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Rumo à estação 22

Virou lugar-comum dizer que Bolsonaro não termina o mandato

Entre os vários assuntos a respeito dos quais é mais fácil falar do que fazer, a interrupção de mandatos presidenciais ocupa o topo da lista. Certamente porque passamos por dois processos de impedimento em menos de trinta anos e o mundo não se acabou. Donde a banalização do tema. A ponto de hoje ter virado lugar-comum em qualquer conversa pessoal ou digital dizer de maneira peremptória que Jair Bolsonaro não termina o mandato.

Pode terminar ou não, e, nessa hipótese, esses autores terão acertado à maneira dos relógios parados que duas vezes ao dia marcam a hora certa. Não há, por enquanto, evidências nesse sentido. O desempenho insatisfatório, a ocorrência de exorbitâncias oratórias, o exercício da boçalidade explícita e a inadequação dos atributos da pessoa às exigências do cargo não estão entre os fatores em que a Constituição prevê o afastamento definitivo de presidentes da República.

Isso sob o aspecto frio da lei. No ambiente quente da política, para a interrupção de mandato também são exigidas determinadas condições que por ora não estão postas. A principal delas, a existência de pessoas ou de grupos preparados e/ou interessados em ocupar a vacância decorrente do impeachment. Tal situação não se configura no momento. Isso não quer dizer, contudo, que os pretendentes à ocupação do poder ainda que no tempo regulamentar não estejam se mexendo desde já.

Para fazer uso de uma metáfora-chavão, digamos que 2022 seja um ano que já começou. Nada de anormal, pois os arranjos eleitorais funcionam à semelhança das escolas de samba, cujos preparativos para o Carnaval seguinte se iniciam assim que as alas se dispersam na Praça da Apoteose.

Não usual, entretanto, é que as articulações com vistas à próxima disputa presidencial ocorram no campo governista, que, em tese, ainda deveria estar unido no legítimo usufruto do poder recentemente delegado pelas urnas. Pois eis que entre outras esquisitices protagonizadas pelos vencedores de 2018 está a movimentação explícita de gente até outro dia aliada a Jair Bolsonaro na direção oposta.

Há os que o fazem de modo implícito (e são até os que não eram tão aliados assim) e os que atuam de maneira explícita. No primeiro caso está Rodrigo Maia, que não perde a chance de pontuar a necessidade de a direita firmar uma agenda para o país e não faz isso voltado para a eleição estadual do Rio de Janeiro, cuja situação penosa não se mostra atrativa para candidatos a governador.

No segundo caso está o governador de São Paulo, João Doria, que na campanha foi incansável ao correr atrás de Bolsonaro e hoje circula por salões dando a entender que já abandonou aquela canoa e se prepara para comandar a própria embarcação.

O presidente pode até ficar aborrecido com a sensação de que foi usado por políticos apenas interessados na derrota do PT. Só não pode reclamar de ser tratado com leviandade política e falta de consideração pessoal porque o desrespeito, a sem-cerimônia no descarte e a inapropriada descontração têm sido as marcas de sua atuação. É a madeira que bate em Chico e por isonomia atinge Francisco.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2019, edição nº 2640

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