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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

‘Bom Dia Brasil’ virou ‘Bom Dia Marina’. Quanta moleza com a candidata! Só faltou Chico Pinheiro cantar o jingle

Por Felipe Moura Brasil - Atualizado em 12 fev 2017, 09h53 - Publicado em 25 set 2014, 20h06

Se com William Bonner e Patricia Poeta o ‘Jornal Nacional’ fez sua obrigação jornalística ao confrontar, emparedar, tocar nos pontos sensíveis e nebulosos da atuação e da campanha dos três principais candidatos à Presidência da República, o mesmo não se pode dizer do ‘Bom dia, Brasil’ com Chico Pinheiro, Miriam Leitão e Ana Paula Araújo.

Captura de Tela 2014-09-25 às 19.04.05Aparentemente, a Globo estreou na manhã desta quinta-feira o “Bom dia, Marina“, no qual os mesmos jornalistas que confrontaram os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) do início ao fim das entrevistas promoveram um bate-papo descontraído com a candidata do PSB, oferecendo-lhe 30 minutos de palanque. Não sei se o programa vai permanecer na grade da emissora no segundo turno ou no eventual governo Marina, porque pode acabar rivalizando com o ‘Encontro com Fátima Bernardes’, mas que a campanha de Marina vai lembrando cada vez mais a de Barack Obama nos Estados Unidos, não resta dúvida.

O documentário de John Zigler “How Obama Got Elected and Palin Was Targeted” [‘Como Obama foi eleito e Sarah Palin alvejada’] e o livro de Bernard Goldberg, A Slobbering Love Affair: The True (And Pathetic) Story of the Torrid Romance Between Barack Obama and the Mainstream Media [em tradução livre: ‘Babando de amor: a verdadeira (e patética) história do tórrido romance entre Barack Obama e a grande mídia’] são apenas duas das numerosas obras que mostram a superproteção midiática com a qual o presidente garantiu o poder. Aos cineastas e escritores brasileiros que quiserem investigar o caso de amor da imprensa com Marina, darei minha singela contribuição através da análise comparativa do desempenho de Chico Pinheiro nas entrevistas com os dois candidatos supostamente de oposição.

Praticamente todas as perguntas para Marina, e não só de Chico, foram pedidos de dissertações e esclarecimentos sobre suas propostas, diante dos quais ela pôde deitar e rolar à vontade; enquanto as cobranças e até condenações morais ficaram para Aécio e Dilma. A primeira questão – sempre emblemática – de cada entrevista já mostra a diferença de tom entre as três:

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Para Dilma, Chico perguntou “Como é possível tudo isso acontecer [na Petrobras] sem que a senhora soubesse?”. Para Aécio, Ana Paula perguntou “Não teria que ter um plano de governo pronto antes e a tempo do eleitor analisar suas propostas?”. Para Marina, Miriam perguntou “E o que que a senhora vai mudar e como vai mudar [na legislação trabalhista]? Ou seja: Aécio e Dilma começaram sendo cobrados, o que ainda se intensificou nas “réplicas” dos entrevistadores. Marina começou com uma mera deixa para explicar seus planos. E assim foi.

Reúno abaixo as intervenções de Chico na entrevista com Marina. O leitor repare, naquela sobre os transgênicos, que, mesmo quando o jornalista aponta uma aparente contradição, a pergunta sai como um docinho de coco. Destaco as delicadezas.

Chico Pinheiro: Nós agradecemos a sua presença aqui no Bom Dia Brasil. Seja muito bem-vinda.

Chico Pinheiro: Agora, nós estamos em um quadro de desindustrialização, né, com perda, com redução de empregos. E, nesse momento, a senhora não acha delicado mexer nessa questão dos incentivos, ainda que isso seja desejável? Porque pode se entrar em um dilema aí: se tira os incentivos, corre o risco de piorar a situação da indústria e, portanto, os empregos; se mantém, permanece essa dependência das empresas do estado. Como a senhora…

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Chico Pinheiro: Qual é o critério para qualificação?

Chico Pinheiro: Mas a senhora vai reduzir a carga tributária?

