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Carey Mulligan brilha e pode roubar a cena no Oscar com ‘Bela Vingança’

Demolidora, a atriz brilha como uma mulher consumida por uma missão na surpreendente estreia na direção da atriz Emerald Fennell

Por Isabela Boscov Atualizado em 15 abr 2021, 18h11 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

Noite sim, noite não, Cassandra (uma formidável Carey Mulligan) pode ser encontrada em bares e baladas com a maquiagem em excesso já algo borrada, as roupas meio fora de lugar e o olhar vidrado e o andar cambaleante de quem bebeu demais. E, vez sim e vez sim também, algum frequentador posa de cavalheiro e se oferece para levá-la em casa, ou apresenta-se como festeiro e a convida a esticar a noitada. No momento em que eles avançam — e cedo ou tarde eles avançam —, Cassandra, que na verdade está bem sóbria, serve-lhes uma dose farta de arrependimento. Em Bela Vingança (Promising Young Woman, Inglaterra/Estados Unidos, 2020), com estreia prevista para a quinta-feira 22 nos cinemas que estejam em funcionamento, ela não é só uma mulher com uma missão; é uma mulher consumida por essa missão.

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Como quem põe na rua todos os móveis da casa que não sejam indispensáveis, Cassandra subsiste com um emprego abaixo de suas capacidades para que o trabalho lhe roube o mínimo de energia; não cultiva amores nem amizades; e entra em letargia quando visita os pais na casa deles — que, em um toque sutil mas bem colocado, a diretora Emerald Fennell, estrean­te que emplacou cinco indicações de peso ao Oscar, mostra como antro asfixiante de cortinas, tapetes e cacarecos. Há uma razão específica para a sanha de Cassandra. Mas, do ponto de vista dramatúrgico, interessa menos a razão (não de todo convincente, aliás) que a reação engendrada por ela: uma saturação absoluta com a facilidade com que alguns homens diminuem, objetificam, desvalorizam e descartam as mulheres e, apesar de não terem eles próprios nenhum mérito a reivindicar (ou não precisariam dessas táticas para escorar seu ego), ainda assim causam danos profundos nas mulheres que depreciam.

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Conhecida como a Camilla Parker Bowles da série The Crown, a inglesa Fennell se mostra uma diretora ferina, vivaz e cheia de humor perverso, e com talento para imprimir sabores espe­cífi­cos a cada cena. Fennell é menos firme nas mudanças tonais, algo que fica claro no terceiro e último ato de Bela Vingança. Mas compensa as hesitações típicas de um primeiro trabalho com a escalação brilhante de Carey Mulligan: vista na maioria das vezes em papéis em que a delicadeza é uma exigência na construção da personagem, como em Educação, Longe Deste Insensato Mundo ou A Escavação, ela aqui entra em modo demolidor. Tem a obstinação de um autômato no início; expõe-se a uma pane no sistema quando abre um brecha para o velho conhecido Ryan (Bo Burnham, ótimo), que encontra por acaso no café em que trabalha; e implode com visceralidade e desespero assustadores no desfecho, deixando uma impressão que se prolonga muito além do final do filme. Apesar da vitória recente de Viola Davis por A Voz Suprema do Blues na premiação do Sindicato dos Atores, Mulligan continua a ser uma excelente aposta para o Oscar deste ano. Ou uma excelente aposta, ponto.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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