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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

De Coração Valente a The Great: A ficção que vira a história pelo avesso

Confira seis personalidades históricas que tiveram suas trajetórias alteradas por séries e filmes — algumas para o bem, outras para o mal

Por Tamara Nassif - Atualizado em 29 jul 2020, 15h59 - Publicado em 26 jun 2020, 11h21

Não é surpresa que personagens históricos sejam vistos com olhos curiosos pela ficção, em séries e filmes que ainda gastam muito dinheiro para reproduzir cenários, figurinos e maquiagens de época. Alguns roteiros, no entanto, optam por deixar parte do embasamento factual de lado para dar mais destaque a um ou outro aspecto da trama, ou até para torná-la mais contemporânea e atraente ao público espectador. Há exemplos que fazem isso com honestidade e criatividade, como a recente série The Great, que logo na abertura avisa que é uma “história ocasionalmente real”. Outros, porém, simplesmente erram feio ao apresentar como verdade tramas que passam longe do que de fato aconteceu. Confira a seguir seis títulos da TV e do cinema que apresentaram grandes personalidades históricas, mas escorregaram nos fatos, para o bem e para o mal.

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Catarina, a Grande, em The Great (2020)

Catarina, a Grande, em ‘The Great’: uma história ocasionalmente real Hulu/Divulgação

Catarina, a Grande foi imperatriz da Rússia de 1762 a 1796, após ela organizar um golpe e obrigar o marido, o czar Pedro III, a abdicar (ele morreu oito dias depois de causas mal explicadas). Personagem intrigante da história, Catarina já foi retratada pela ficção algumas vezes, mas ganhou recentemente uma roupagem inédita na divertida série The Great, exibida no Brasil pela plataforma de streaming Starz­play. Debochada, a série brinca com fatos e personagens históricos, e os altera como bem quer. Mas, na essência, é fiel ao espírito da época e aos acontecimentos mais relevantes. Catarina, nascida alemã, foi arranjada para o imperador russo Pedro III em um casamento infeliz. Como dito, a jovem, numa mistura de ânsia pelo poder, inteligência e ódio pelo marido, derrubou o czar e assumiu o trono.

A produção amarra elementos ficcionais nos factuais para preencher algumas lacunas que arquivos históricos não contam, mas também para (bem) servir aos propósitos criativos do roteirista Tony McNamara, indicado ao Oscar por outra obra de época, A Favorita. Uma dessas manobras da ficção foi tornar a protagonista mais próxima de um “arquétipo contemporâneo”, nas palavras de McNamara. Então é possível ver nos personagens umas tiradas, por assim dizer, dignas de millennials mimados. Inicialmente, Catarina é ingênua e uma incorrigível otimista, com um lado arrogante de achar que, sozinha, pode mudar o mundo. Quando chega à corte e percebe a fria em que se meteu, a imperatriz interpretada por Elle Fanning começa a arquitetar um golpe para empurrar a Rússia à modernidade e, para tanto, tem de concorrer com um antagonista a sua altura. É nessa toada que Pedro III, na série vivido por Nicholas Hoult, deixa de ser o frívolo, cruel e agressivo imperador da vida real para se tornar um farrista afeito a esbórnia, birra e acessos de selvageria, mas que é dotado de uma sagacidade que conduz Catarina ao auge para, em seguida, derrubá-lo.

“Eu queria escrever sobre os jovens do nosso tempo, então o Pedro III da série não é uma boa representação do homem com quem Catarina casou de fato”, diz McNamara. O roteiro também cria personagens secundários que são amálgamas de nobres que poderiam ser facilmente encontrados na corte russa da época. Catarina precisou da Igreja, do Exército e dos aristocratas para derrubar Pedro III, então a série inventou personagens que os representassem: é caso do arcebispo interpretado por Adam Godley, o general bêbado Velementov (Douglas Hodge), o amante sensível (Sebastian De Souza), o burocrata Orlov (Sacha Dhawan) e a criada ex-aristocrata Marial (Phoebe Fox).

