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Fã de faroeste? Duas novidades excelentes para ver em casa

“Hostis”, com Christian Bale, está no NOW, e “The Ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Coen, estreou na Netflix

Como é que um western de primeira categoria, com Christian Bale e Rosamund Pike, pode ter caído pelas frestas da distribuição nacional? E ainda mais com direção de Scott Cooper, de Coração Louco (Oscar de melhor ator para Jeff Bridges), Tudo por Justiça (também com Christian Bale) e Aliança do Crime (com Johnny Depp)? Pois caiu: sem passar pelo circuito nacional, e um ano depois de estrear nos Estados Unidos, Hostis finalmente chega aqui, pelo NOW. Antes tarde do que nunca. Bale é o capitão da cavalaria Joseph Blocker, que passou a vida combatendo os índios e os odeia, mas é incumbido de escoltar um chefe cheyenne (Wes Studi) que está à morte de volta a seu território, juntamente com sua família, para que possa ser enterrado em lugar sagrado. A atmosfera entre eles é elétrica de tanto antagonismo – e piora quando o grupo topa com Rosalee (Rosamund Pike), uma rancheira cujo marido e filhos acabaram de ser mortos à sua frente pelos comanches. Trabalhando a partir de um manuscrito deixado por Donald Stewart, que roteirizou Caçada ao Outubro Vermelho e Desaparecido (aquele em que o filho de Jack Lemmon é morto pela ditadura chilena), Scott Cooper deslinda as trágicas oposições do Oeste americano. Lindamente filmado (enquadrar bem os atores nas paisagens vastas é o mandamento nº1 do bom faroeste), triste e amargo, e sujeito a surtos brutais de violência, é indispensável no repertório de quem aprecia o gênero.

Hostis Hostis

Hostis (Grisbi Productions/Divulgação)

The Ballad of Buster Scruggs, dos irmãos Joel e Ethan Coen, também não passou nos cinemas, mas por motivo bem diverso: o longa foi feito especialmente pela e para a Netflix, que continua sua ofensiva recrutando cineastas do primeiro time (como Paul Greengrass, Alfonso Cuarón e David Mackenzie) para abastecer sua produção e torná-la mais estrelada. O longa é dividido em seis contos completamente diferentes entre si, ligados por um único ponto em comum: explorar facetas distintas do western. O primeiro conto, que dá nome ao longa, traz o ótimo Tim Blake Nelson, ator cativo dos Coen, como um caubói que, apesar de usar chapéu branco (a marca dos “mocinhos”), ser muito almofadinha e sair cantando por qualquer motivo, é um matador de mira infalível, e que não perdoa ninguém. Dessa paródia aos faroestes romantizados dos anos 50, os Coen pulam para uma pequena fábula à moda dos spaghetti de Sergio Leone (as citações a Era Uma Vez no Oeste são excelentes), em que James Franco tenta roubar um banco. O terceiro segmento é um terrível conto moral, de desfecho enregelante, no qual Liam Neeson explora os talentos dramáticos de um rapaz sem pernas nem braços (interpretado por Harry Melling que, acredite, foi o gordinho Dudley Dursley em Harry Potter). Em seguida, Tom Waits faz um velho garimpeiro solitário obcecado em achar um veio de ouro à beira de um rio; é uma belíssima demonstração de como os Coen controlam uma veia narrativa com o mínimo de elementos, e uma homenagem aos faroestes desiludidos e engajados dos anos 70, como Mais Forte que a Vingança, com Robert Redford (no original, Jeremiah Johnson).

The Ballad of Buster Scruggs The Ballad of Buster Scruggs

The Ballad of Buster Scruggs (Netflix/Divulgação)

O quinto conto é o meu predileto: Zoe Kazan é a jovem que se vê carregada pelo irmão tolo para a perigosíssima trilha do Oregon, ao final da qual ele tem a ilusão de um grande negócio para si e de um casamento arranjado para ela. Mal a caravana parte, o irmão morre, e Zoe se vê indefesa, à mercê da eventual generosidade alheia e da própria capacidade de pensar rápido. Esse é um lugar, porém, em que a inocência não tem vez, e o breve momento de encanto da moça com um cão perdido e uma toca de cães-da-pradaria põe tudo a perder. Sozinho, daria um longa fácil, fácil. A meu ver, portanto, é pena que The Ballad of Buster Scruggs se encerre com uma incursão pelo western fantasmagórico – um conto interessante, mas maneirista, sobre um grupo de estranhos que viaja numa diligência por uma paisagem borrada pela bruma. É uma dessas indulgências que os Coen às vezes se permitem. E às quais, pensando bem, têm direito depois de mostrar tanto serviço.


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