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Mogli – O Menino Lobo

Por Isabela Boscov - Atualizado em 30 jul 2020, 23h01 - Publicado em 14 abr 2016, 19h27

Sobrou o extraordinário, faltou o necessário

Sem querer ser chata, porém sendo: antes do filme chegar à metade, eu já tinha me distraído e estava pensando nas tarefas do dia; e, faltando ainda meia hora para o final, eu tinha mudado de posição na poltrona não sei quantas vezes, sem encontrar nenhuma que me parecesse confortável. Não há sinal mais claro do que esse – a impaciência – de que um filme falhou em envolver. E, considerando que envolver, ou encantar e transportar, é a função básica de fantasias como Mogli – O Menino Lobo, pode-se dizer que, no meu caso, ele falhou fragorosamente, apesar de já sair com uma boa vantagem: minha imensa simpatia pela história. Em pequena, eu adorava o Mogli de 1967 da Disney, e sabia de cor a música do urso Baloo, que algum gênio verteu assim para o português: “Eu uso o necessário / Somente o necessário / O extraordinário é demais”.

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O diretor Jon Favreau deveria ter ouvido os conselhos de Baloo. Seu Mogli é um belíssima façanha técnica que combina live-action, cenários fotorrealistas em computação gráfica e performance capture (ou “captura de desempenho”) aplicada a atores do calibre de Idris Elba (o tigre Shere Khan), Ben Kingsley (a pantera Bagheera), Bill Murray (o urso Baloo), Scarlett Johansson (a serpente Kaa), Lupita Nyong’o (a mãe lobo Raksha), Giancarlo Esposito (o pai lobo Akela) e Christopher Walken (o orangotango Rei Louie).

Mas Mogli – O Menino Lobo é curiosamente pobre em encanto e em emoção. Eis alguns dos problemas que acometem o filme:

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A PERFORMANCE CAPTURE é uma ferramenta maravilhosa, e é astronômica a sua taxa de evolução. Pense, por exemplo, que o canhestro e esquisito Final Fantasy é de 2001, o mesmo ano em que O Senhor dos Anéis apresentou seu irrepreensível Gollum – que, nos dois filmes seguintes, suspenderia completamente a descrença da plateia com uma das atuações mais viscerais e nuançadas entre todas do elenco. O ator inglês Andy Serkis e a Weta Digital de Peter Jackson têm tudo (e mais um pouco) a ver com esse avanço da performance capture. É a Weta Digital, aliás, que responde por essa parte de Mogli – O Menino Lobo, assim como por King Kong e pelos dois recentes Planeta dos Macacos, que levaram a PC a um novo patamar de excelência. Cada vez mais, refina-se a maneira como são captados não só os movimentos, mas também as micro-expressões dos atores que fornecem o desempenho. Para cada ator, faz-se um projeto distinto de posicionamento de sensores, de acordo com as características individuais da sua musculatura facial. E cada vez mais, também, os animadores que transformarão esse desempenho compreendem que a sua intuição e sensibilidade é que dão alma ao personagem – a técnica é fabulosa, mas é só o começo.

Então, qual o problema? Ele é de ordem, digamos, psicológica: a PC é uma dessas tecnologias ultra-absorventes. É tanto o trabalho que ela exige, e é tão fascinante o seu resultado, que ela monopoliza as atenções. Até hoje, na minha opinião, só mesmo O Senhor dos Anéis conseguiu equilíbrio entre a PC e os demais elementos da encenação. Em todos os outros casos até aqui, ela fez a balança pender inteira para o seu lado. Não me diga, por exemplo, que você não saiu de Planeta dos Macacos: O Confronto, comentando com os amigos que o filme era assim-assim – mas os macacos, esses eram extraordinários.