Rainha Anne, em A Favorita (2019)

‘A Favorita’ tem boa base histórica, mas infla romance lésbico incerto Fox/Divulgação

Corrida de patos, degustação de abacaxis, 17 coelhos, bolos azuis. A segunda produção roteirizada por Tony McNamara desta lista, A Favorita, aclamada no Oscar de 2019, é composta por riquíssimos detalhes da opulenta corte inglesa do século XVIII para contar da vida da rainha britânica Anne, interpretada pela vencedora da estatueta de melhor atriz Olivia Colman. Governante da Inglaterra, Escócia e Irlanda entre 1702 e 1707, e a responsável por unificar os dois primeiros no Reino da Grã-Bretanha, Anne é uma figura-chave na história da região, embora tenha tido sua atuação política deixada para segundo plano no longa, o qual, ainda que tenha uma boa base histórica, apela a algumas invencionices para efeito dramático. Os tais 17 coelhos de estimação são um exemplo: no filme, a rainha os mantém como uma lembrança de todos os seus filhos perdidos. Na biografia Queen Anne: The Politics of Passion, de Anne Sommerset, no entanto, não há qualquer menção a coelhos – exceto quando compõem um prato culinário. É seguro dizer que esse detalhe foi incluído pelo diretor grego Yorgos Lanthimos para ilustrar de forma mais concreta e impactante as perdas da protagonista, que realmente aconteceram. Outro traço da rainha adaptado à ficção diz respeito a seus problemas de saúde: é fato que a monarca os enfrentava desde a infância, situação que culminou em obesidade (amenizada na trama) e na necessidade de uma cadeira de rodas para locomoção.

A manobra ficcional mais destoante do longa, porém, é um triângulo amoroso lésbico, que provavelmente não existiu, entre Anne, a duquesa de Marlborough, Sarah (no longa, Rachel Weisz), e a criada Abigail Hill (Emma Stone). A rainha e a duquesa eram fervorosas religiosas, a ponto de que qualquer insinuação a um relacionamento homossexual, na época visto como aberração ou subversão, causaria a elas mais medo do que desejo. Não é impossível, no entanto, que essa relação tenha de fato acontecido. A única pista deixada para trás foram cartas trocadas entre as duas, que falavam sobre amor — o que também poderia ser considerado uma declaração de amizade. Fica a dúvida.

Marco Polo, na série que leva seu nome, de 2014

Da Netflix, ‘Marco Polo’ tem pouca precisão histórica Netflix/Divulgação

Vista por muitos como a prima nem tão bem-sucedida de Game of Thrones, a série da Netflix Marco Polo é um drama histórico que reúne cenários extravagantes, intrigas políticas e um enredo épico – este embebido de uma mistura de ficção com fatos da vida do real Marco Polo. Mercador, embaixador e explorador veneziano, Polo deixou um livro de relatos nomeado As Viagens, no qual narra sua jornada até a China e que serviu de base para a onerosa produção da Netflix. Nela, o comerciante (interpretado por Lorenzo Richelmy) viaja da Europa até o continente asiático, onde se aproxima de Kublai Khan (Benedict Wong), quinto Grande Khan do Império Mongol e fundador da dinastia Yuan, e integra seu seleto círculo de confidentes – o que realmente aconteceu. A próxima relação entre eles é o traço mais verossímil da trama, em que Polo galga posições de poder no império de Khan, servindo desde enviado especial a governador e funcionário do Conselho, antes de voltar à Itália. Marco Polo, no entanto, é considerada apenas 20% fiel à história real, de acordo com Batsukh Otgonsereenen, pesquisador que passou 10 anos imerso em documentos para o livro A História de Kublai Khan. Os 80% restantes são criações ficcionais, que vão desde encontros românticos descritos no programa, por exemplo o protagonizado por Polo e a cortesã Mei Lin (Olivia Cheng), até personagens como o descendente ilegítimo de Genghis Khan, Byamba (Uli Latukefu).