Chico Pinheiro: Candidata, vamos falar dos transgênicos, como é a sua posição em relação a eles? Porque a senhora diz agora que é uma lenda que a senhora fosse contra os transgênicos, no entanto, a senhora já defendeu a moratória aos transgênicos, a proibição por cinco anos, em determinado momento quando a senhora era senadora, disse que eles só poderiam ser liberados depois de muitos estudos, de ampla discussão. Essas declarações do passado, o que elas são? São lendas, devem ser esquecidas, como é que é?

Chico Pinheiro: Hoje a sua proposta é essa, da coexistência?

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Chico Pinheiro: Qual é?

Chico Pinheiro: A senhora pensa em mudar a lei?

Chico Pinheiro: A senhora considera, a senhora, pessoalmente, considera os transgênicos um mal?

Chico Pinheiro: 3%, 3,5%, 4%, 4,5% [de meta da inflação]?

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Chico Pinheiro: (…) que medidas tomar logo no começo para baixar a inflação e para voltar o crescimento? Como é que faz isso?

Chico Pinheiro: Qual medida?

Chico Pinheiro: Ele é propositivo esse conselho? Ele vai dizer o que fazer?

Chico Pinheiro: A senhora acha que o conselho resolve isso?

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Chico Pinheiro: Vamos falar da sua campanha, candidata. [Nota de FMB: A propósito, isto é Chico mudando de assunto quando Marina ataca Dilma.]

Chico Pinheiro: Por que a senhora chorou?

Chico Pinheiro: E por isso a senhora ficou emocionada?

Chico Pinheiro: Só lembrar, candidata, que a gente tem mais um minuto e meio para a  senhora, por favor. Obrigado.

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Chico Pinheiro: A senhora tem um cálculo mais ou menos disso?

Chico Pinheiro: Candidata Marina Silva, muito obrigado pela sua participação aqui no Bom Dia Brasil. A senhora que tem dois minutos, teve 30 minutos aqui para expor mais as suas ideias. Agradeço muito a sua presença.

RETOMO. Depois dessa penúltima frase, só faltou Chico cantar o jingle da campanha de Marina, não é mesmo?

Marina acusou Dilma de ter abandonado a responsabilidade fiscal e falou de sua proposta de criar um conselho de tal coisa, e nenhum dos entrevistadores constestou: “Mas você votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixou normas e limites de gastos para a gestão pública, candidata. Votou contra, quando estava no PT de Dilma, no qual aliás a senhora passou mais de 20 anos. O eleitor deve acreditar mais na sua palavra sobre o que vai fazer no futuro do que na atitude que a senhora teve no passado e que contribuiu para a situação que a senhora hoje denuncia?”

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Marina tampouco teve de explicar seu apoio ao decreto 8.243 de Dilma, presente na agenda do Foro de São Paulo, ou sua mentira durante a campanha sobre o voto da CPMF, muito menos as mudanças eleitoreiras de seu plano de governo “feito a lápis”, segundo Aécio, ou sua posição Lula da Silva de que não sabia de nada sobre isso e sobre o avião pago com caixa 2 do seu partido. Aécio foi questionado sobre seu governo de Minas e Dilma sobre seu governo do Brasil, mas o Acre pelo qual Marina se elegeu senadora nem foi citado na entrevista. O máximo que lhe foi pedido, por Ana Paula Araújo, foi uma explicação sobre o entrave de licenças ambientais quando ela era ministra.

Não que Marina não tenha mais desenvoltura que Dilma e Aécio para vender seu peixe, mas quanta moleza, hein! A ela, basta criticar o bolsa-empresário e dizer que vai “manter o tripé da estabilidade econômica brasileira” que a imprensa chapa-silva, de esquerda e de direita, já se dá por satisfeita.

Veja a diferença das intervenções de Chico na entrevista com Aécio:

[Destaque evidente para o seu comentário ao fim da segunda.]

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Chico Pinheiro: Olá, candidato.

Chico Pinheiro: Candidato, nós estamos a pouco mais de dez dias da eleição, 12 dias. Em uma sociedade moderna, o senhor diz que… tem se apresentado como um candidato moderno, em uma sociedade democrática… Justiça seja feita, a candidata Dilma também não apresentou programa. Mas não apresentar programa para que o eleitor possa debater, discutir, conhecer, a essa altura, em uma sociedade democrática ou que se queira democrática, isso é uma aberração, isso é uma aberração.

Chico Pinheiro: O senhor não pôs no papel.

