Clique e assine a partir de 9,90/mês
Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Dezoito anos depois, diagnóstico de Olavo de Carvalho vira mote de filme de Sérgio Bianchi: “Falo das pessoas que, mesmo no poder, se acham perseguidas”, declarou cineasta à Folha, sem citar o filósofo. Se cabe a mim reconstituir a história cultural do Brasil, então vamos lá

Por Felipe Moura Brasil - Atualizado em 31 jul 2020, 03h38 - Publicado em 21 jun 2014, 21h55

Montagem Olavo Bianchi slide

18 ANOS. Talvez seja este o tempo que se leva no Brasil para que um diagnóstico de realidade vire mote de uma obra artística.

“Jogo das decapitações”, novo filme de Sérgio Bianchi, estreou na quinta-feira, segundo a Folha, disparando farpas contra a geração que sofreu nas mãos do regime militar e hoje está, segundo o cineasta, “enlouquecida atrás de uma indenização”. “R$ 500 mil por uma noite na cadeia. E não deve saber a diferença entre exílio e intercâmbio”, diz uma personagem do grupo de sessentões que festeja a recém-conquistada Bolsa-Ditadura. Eis o trecho da entrevista de Bianchi que saiu sintetizado na manchete da edição impressa (vide imagem):

Folha – Seus filmes fazem denúncias sociais. Acha que o cinema tem de ser político?
Bianchi – Não faço crítica social: retrato o momento que estou vivendo. Não é cinema militante. Procuro as contradições da realidade. Estou falando das pessoas que, mesmo estando no poder, continuam se achando perseguidas.

Folha – Teme ser chamado de reacionário, algo comum no filme?
Bianchi – Não. Não sou de direita ou de esquerda. Desde jovem, não consigo entender isso. (…)

Agora veja este trecho da “profética” entrevista que o filósofo Olavo de Carvalho concedeu a Pedro Bial no Bom Dia Brasil, em 1996, seis anos antes de o PT subir ao poder político:

Bial – Você é de direita?
Olavo – Olha, (inaudível) direita de Deus-Pai Todo-Poderoso no Juízo Final, eu espero. Agora, se é de esquerda ou direita aqui não me interessa. O que me interessa é em cima e embaixo. No tempo em que quem estava no poder era a direita, eu estava na esquerda como crítico. Agora eu acho que a esquerda está num momento de ascensão, então eu automaticamente passo a olhá-la com olhos críticos.

Bial (surpreso e desconfiado) – A esquerda está num momento de ascensão?
Olavo – Ah, sem sombra de dúvida.

Bial – …num momento em que a alternativa socialista sofreu um colapso no mundo inteiro.
Olavo – Sem sombra de dúvida. Aconteceu no mundo inteiro, mas eu não duvido que a esquerda, aqui no Brasil, ela tem uma grande esperança de que isso aqui seja a terra onde vai haver um renouveau, um renascimento. Eu acho essa esperança maluca, mas eu creio firmemente que eles têm essa ideia. E [o fato de] que [eles] têm um poder muito grande hoje, a gente vê sobretudo nos meios de comunicação, na universidade… Isto por quê? Porque a partir da década de 1960, foram adotando a estratégia gramsciana, que é a de fazer a revolução cultural primeiro para fazer a revolução política depois. Então foram gradualmente ocupando espaços na universidade, na imprensa, rádio, movimento editorial etc. E hoje isto aí está praticamente na mão deles, embora eles mesmos não assumam a responsabilidade. Quer dizer: muitas vezes [os esquerdistas] têm poder, mas não assumem que têm, então continuam se sentindo perseguidos e infelizes.

Em 1994, na verdade, em A nova era e a revolução cultural, Olavo já enxergava a máscara da hipocrisia nos ex-perseguidos políticos e, observando que eles estavam a um passo do poder, anunciava “para breve, neste país, um novo império da falsidade”. A fantasia persecutória descrita na entrevista – e presente em sua obra desde a década de 1990 – ganharia uma análise sintética tanto no artigo “A fórmula para enlouquecer o mundo“, de 2007, que eu incluí no best seller, idealizado e organizado por mim, “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota“, como em “A moral do Brasil“, que saiu pouco mais de um mês depois do lançamento.

No primeiro, Olavo analisa as origens da culpa mal conscientizada que acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória projetada sobre os outros, sobre ‘o mundo’, sobre ‘o sistema’. No segundo, mostra como o instinto de autodefesa grupal assume as dimensões dessa fantasia persecutória que se traduz na necessidade de calar por todos os meios qualquer voz divergente, por mais débil e apolítica que seja.

