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500 tons de cinza: a beleza do cinema de Zhang Yimou no filme ‘Shadow’

Cineasta pinta uma disputa trágica na China Antiga com movimento e infinitas camadas entre o preto e o branco

Por Isabela Boscov Atualizado em 13 ago 2021, 12h04 - Publicado em 15 ago 2021, 08h00

Nos melodramas da primeira etapa da carreira, como Lanternas Vermelhas (1991) e Tempo de Viver (1994), nos instantâneos realistas da China contemporânea, a exemplo de Nenhum a Menos (1999), ou nos dramas introspectivos disfarçados em opulentos filmes de artes marciais, como Herói (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), o diretor Zhang Yimou exercitou sempre uma constante: um preciosismo visual tão elevado que a beleza que advém dele é não raro sublime. Virou lugar-­comum, porém, dizer que Yimou é um cineasta versátil demais, no qual não se distingue uma marca autoral. Daí ser oportuno assistir ao esplêndido Shadow (Ying, China/Hong Kong, 2018), já em cartaz: ainda que às vezes se disperse em épicos sem consequência, como A Grande Muralha, de 2016, Yimou reencontra seu propósito quando faz da estética a sua linguagem e o elemento do qual o sentido das suas narrativas se origina. Não por coincidência, esses são também os momentos em que Yimou se inspira no mais indiscutível de todos os mestres, o japonês Akira Kurosawa.

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Em Shadow, um rei que perdeu parte de seu território para o rei vizinho insiste na política de apaziguamento. À revelia dele, seu maior general força a guerra. Mas não é o general que está ali, diante da corte, enfrentando o soberano: é seu duplo, o plebeu Jing, manipulado pelo militar que, doente, se esconde nas entranhas do castelo (o formidável Chao Deng faz ambos os papéis). Entre os dois há, além da farsa, a paixão pela mesma mulher (a também excelente Li Sun). O diálogo com Kurosawa, entretanto, vai bem além do tema do plebeu usado como duplo de um senhor — o mote de Kagemusha. Está na dualidade de cada entrecho, nas simetrias que convergem para um ponto de fuga, na embriaguez com o movimento, na chuva, no vento ou na neblina que desenham o fundo de cada cena, na disputa trágica e, mais evidente de tudo, na expressividade do preto e branco. Yimou filma Shadow em cores, mas, à exceção da pele dos personagens e no ocasional vermelho do sangue, o que se tem aqui é uma infinidade de cinza — uma paleta tão rica e repleta de nuance que ora ela preenche a história que está sendo contada, ora a contradiz, e todo o tempo a amplia. Coisa de que só um autor seria capaz.

Publicado em VEJA de 18 de agosto de 2021, edição nº 2751

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