É também isso que acontece em Mogli – O Menino Lobo. Porém em um grau ainda mais acentuado: todos os personagens são criados em PC, e criados com desvelo, para aproveitar ao máximo a riqueza das interpretações daqueles craques que mencionei lá em cima. A exceção solitária é o estreante Neel Sethi, que faz Mogli. Neel é correto, não faz gracinha demais nem careta. Mas, infelizmente, não demonstra o carisma necessário para fazer frente ao restante do time. É um peso-pluma cercado de pesos-pesados.

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JON FAVREAU é o grande idealizador dessa releitura de Mogli – mas seu papel correto, aqui, seria o de produtor apenas, sem necessariamente acumular a direção. Favreau veio das comédias independentes, como a deliciosa Swingers, de 1996. Fez um ótimo trabalho nos dois primeiros Homem de Ferro (em particular no inaugural), porque eles exigiam antes de mais nada um diretor capaz de tirar partido do timing e da energia de Robert Downey Jr. – o que Favreau fez de forma exemplar. Recentemente, ele estrelou e dirigiu uma pequena jóia, Chef (se você não viu, recomendo vivamente; está disponível no Netflix). Mas a originalidade da concepção visual não é o seu forte. Favreau é alguém que teve de aprender a lidar com produção de grande escala, não alguém que tem o dom inato para ela (como os irmãos Russo de Capitão América, que também vieram do cinema independente e das comédias de TV mas, rapaz, como entendem de bolar visualmente um filme).

Ou seja: Favreau tem à disposição, em Mogli, um punhado das melhores equipes técnicas em atividade no mundo – e elas criam, para ele, um mundo perfeito de selva tropical, de um realismo tão extremo que se torna ele próprio um elemento de fantasia. E, no entanto, esse mundo nunca causa assombro (não para mim, ao menos) nem ganha uma dimensão grandiosa; e também nunca provoca aqueles choques insulínicos de fofura que o desenho de 1967 provocava. Fica tudo lá, pelo meio do caminho.

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ESSA CRISE DE IDENTIDADE entre a aventura e a fofura, e entre a fantasia e o realismo, é o aspecto que talvez mais gravemente prejudique Mogli. Os dois volumes de O Livro da Selva, que o inglês nascido na Índia Rudyard Kipling escreveu entre 1893 e 1895, são coletâneas de contos morais protagonizados por animais falantes e pensantes. Conforme o tom da época, têm mais aventura do que graça, e mais lei da selva, nua e crua, do que espírito de conciliação entre espécies. A Disney e Jon Favreau acharam que seria possível fundir esses aspectos divergentes entre os livros e o desenho de 1967. A mim parece um erro de origem. Primeiro, obriga a uma loooonga exposição sobre como Mogli foi parar na selva, por que Shere Khan o odeia, etc. etc. – visual realista pede lógica realista, raciocinaram os produtores. Segundo, causa uma série de pequenos surtos esquizofrênicos: a selva é a violência de Shere Khan, o carinho de Raksha ou o oportunismo boa-praça de Baloo? O roteiro sai pela tangente, optando por um inconvincente darwinismo adocicado. Por fim, animais de desenho, quando falam, não causam estranheza, porque seus traços foram antropomorfizados de forma a que isso pareça natural (e porque são desenho, que seu cérebro já decodifica imediatamente como um território em que tudo é possível). Já animais fotorrealistas e, vá lá, biorrealistas (quero dizer que eles não passaram por um salto evolutivo que justifique a aquisição de linguagem, como os primatas de Planeta dos Macacos), quando falam – é esquisito. Não tem jeito. Em vez de ouvir diálogos, o que eu ouvi, o tempo todo, foi a morte do diálogo – dublagem.


Trailer


MOGLI – O MENINO LOBO
(The Jungle Book)
Estados Unidos, 2016
Direção: Jon Favreau
Com Neel Sethi, Idris Elba, Ben Kingsley, Christopher Walken, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o, Bill Murray, Giancarlo Esposito, Garry Shandling
Distribuição: Disney

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