Outra fabricação da trama é que Mei Lin foi supostamente enviada pelo rival de Khan, da dinastia Song, para seduzi-lo e matar sua esposa. De acordo com Otgonsereenen, “nenhum imperador casou ou teve concubinas desconhecidas”. O destino final de Ariq Boke, seu irmão que brevemente tomou o poder depois da morte do pai e que perdeu uma guerra civil, também foi fantasiado: “A parte em que Kublai e Ariq Boke digladiam em uma luta sangrenta até a morte de Ariq é completamente falsa”, diz o historiador à agência de notícias francesa AFP, “Ariq de fato queria tomar o trono, mas os irmãos resolveram suas divergências de uma forma muito mais pacífica”.

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Maria Antonieta, no filme homônimo de 2006

‘Maria Antonieta’ explora vida de luxos da rainha francesa, mas deixa a desejar ao não abraçar o contexto revolucionário no qual a trama se insere //AFP

Maria Antonieta, arquiduquesa da Áustria casada com o rei francês Luís XVI, foi a última rainha da França antes da Revolução de 1789. Ela logo se tornou símbolo da decadência da monarquia – um dos aspectos políticos que a produção que leva seu nome, dirigida por Sofia Coppola, não destaca como o esperado. Apesar de baseado na biografia Marie Antoinette: The Journey, de Antonia Fraser, o longa é considerado por críticos franceses como um frouxo retrato da história ao inflar em excesso as futilidades da rainha (interpretada por Kirsten Dunst), que se deleita em compras e cupcakes nas duas horas de duração, enquanto ignora o contexto revolucionário no qual a trama se insere.

O filme faz menção aos gastos excessivos dela e à sua impopularidade como governante, mas não chega a aprofundar e ir além de sua vida de luxos. Deixa até de mencionar, por exemplo, o notório caso do colar de diamantes, que arruinou sua reputação ao sugerir que ela fraudou joalheiros ao comprar um caríssimo colar adornado com as tais pedras preciosas. Além disso, a rainha e Luís XVI, ao contrário do que mostra o filme, não dividem uma cama juntos, e o processo de sedução que ela engata para finalmente engravidar – algo muito cobrado para que sua posição na nobreza se consolidasse – tomou cerca de sete anos, não meros meses. A direção de arte e trilha sonora anacrônicas do filme são pontos que dividem os críticos. As cenas filmadas no próprio Palácio de Versalhes são um deslumbre, mas o figurino que exibe até um tênis Converse entres os sapatos da monarca, e as canções clássicas mescladas a faixas de rock do século XXI, irritou alguns espectadores, e arrancou risos e elogios de outros.

Alguns detalhes da vida de Maria Antonieta, no entanto, são retratados com precisão. O momento em que é entregue à nobreza francesa é exemplo disso: levada para a fronteira das terras de sua família austríaca ainda adolescente, ela é inteiramente despida em uma tenda e se veste de novo ao estilo parisiense. Até seu cachorrinho pug, Mops, é arrancado de suas mãos por Anne d’Arpajon, sua dama de honra, que diz: “Você pode ter quantos cães franceses quiser.” Sua timidez em momentos de nudez é outro elemento historicamente apurado, como quando tomou banho usando uma camiseta emprestada pela criadagem de Versalhes. Como ressaltou o historiador Jackson J. Spielvogel, o filme não é um longa sobre a história, mas sim um retrato da “rebeldia de uma jovem mulher, frustrada, entediada e que, apesar de estar sempre acompanhada, é muito solitária”.

William Wallace, em Coração Valente (1995)

‘Coração Valente’: muito mais ficcional que factual //Divulgação

Estrelado e dirigido por Mel Gibson, o épico Coração Valente segue William Wallace, um grande guerreiro escocês do século XIII conhecido por liderar uma revolta contra Edward I, rei da Inglaterra. A superprodução foi um sucesso de bilheteria, conquistou dez indicações ao Oscar de 1996 e arrebatou seis estatuetas, entre elas a de melhor filme. Se precisão histórica, porém, fosse um fator vital para a escolha dos vencedores, Coração Valente teria voltado para a casa de mãos vazias. O longa não só romantiza em excesso o herói Wallace, mas comete uma série de anacronismos na história factual, sem deixar claro que se trata de uma liberdade poética.