Chico Pinheiro: Mas eu falo a sociedade…

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Chico Pinheiro: Não, o tempo correto: faltam dez dias, candidato.

Chico Pinheiro: Como?

Chico Pinheiro: O senhor está dizendo o que não vai fazer, o senhor não está dizendo o que o senhor vai fazer.

Chico Pinheiro: Como é que o senhor vai fazer crescer?

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Chico Pinheiro: Como é que o senhor vai fazer?

Chico Pinheiro: Mas o senhor admite acabar com ele?

Chico Pinheiro: O senhor admite acabar com ele?

Chico Pinheiro: E como é que fica?

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Chico Pinheiro: E como é que ficam, por exemplo, os aposentados, milhões que se aposentaram sob a vigência do fator previdenciário e que podem se sentir lesados, podem se sentir prejudicados? O senhor vai criar uma série de ações na Justiça, milhões de ações.

Chico Pinheiro: Vamos falar de programas sociais. O senhor afirma que vai ampliar, primeiro para os estados que têm maior evasão escolar, depois pro resto do Brasil, pra todo o país, o programa Poupança Jovem, que o senhor criou em Minas, estado que o senhor governou por oito anos e mais quatro do seu sucessor, seu aliado, para oferecer uma poupança para estudantes que se formam.

Chico Pinheiro: Mas desde 2007, quando foi criado, esse projeto só chegou a nove municípios, 1%. Minas são 853, não é isso? 1% dos municípios mineiros e ainda sofre críticas do Ministério Público. Como é que o senhor vai… O eleitor vai acreditar que o senhor vai colocar isso no Brasil se o senhor em Minas Gerais só conseguiu em nove?

Chico Pinheiro: Mas só nove?

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Chico Pinheiro: Por quê?

Chico Pinheiro: Só tem nove municípios com evasão escolar ali?

Chico Pinheiro: Mas isso pode ser expandido para Minas, para outras cidades?

Chico Pinheiro: Oito anos. Esse projeto ia ser um piloto…

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Chico Pinheiro: Mas não decolou esse piloto, são oito anos.

Chico Pinheiro: Mas, candidato…

Chico Pinheiro: (…) O senhor tem defendido que o Governo Federal deve assumir mais responsabilidade na questão da segurança pública. No entanto, com 12 anos de governo em Minas Gerais, os seus oito mais os oito, os quatro do governador Anastasia. No entanto, Minas Gerais tem índices terríveis. Homicídios em Minas cresceram. Olha, o mapa da violência, 52% de 2002 a 2012, homicídios. Isso é pavoroso. É a maior taxa de aumento de homicídios do Sudeste. A morte de jovens cresceu 54% e o Brasil só cresceu 8%.

Chico Pinheiro: O que aconteceu? Não deu certo? O que que o governo de Minas fez?

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Deu para notar a diferença de nível de cobrança e simpatia? Pois é: “isso é uma aberração, isso é uma aberração”. E o final ainda foi um chega-pra-lá em Aécio:

Aécio Neves: Portanto, como você vê, mesmo num tempo tão curto como esse quem tem propostas para o Brasil, mesmo que ainda não estejam divulgadas, somos nós.

Chico Pinheiro: Meia hora, candidato.

Ana Paula Araújo: Meia hora de entrevista foi bastante tempo. Muito obrigada, candidato, pela sua presença aqui no Bom Dia Brasil.

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E assim vamos. Nos EUA, após anos de lobby anti-Bush da mídia esquerdista, só o que importava na eleição de 2008 era tirar o republicano do poder, de modo que ninguém, a não ser os conservadores de sempre, estava interessado em questionar a figura, o passado, o currículo de Barack Obama – e deu no que deu: um desastre dentro e fora do país.

No Brasil, após anos de roubalheira petista, só o que importa na eleição de 2014 é tirar o PT do poder, de modo que ninguém, a não ser os conservadores de sempre, está interessado em expor ao eleitorado quem é de fato Marina Silva. Evidentemente, é possível que seu governo venha a ser melhor que o de Dilma, mas o fato é que o jornalismo sempre deixa de fazer o seu papel quando vira militante e/ou se deixa levar pela esperança.

“Tomara que eu tenha me saído bem”, finalizou Marina, muito agradecida aos seus colegas, como se fosse mesmo a estreia de seu programa na TV.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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