A atual lista negra do PT é um sintoma justamente dessa necessidade, que ele também já havia descrito em “Rumo à censura total“: “Não existindo um partido de direita, nem qualquer força política de direita organizada, nem muito menos poderes financeiros sustentando uma militância de direita, nem, enfim, nenhuma classe ou entidade sobre a qual se possa lançar as culpas de todo o mal que o governo faz, só resta ao esquerdismo voltar suas baterias contra indivíduos, cidadãos isolados e sem qualquer respaldo político ou econômico – jornalistas, escritores, blogueiros – e atacá-los com a fúria e o desespero de quem defendesse a própria vida contra uma invasão imperialista ou um golpe militar.”

Bianchi

Sérgio Bianchi. Foto: Folha

Continua após a publicidade

Pois bem. Não faço ideia se Sérgio Bianchi teve algum contato direto com a obra do Olavo e não o recrimino aqui por não citá-lo; apenas coloco os pingos nos ‘is” da recente história cultural do Brasil, mostrando o quão distante está a classe artística da vida intelectual. Foram necessários 12 anos de maus exemplos do PT no governo para que um filme brasileiro retratasse, seja lá de qual maneira, boa ou ruim, um pedacinho mínimo do comportamento esquerdista cuja mentalidade correspondente Olavo diagnosticara em germe, ainda quando a esquerda consolidava o domínio dos meios culturais – inclusive do mercado cinematográfico – sem o qual Lula jamais teria chegado à presidência em 2002.

Se as canalhices dos poderosos não são sequer retratadas pela arte popular de um país, tanto mais difícil será para um povo reconhecer os canalhas – que dirá a sua ascensão.

Como escreveu Olavo em “A fonte da eterna ignorância”, de 2009 (p. 72): “‘Cultura’, no Brasil, significa antes de tudo ‘artes e espetáculos – e as artes e espetáculos, por sua vez, se resumem a três funções: dar um bocado de dinheiro aos que as produzem, divertir o povão e servir de caixa de ressonância para a propaganda política”, até porque, acrescento eu, em grande parte ela depende da aprovação de burocratas para se captar recursos através de leis de incentivos. “Foi preciso, no festival de Paraty, uma escritora irlandesa (Edna O’Brien) vir avisar aos brasileiros que Chico Buarque de Holanda não faz parte da literatura”, acrescentava o filósofo.

Curiosamente, na mesma Folha que traz a entrevista com Bianchi, há uma análise basicamente musical escrita por Luiz Fernando Vianna com o título: Boa como antes, obra atual de Chico Buarque não fala com o presente. Ou seja: em matéria de descrição do atual estado de coisas – e a análise não se refere apenas à política -, as músicas do militante petista são tão irrelevantes quanto os seus livros. Muitos, como ele, que combatiam o regime militar através da arte, hoje nada produzem sobre qualquer centelha da ditadura petista (a não ser jingles) ou porque são dela militantes, ou porque não querem incomodar os velhos companheiros. E o que resta no ar? No “mainstream”, pelo menos, só musiquinhas de amadores contra os políticos em geral e roubalheiras genéricas, as quais qualquer garoto de 12 anos pode compor para posar de bom moço com as menininhas. (Há boas músicas e paródias por aí, mas ainda limitadas e dispersas pela divulgação em redes sociais.)

OlavoTemRazão muroPara respirar as ideias de esquerda, basta ao cidadão comum ligar o rádio e a TV, ler jornal, ir à escola, frequentar uma universidade, assistir a filmes e seriados nacionais ou de Hollywod. (Nelson Rodrigues já falava do “marxismo atmosférico” brasileiro.) Para saber o que se passa na realidade, só lendo os blogs ou livros dos autores que as desmascaram. E isto agora que furamos o bloqueio do mercado editorial com um best seller atrás do outro.

Nada incomoda mais a esquerda revolucionária do que se ver retratada nessas obras – e poucas coisas nos divertem mais do que vê-la reagindo exatamente como previmos. Os professores universitários Renato Janine Ribeiro e Wilson Gomes que o digam.

A Folha ainda perguntou a Sérgio Bianchi se ele ouviu críticas por tratar do tema dos ex-militantes de esquerda:

– Tive o silêncio como resposta. Faz parte da cabeça colonizada dos críticos não querer refletir sobre a realidade brasileira. (…)

É verdade. No Brasil, a arte imita a vida só 18 anos depois – e o artista ainda é odiado por isso. Um recém-nascido precisa virar maior de idade para que venha à luz o que já se passava no país quando ele nasceu – e talvez ele nem fique sabendo a respeito, porque os donos do microfone lhe ocultaram a revelação.

Sérgio Bianchi, por mais longe que esteja do conservadorismo e da direita, que se prepare para a fúria bovina da canalhada coitadinha. Talvez agora ele seja chamado de “olavette” também.

Felipe Moura Brasil – http://www.veja.com/felipemourabrasil

Siga no Facebook e no Twitter.

* “Profética” é como dizem por aí em tom de brincadeira, ok? A gente sabe que é outra coisa: #OlavoTemRazão.

Continua após a publicidade
Publicidade