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José Casado Por José Casado Informação e análise

Governo Castro começa com banho de sangue

Governador do Rio anuncia uma polícia "próxima do povo" e, cinco dias depois, defende operação feita "na técnica", que matou 25 na favela do Jacarezinho

Por José Casado Atualizado em 7 Maio 2021, 04h33 - Publicado em 7 Maio 2021, 09h20

Cinco dias atrás, o advogado Cláudio Bomfim de Castro e Silva, 42 anos, assumiu o governo do Estado do Rio com a promessa de criar “uma polícia que esteja próxima do povo”. Não se sabe o que ele quis dizer exatamente e não se conhecem seus planos e ideias para cumprir esse compromisso nos próximos 18 meses.

Castro era vice do juiz Wilson Witzel, o ex-governador atingido “na cabecinha” – expressão sua – pelo ineditismo de um impeachment unânime no Legislativo e no Judiciário fluminense. Militante católico, entrou na chapa de Witzel pelo Partido Social Cristão (PSC), no amálgama de interesses de correntes católicas e neopentecostais cariocas, coordenados pelo pastor da Assembleia de Deus-Ministério Madureira, Everaldo Dias Pereira.

Pastor Everaldo, como é conhecido, foi chefe da Casa Civil do governo Anthony Garotinho e candidato à Presidência da República em 2014. Seu atual endereço é uma cela em Bangu, acusado de corrupção em conluios com fornecedores de produtos de Saúde.

Ontem, o governador Castro acordou cedo – ele contou – para acompanhar “desde as primeiras horas” uma ofensiva antidrogas da sua polícia no bairro Jacarezinho, no entorno do Buraco do Lacerda, Zona Norte do Rio.

A ação foi resolvida “na técnica”, ele definiu. Um de seus assessores de segurança pública completou: “A operação foi muito planejada, com todos os protocolos e em cima de 10 meses de investigação.”

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Começou às seis da manhã, quando acabou contavam-se pelo menos 25 mortos – entre eles, um policial. Castro inaugurou sua gestão com um recorde mortal. Nunca antes na história do Rio houve tamanha matança num único dia em uma só operação oficial da polícia (os 21 mortos em Vigário Geral, em 1993, e os 29 cadáveres da Baixada Fluminense, em 2005, foram obras clandestinas de grupos de extermínio).

Ao confirmar o morticínio o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, transferiu a conta do banho de sangue para o Supremo Tribunal Federal. Por causa das matanças, no ano passado o juiz Luiz Edson Fachin restringiu as investidas policiais nas favelas cariocas.

“De um tempo para cá”, disse Oliveira, “por conta de algumas decisões e de um ativismo judicial que se viu muito latente na discussão social, fomos de alguma forma impedidos ou foi dificultada a ação da polícia em algumas localidades. O resultado disso nada mais é do que o fortalecimento do tráfico.”

Há um encontro marcado entre o governo do Rio e os juízes do Supremo. Será no dia 21, quando se prevê uma decisão sobre protocolos de ação policial nas favelas.

O governador Castro tem aí uma boa oportunidade de apresentar o seu anunciado plano para, nos próximos 18 meses, criar “uma polícia que atue com inteligência e próxima do cidadão.”

Sem ele, corre o risco de se ver reduzido ao papel de gerente de interesses de milícias e polícias, à frente de mais um governo onde a desinteligência interessada subverte o estado, transformando-o em promotor de negócios com a insegurança pública.

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