O escocês, por exemplo, não nasceu de uma família pobre, mas de um berço de ouro aristocrático, e seu par romântico na trama, a princesa francesa Isabella (Sophie Marceau), nunca o conheceu na vida real. Quando Wallace estava em suas empreitadas militares, Isabella tinha apenas quatro anos, e Edward III, o suposto filho do adultério, só nasceu sete anos depois da morte do escocês. Além disso, o protagonista provavelmente era homossexual, como sugerem as poucas informações históricas registradas sobre ele — boa parte proveniente de um poema. Isso significa que todas as cenas protagonizadas pela francesa, como informá-lo dos movimentos do exército inglês e presenteá-lo com um remédio anestésico para dor antes de sua execução, não aconteceram. A própria morte do guerreiro também é distorcida: na vida real, foi submetido a uma tortura excruciante de afogamento, castração, esquartejamento e decapitação. Sua última frase, que o filme alega ser “Liberdade!”, também é desconhecida — e provavelmente errônea, já que dificilmente o guerreiro tenha lutado em prol dos fracos e oprimidos. Outras escorregadas cometidas pelo aclamado longa é a Batalha da Ponte de Stirling, que não foi filmado em uma ponte, e a presença dos famosos saiotes escoceses em campo de batalha, usados para diferenciar quem eram os aliados e quem eram os inimigos ingleses. Na verdade, os tais “kilts” só começaram a ser usados 300 anos depois.

John F. Kennedy e seu assassinato, em JFK (1991)

‘JFK’ dá peso a teoria da conspiração já desmentida antes de sua produção //AFP/Getty Images

Em JFK (1991), Kevin Costner dá vida a Jim Garrison, um promotor público de Nova Orleans que descobre que a investigação oficial sobre o assassinato de John F. Kennedy não é de todo verdadeira. A morte do então presidente dos Estados Unidos teria sido, segundo a trama, obra de uma secreta empreitada governamental executada pela CIA, não do ex-marinheiro Lee Harvey Oswald, identificado na vida real como o verdadeiro culpado. Ainda que embebido de aspectos documentais verossímeis, em especial na introdução, o filme foi propositalmente feito com divergências históricas ao se inspirar em uma teoria da conspiração desmentida já em 1972, muito antes da produção sair do papel. Quatro anos depois do atentado contra JFK, em 1967, o Jim Garrison da vida real levou à corte americana documentos, relatos e testemunhas que embasavam sua teoria de que o presidente teria sido vítima do alto escalão do governo. Desacreditada pela opinião pública, a argumentação de Garrison logo foi tida como conspiratória e julgada, em menos de uma hora, como uma “bizarra” tentativa de chamar atenção. Ter caído na desgraça pública, contudo, não impediu o promotor de mais tarde lançar JFK: Na Trilha dos Assassinos, livro que reúne toda sua pesquisa e que serviu de base para o roteiro do filme de 1991.

JFK ainda maquia outros acontecimentos factuais, como o próprio julgamento organizado por Garrison. Ao contrário do que o jornal de Nova Orleans, The Times-Picayune, descreveu como “uma eterna mancha no sistema judiciário da cidade”, o episódio foi pintado no longa como uma heroica tentativa de desvendar a verdade sobre o governo. Perry Russo, uma testemunha-chave, é visto no filme dando seu depoimento de bom grado, quando a realidade conta que ele havia sido previamente drogado com um “elixir da verdade”. Outra manobra ficcional diz respeito à confissão de David Ferrie: em JFK, ele admite ter trabalhado para a CIA, mentorado Lee Harvey Oswald e conhecido os verdadeiros assassinos de Kennedy, até ser prontamente assassinado. Na vida real, Ferrie sempre manteve sua inocência no caso. O longa chega até a insinuar que Lyndon B. Johnson, o sucessor de Kennedy na Casa Branca, estava por trás de toda a organização do atentado – uma teoria sem evidências o bastante para se sustentar.

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