Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Logan

É terrível, e lindíssima, a decadência de Wolverine

Desde a primeira cena em que apareceu, em 2000, mascando um charuto e acudindo Vampira numa estrada gelada, o Wolverine de Hugh Jackman foi o superstar dos X-Men: Jackman, um ator australiano que então quase ninguém conhecia, cravou os dentes (ou as garras) no personagem e não largou mais. Em sete encarnações diferentes, ele colocou todo seu timing cômico, expressão física, vigor, nuance dramática e imenso carisma a serviço de Wolverine, e fez dele o mais irresistível cachorro louco de que se tem notícia. Tão cativante é o seu Wolverine que ele resistiu na afeição do público, incólume, a um filme-solo muito ruim (X-Men Origens: Wolverine, de 2009), e um outro apenas correto (Wolverine: Imortal, de 2013). Em Logan, porém, a história é outra – e como é boa. De novo trabalhando com o diretor e roteirista James Mangold, Jackman é o herói no seu crepúsculo, cansado de guerra e diminuído pela decadência física. Logan, o homem que ele foi um dia e que agora é de novo, detesta a si mesmo pela violência e pela ferocidade, e a última coisa que desejaria é deixar alguma descendência. Mas ela aparece (como?), na figura de Laura, uma mutante de 11 anos parecida com ele, porém ainda mais selvagem. Intensamente violento e profundamente triste, Logan, a oitava e última encarnação de Wolverine, traz aquilo que Jackman ainda não pudera explorar no personagem – sua tragédia. É possivelmente o melhor de todos os filmes dos X-Men. É, enfim, um belíssimo filme. Seja de super-herói ou não.

Logan

 (/Divulgação)

Leia a seguir a resenha completa:


A HORA DO ADEUS

Envelhecido, cansado de violência e sem vontade de viver, Wolverine é o centro trágico de Logan, um drama que só por acaso é também um filme de super-herói

O cabelo e a barba cheios de fios brancos, o rosto vincado, as olheiras arroxeadas, a respiração ofegante, o andar trôpego: este não é o Wolverine das sete aparições anteriores do personagem no cinema. Ameaçado por uma gangue que tenta roubar as rodas da limusine com a qual ele ganha a vida na texana El Paso, na fronteira com o México, Wolverine toma socos e cambaleia. Com dificuldade, faz as garras letais de adamantium projetar-se por entre os dedos. Mas elas nem saem mais em toda a sua extensão. As articulações de Wolverine estão inflamadas, e uma tosse seca interrompe os seus esforços. Expulsar da carne as balas que os inimigos disparam contra ele, antes tão fácil, agora é um sofrimento. O próprio adamantium, o metal indestrutível que substituiu seus ossos, o está intoxicando. Mais venenoso ainda é o cansaço de Wolverine com a vida. Depois de 180 anos sobre a Terra, o mutante de vigor inesgotável, ferocidade mal e mal controlável e capacidade de se curar de qualquer ferimento é uma sombra do que foi, e quer entregar os pontos. Até já planejou o modo como o fará, e só não o fez ainda porque ele e o albino Caliban (Stephen Merchant) têm sob seus cuidados outro mutante, ainda mais frágil do que eles: o professor Xavier (Patrick Stewart), cujo cérebro poderoso está sob ataque da demência. É tristíssimo o crepúsculo dos mutantes em Logan – triste como toda doença, velhice e degeneração humanas. Da decrepitude e da necessidade de vencê-la mais uma vez que seja, o diretor e roteirista James Mangold tira uma tragédia pungente, à qual Hugh Jackman se entrega por inteiro. Até notícia em contrário, esta é a sua despedida do personagem. E ele a faz valer a pena.

Logan

 (Ben Rothstein/Divulgação)

Logan é o nome verdadeiro de Wolverine, o que ele tinha antes de sua mutação se manifestar por completo, durante a carnificina da Guerra Civil americana de 1861-1865. É o nome do filme, também, porque as glórias de Wolverine estão diminuídas ao ponto de quase não passarem de lembrança. E porque, contemplando a possibilidade do fim, ele tem de acertar contas com o homem que há dentro dele. Não será um processo simples; a trajetória de Logan/Wolverine é de uma violência indizível, e ele não está desejoso de um reencontro consigo mesmo.

Logan

 (/Divulgação)

Está-se em 2029, mas pouca coisa anuncia o futuro na paisagem concebida por Mangold e Jackman. A única mudança relevante é a ausência de mutantes; quase todos que havia  pereceram num acidente provocado pela demência de Xavier, e há mais de vinte anos não se tem notícia de um novo nascimento. Logan acha, portanto, que Xavier delira quando lhe diz que está em comunicação telepática com uma menina portadora do gene X. Mas ela existe de fato: Laura (a impressionante Dafne Keen), de 11 anos, tem o esqueleto e as lâminas de adamantium de Wolverine, e o mesmo poder de cura. Não fala e, quando acuada, exibe uma selvageria inocente de si mesma, mas cujo rastro de corpos e mutilações é assustadoramente real. Laura é uma criança que precisa com urgência de limites – e de salvação. Logan, Caliban e Xavier são sua última chance contra o exército particular que a persegue (e cujos financiadores permanecem durante bom tempo um mistério). Mas a fuga árdua, prolongada, repleta de sangue, não faz muito por promover os afetos familiares ou reconciliar Logan com a ideia de paternidade, que o repugna e o consome em igual medida.

