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A Garota no Trem

Emily, você é melhor do que isso, querida

Por Isabela Boscov Atualizado em 13 jan 2017, 14h36 - Publicado em 28 out 2016, 13h00

Se Emily Blunt não fosse tão adorável, ela seria de dar raiva: é bonita sem maquiagem, dois meses depois de dar à luz já cabe no vestidinho, tem uma voz linda e um senso de humor que é um perigo de tão afiado, e é uma baita atriz. O mais bacana no talento de Emily é o quanto ele demonstra a inteligência dela; as atuações dela são perspicazes, perceptivas e fluidas – ajustam-se ao momento, ao ator que está em cena com ela, pegam sinais que estão no ar. Emily, em suma, é muito mais atriz do que seria preciso para as exigências modestas de um suspense tão mediano quanto A Garota no Trem. Em cena como Rachel, uma moça que tomou um tombo feio na vida, caiu na sarjeta e não está conseguindo se levantar, Emily parece alguém que está tentando caber numa roupa dois números menor; se ela se mexer demais, a costura rasga.

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A inglesa Paula Hawkins, autora do best-seller em que o filme se baseia, várias vezes fez questão de dizer que já estava escrevendo seu livro quando a americana Gillian Flynn lançou o super sucesso de vendas Garota Exemplar e David Fincher o adaptou para o cinema. Não duvido, mas a coincidência (e ela vai além da “garota” no título) é ao mesmo tempo feliz e infeliz. Feliz, porque impulsionou decisivamente as vendas de A Garota no Trem. Infeliz porque a comparação é inevitável, e A Garota no Trem – livro e filme – sai perdendo feio.

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Rachel começou a beber antes mesmo de seu casamento com Tom (Justin Theroux) acabar, porque algo já não ia bem entre os dois. Mas, depois que ele assumiu o caso com a perfeitíssima Anne (Rebecca Ferguson), pediu o divórcio, casou-se de novo e teve um bebê, Rachel passou a entornar de vez. Quando a história começa, ela está já há mais de um ano sem emprego; foi demitida por se apresentar alcoolizada ao trabalho. Mas Rachel finge para a amiga em cuja casa ela mora que está tudo bem: todos os dias ela toma o trem do subúrbio de Westchester para Manhattan, onde passa o dia vagando pelos parques e pela estação ferroviária e bebericando vodca. De noite, ela pega o trem de volta. E, na ida e na volta, senta-se sempre no mesmo vagão, para poder olhar a casa onde morou com Tom, hoje reinado de Anne e seu bebê. E olhar também outra casa, no mesmo quarteirão, onde mora um casal jovem (Haley Bennett e Luke Evans), bonito e que, na fantasia que ela gosta de tecer, é perfeitamente ideal e apaixonado. Rachel está em depressão, em negação e em suspensão. A vida dela é isso. Isso, e ligar dezenas de vezes seguidas para o ex-marido, e bater na porta da casa dele, e então esquecer tudo no mar de vodca e gin que ela consome.

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Até o dia em que um crime talvez tenha acontecido. Megan, a jovem que ela gosta de observar da janela do trem, desapareceu. Cogita-se assassinato. Rachel acha que tem uma informação importante a dar à polícia. Mas, surpresa: talvez ela própria esteja envolvida. Como ter certeza que não, se está sempre embriagada e confusa?

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A Garota no Trem logo vai se revelar uma história “de mulheres”: Anne e Megan se alternam com Rachel como narradoras, e a troca de ponto de vista traz à tona aquelas rachaduras conjugais que costumam ficar nas paredes internas, ocultas do resto do mundo atrás das fachadas perfeitas. Mas a coisa toda é bem menos interessante do que possa parecer: todas as três mulheres são estereótipos consagrados, e os personagens masculinos se saem pior ainda. Juntando Paula Hawkins e o diretor Tate Taylor (de Histórias Cruzadas), não se tem meio David Fincher: Taylor é de uma banalidade inapelável. As cenas de Megan com seu terapeuta (Edgar Ramírez) são constrangedoras de tão improváveis e ruins; quando ele mostra o idílio conjugal entre Megan e seu marido que tanto seduz o olhar de Rachel, parece estar fotografando um daqueles catálogos de moda das lojas de departamentos americanas. Taylor, enfim, é um diretor estritamente descritivo. É incapaz de algum insight.

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A Garota no Trem teria salvação de duas maneiras. Uma, se fosse um daqueles filmes ingleses de Mike Leigh em que todo mundo é meio ou muito feio e infeliz para dedéu – no livro, que se passa em Londres, Rachel se largou completamente depois do divórcio: engordou, ficou flácida, está com a pele horrível e o cabelo malcuidado. Aí, Emily Blunt, com quem ninguém teria coragem de fazer uma coisa dessas (muito menos eu), teria de dar lugar a alguma das muitas excelentes atrizes inglesas que têm a cara do papel e são pouco conhecidas no cinema americano. A outra possibilidade seria assumir sem disfarces o dramalhão que A Garota no Trem é fazê-lo como um daqueles melôs dos anos 40 e 50 com Joan Crawford e Deborah Kerr, sem nenhum medo de ser infeliz. Aí, porém, a discrição e a contenção de Emily ficariam fora de lugar, e seria melhor chamar alguém como Elizabeth Olsen.

Ou seja, Emily é ao mesmo tempo mais e menos do que A Garota do Trem pede. Mas, em qualquer caso, é muito melhor do que o filme.


Trailer

A GAROTA NO TREM
(The Girl on the Train)
Estados Unidos, 2016
Direção: Tate Taylor
Com Emily Blunt, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Edgar Ramírez, Allison Janney, Laura Prepon, Lisa Kudrow
Distribuição: Universal
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