete levar seu país à pré-história da política

Por José Casado Atualizado em 1 Maio 2021, 16h15 - Publicado em 2 Maio 2021, 11h00

O Peru avança na alquimia política para transformar o futuro em passado. No domingo, 6 de junho, dois candidatos decidem a eleição presidencial do outro lado da fronteira de 2,9 mil km com o Brasil.

Um é Pedro Castillo, professor, condenado por fraudes contra o estado. Ele se proclama representante da “esquerda socialista” e da ortodoxia nos costumes, visceralmente contrário ao reconhecimento de direitos civis no casamento gay e no aborto.

A adversária é Keiko Fujimori, filha de um antigo ditador condenado a 25 anos de cadeia por um cardápio variado de crimes como corrupção, esterilização forçada de mulheres e extermínio de adversários. Ela tenta reagrupar a direita que legitimou a ditadura do pai na virada do milênio. Sua principal promessa eleitoral é tirar da cadeia o velho Alberto Fujimori. Assinará o indulto, se for eleita.

Castillo, azarão na disputa, venceu o primeiro turno e lidera nas pesquisas, embora esteja perdendo terreno. Acena aos peruanos com uma proposta de governo que é uma autêntica viagem no tempo, de retorno à idade da pedra lascada na política. Ele promete, segundo documento divulgado por seu partido (Perú Libre):

* Nova Constituição para estabelecer uma “economia popular com o mercado”, em guerra aberta ao neoliberalismo, “o inimigo”;

* Estatização total da produção de petróleo, gás, eletricidade, mineração e comunicações, entre outros setores;

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* Limitação dos lucros das empresas transnacionais. O Estado se apropriaria de, pelo menos, 80% dos ganhos;

* Distribuição ao povo peruano das reservas cambiais do país, estimadas em US$ 68 bilhões – sem dizer como seria possível;

* Declaração da “independência latino-americana”, com a convocação dos países vizinhos para estabelecer uma “Zona Não Negociável” com os Estados Unidos. Desenham o confronto com o “imperialismo” americano: “Política e militarmente, para os EUA, perder o controle sobre a América Latina seria uma ofensa e um mau precedente para suas pretensões hegemônicas mundiais, e não se exclui a violência com que reagirá frente à tentativa independentista”;

* Retirada do Peru de todas as entidades multilaterais, classificadas como instrumentos imperialistas;

* Proibição de atuação de organizações não governamentais. Justifica: “Mercenários têm organizado essas instituições com o objetivo de controlar, manipular as massas e orquestrar aparatos contrarrevolucionários”.

Castillo e o líder do seu partido Perú Libre, Vladimir Cerrón Rojas, um médico com graduação em Neurociências, condensaram essa fórmula do “novo” socialismo num volume de 77 páginas, dividido em 21 capítulos. Juntaram 26 mil palavras.

Pura perda de tempo. Poderiam ter resumido tudo numa única frase de oito palavras, emprestada do poeta brasileiro Augusto Frederico Schmidt: “Me dá um dinheiro aí, seu canalha imperialista!”

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