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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Precisamos falar sobre o Tinder

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 04h46 - Publicado em 19 dez 2013, 16h45

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Veja.com: “Ao aderir, o usuário escolhe o gênero (masculino ou feminino), idade (acima de 18 anos) e possíveis pretendentes a uma distância de até 100 quilômetros. Seu uso se resume a uma rápida observação de uma ou várias fotos, seguida de um deslize com o dedo sobre a tela: ao se movimentar para a esquerda, aprovação; para a direita, rejeição. Caso exista interesse mútuo, as pessoas serão notificadas” e então se abre uma janela exclusiva de chat para que elas duas se falem quando quiserem.

Já ensinava Ovidio em “A arte de amar”: “para julgar a beleza, a noite e o vinho são ruins… A noite dissimula as manchas e é indulgente com todas as imperfeições; nestas horas qualquer mulher parece bela. Tenha o dia como conselheiro para julgar as pedras preciosas ou a lã tingida de púrpura; tenha-o como conselheiro para julgar os traços do rosto e as linhas do corpo.” No ano 1 a. C., quando Ovidio escreveu seu impagável manual de conquista das mulheres, ainda não existia o Tinder. Para julgar a beleza de alguém, apenas a noite e o vinho eram ruins.
 
Não que o poeta e ‘Don Juan’ romano não fosse usar e recomendar hoje o aplicativo – que reaqueceu o mercado das tentativas amorosas e sexuais no Brasil – só porque no limite de seis fotos até urubu vira canária. Antes de marcar um encontro à luz do dia, decerto ele pediria às suas tinderetes o Instagram e o Facebook (depois o Whatsapp e finalmente o Skype), como fazem no chat os usuários que não querem cair tão facilmente em “pegadinha”. Mas estaria lá, por que não? “O acaso”, ensinava ele também às moças, “desempenha seu papel em todo lugar: jogue sempre o anzol na água em que você menos espera pegar um peixe, haverá um.”
 
Ovidio
Nas águas do Tinder, o que tem de gente pescando não é brincadeira. Já dá até para reconhecer nos bares e festinhas os rapazes e moças que estão se encontrando pela primeira vez após o “match”. Elas tímidas, eles se fingindo à vontade, os dois rindo, “muito louco esse negócio, né?”, “que coisa engraçada”, e dali a pouco, com sorte, estão se abraçando e se beijando para celebrar a graça dessa loucura toda. Nunca foi tão fácil conhecer virtualmente pretendentes novos – e que ainda morassem tão perto. Difícil é parar em alguém. “A fila anda” é coisa do passado, hoje se anda com a fila inteira no bolso, aumentando a cada dia.
 
Para quem não dispunha de fila, Ovidio recomendava as arquibancadas em semicírculos dos teatros romanos: “Você encontrará a quem amar, no que bulir, como fazer uma conquista passageira, com quem tecer uma ligação durável”. Nas arquibancadas quadradas do Tinder, apesar da “orkutização” de que já reclamam os que se consideram “gente bonita”, tudo isso é possível, e os usuários ainda encontram quem curtir só para ver se serão curtidos de volta – aquela massageada básica no ego, sem intenção de puxar assunto depois. “Se o sexo forte julgar melhor não fazer avanços, a mulher, vencida, tomará para si o papel de fazê-los”, dizia o poeta, antecipando a iniciativa esperançosa (“olá!”) das tinderetes mais simpáticas.
 
Até segunda ordem, no entanto, um “like” nada mais é do que um desejo de conhecer e não é porque esse desejo nasce do contato visual que a aparência física é a única coisa que importa para todos os usuários. “Quando você conhece alguém em um café”, diz o sócio-fundador Jason Mateen, “a primeira coisa que repara é na aparência física, ou você se atrai pela pessoa ou não. Após começar a conversar, só aí que procura pelos interesses em comum, amigos, laços que possam gerar confiança entre as duas pessoas. É exatamente o que acontece no Tinder!” Com a diferença facilitadora de que o Tinder quebra o gelo inicial e complicadora de que nada garante que uma pessoa virtualmente atraente e interessante seja ambas as coisas ao vivo, em movimento. Quanto ao aplicativo já mostrar os amigos feicebuquianos em comum, isto pode ser facilitador ou complicador, dependendo do histórico amoroso de tinderetes machos e fêmeas.
 
De todo modo, há mais coisas entre um “like” e uma trepada do que pensam a vã histeria das detratoras do Tinder, a vã vaidade de certas tinderetes e o vão assanhamento dos usuários mais tarados. Idiotas – homens e mulheres -, há por toda a parte, e é natural que um aplicativo que facilita o contato virtual entre pessoas que não se conhecem facilite também o contato com os idiotas que elas têm por perto. Nelson Rodrigues dizia: “A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade.” A maior desgraça do Tinder é precisamente a mesma. Mas há que se procurar a exceção.
 
“Ela não virá até você, descendo do céu entre a delicada brisa”, alertava Ovidio há mais de 2013 anos, mas, com sorte, pode vir descendo do Tinder entre os delicados deslizes dos seus dedos.
 
Felipe Moura Brasil – http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil

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