Logan

 (/Divulgação)

Mangold e Jackman já trabalharam outra duas vezes juntos antes de Logan (na comédia romântica Kate & Leopold e em Wolverine: Imortal), e aqui a parceria chega à fruição plena. De maneira explícita, Logan traça um paralelo com Os Brutos Também Amam, de 1953, em que um pistoleiro tenta reconstruir a vida na paz, perto de um menino que o idolatra (Xavier e Laura assistem ao filme juntos na TV). E de maneira implícita, mas nítida, ele referencia Os Imperdoáveis, de 1992. No western revisionista que deu os Oscar de filme e direção a Clint Eastwood, o protagonista é um matador que sai de uma aposentadoria tão miserável quanto a de Wolverine para um último trabalho. A causa é justa, até necessária, mas o veneno de matar tem o gosto de sempre – intolerável. Só na definição mais circunstancial Logan pode ser chamado de um filme de super-herói. O que diretor e ator fazem, aqui, é lançar seu herói entre as tragédias humanas das quais não se pode escapar: o ocaso, a mortalidade e a constatação tardia de que, mesmo quando a vida é longa, tanta coisa pode faltar a ela.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 01/03/2017
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2017
Veja também

Trailer

LOGAN
(Estados Unidos, 2017)
Direção: James Mangold
Com Hugh Jackman, Dafne Keen, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal
Distribuição: Fox

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Harrison Carlos

    Discordamos.
    Esse foi o pior filne de todos em que Hugh Jackman atua como Wolverine.
    Mas concordamos em uma coisa: Dafne Keen como a X-23 foi realmente, impressionante.
    Nos quadrinhos ela não é tão jovem.

    Curtir

  2. Discordo do Harrison; Logan pra mim não é apenas o melhor filme do universo X-Men como também o melhor filme baseado em HQ’s desde The Dark Knight.

    Curtir

  3. Evandro César Alvarenga

    Ainda não assisti. Mas, depois desse ensaio brilhante – e comovente, quero conhecer logo essa despedida. Isabela, por favor, continue a nos brindar com seus textos inspirados.

    Curtir

  4. Állan S Nascimento

    Harrisom, discordo de você, esse filme não é só o melhor filme do Wolverine como acredito que ele seja o melhor filme (Talvez eu esteja exagerando… admito) dos x men! Só não afirmo isso com tanta certeza porque acho injusto fazer uma comparação assim X1 mudou o paradgma de todos os filmes de herói, X2 conseguiu fazer uma continuação melhor do que a versão pioneira, X primeira classe lembrou todo mundo o tão bom que x men é, X men dias de um futuro esquecido (apesar de alguns deslize no roteiro e outros erros é o meu favorito… Talvez por ser continuação do primeira classe mesclando com nostalgia do anterior, e foi o melhor filme em efeitos especiais) e deadpool que mostrou outros caminhos para o gênero de super herói. Mas Logan foi o melhor filme em roteiro com certeza. Desenvolve muito o nosso afeto pelo Wolverine e Xavier! Concordo com a Isabela!

    Curtir

  5. Baderelson Euler

    O filme é realmente muito bom, ao apresentar uma tocante e humana decadência de um outrora mutante invencível e imortal. Esta resenha também é excelente, parabéns.

    Curtir

  6. Tadeu Santos

    É filmaço! Encerra com dignidade o ciclo cinematográfico do Wolverine.

    Curtir

  7. Luís Fabiano

    O filme é assistível, porém massante. Quanto a crítica, faltou mencionar que o nome do Wolverine é James e não Logan, o qual é um apelido herdado do capataz da fazenda onde nasceu…

    Curtir

  8. Ernesto Ribeiro

    A única coisa que eu mudaria neste artigo magistral seria a ordem dos adjetivos, que eu trocaria assim: “um filme-solo apenas correto (“X-Men Origens: Wolverine”, de 2009), e um outro muito ruim (“Wolverine: Imortal”, de 2013).” O primeiro tem um epílogo que ofende a inteligência de uma ameba, mutante ou não. Com tantas hipóteses boas para a desmemória do homem (neurose de guerra; apagamento voluntário por máquina; uma ordem da amada com poder hipnótico, desejando que ele viva em paz sem os fantasmas e traumas do passado e se esquecendo até mesmo dela para apagar a dor) se saíram com a mais estúpida e inconvincente de todas. E o segundo, além de ser quase todo fraquíssimo (só se salva a Grande Cena de Ação no teto do trem-bala) ainda tem um plágio de uma piada de “007 Os Diamantes São Eternos” na cena do hotel em que alguém é jogado numa piscina.

    Curtir

  9. Ernesto Ribeiro

    Este é, disparado, o filme mais corajoso já feito, com super-herói ou não. Totalmente CRU, seco e áspero como o próprio personagem-título. Sem nenhuma concessão de apelo. Sem atenuar nada. RADICAL e EXTREMO em todos os aspectos: violência, dor, tristeza, abandono, miséria emocional, humilhação, injustiça, envelhecimento, morte. É como um faroeste de Sam Peckinpah, com o grande Hugh Jackman seguindo os passos de Warren Oates em “Meu Ódio Será Tua Herança”, só que muito melhor. É a melhor atuação de toda a carreira do homem que abriu caminho a garras afiadas para os quadrinhos conquistarem o Grande Cinema. Os pioneiros a conquistar o território são sempre os melhores. Muito mais pesado e depressivo do que “Batman – o Cavaleiro das Trevas”, até aqui a grande referência nesse sentido. Sem salvação pra nenhum herói no final. Xará, se esse “Logan” não se tornar o primeiro filme de super-herói a ganhar o Oscar de Melhor Filme, então nada mais poderá.

    Curtir