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‘It: Capítulo Dois’: um filme diabolicamente fraco

Continuação só arrepia quando confia no que é simples: a atuação perturbadora de Bill Skarsgard e a sensação de que o normal foi desvirtuado

Na cidadezinha de Derry, seis garotos e uma garota caminham por terrenos incertos no verão de 1989: não apenas estão às portas da adolescência como enfrentam bullying na escola, perdas em família, violência doméstica ou abuso sexual e, em um caso, até um paralisante excesso de proteção. No dia a dia do grupinho, que se autointitula “os otários”, os adultos ou são ausentes ou, pior, são uma presença que vai do ineficaz ao aterrador. A esses medos palpáveis, algo sinistro vem se juntar: Pennywise, um demônio que usa sua forma de palhaço para atrair crianças e então devorá-las. Adaptado da obra de Stephen King e lançado em 2017, It: Capítulo Um pegava a onda de popularidade da série Stranger Things (a qual, por sua vez, aproveitava-se muito do Conta Comigo de Stephen King), mas tinha robustos méritos próprios no retrato das amizades dessa fase da vida e da aventura que se vive nela. Apesar dos efeitos especiais de praxe, era nos laços entre os “otários” que o diretor argentino Andy Muschietti ancorava seu filme — e na excelente atuação do sueco Bill Skarsgard como o palhaço demoníaco. Muschietti colheu um sucesso e tanto: feito por 35 milhões de dólares, It rendeu 700 milhões, tornando inevitável uma continuação. Mas pouco se ganha e muito se perde com It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, Estados Unidos/Canadá, 2019), já em cartaz no país.

Aqui, 27 anos se passaram — o tempo exato para que Pennywise inicie um novo ciclo de desaparecimentos e mortes em Derry. Agora adultos, os “otários” ostentam as marcas dos seus dramas pessoais: depressão, ansiedade, casamentos abusivos, cinismo terminal. Carregam também o trauma do confronto com Pennywise, embora suas memórias tenham sido apagadas. Só Mike (Isaiah Mustafa), que continua morando na cidadezinha, nada esqueceu. É ele quem chama os velhos amigos de volta para cumprir uma promessa feita na ocasião, de combaterem Pennywise juntos caso este ressurgisse. Graças ao êxito — criativo, inclusive — do primeiro filme, Muschietti conseguiu que lhe estendessem o tapete vermelho para esta sequência: ganhou o dobro de orçamento, muito mais efeitos, um elenco de arromba que inclui Jessica Chastain, James McAvoy e Bill Hader e um corte final de quase três horas.

“Mais”, porém, não significa “melhor”. Apesar de estelar, o elenco adulto não consegue fazer frente ao cativante elenco juvenil. Este retorna em cenas de flashback que, entretanto, não acrescentam e apenas repisam: para garantir que todo mundo pegue o fio da meada, o diretor reencena os traumas de cada um dos “otários”, com resultado soporífero. E os efeitos batidos e rotineiros — nove entre dez filmes de terror hoje têm bocarras que se abrem para revelar fileiras de dentes — só sacodem o sono dos mais impressionáveis. O que resta de graça e de mal-estar está no mesmo lugar em que estava já em Capítulo Um: na risada medonha e nas feições elásticas de Bill Skarsgard, nas perturbações sutis que às vezes se insinuam no corriqueiro (a veterana do baixo orçamento Joan Gregson protagoniza uma cena espetacular) e naquela conexão incondicional com os amigos que apenas na infância e na adolescência se pode firmar. É somente quando Capítulo Dois consegue ser simples, enfim, que ele ganha vida.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2019, edição nº 2651

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