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Para pior nos atender

Reforma não segue critério das obras de melhoria para o público

O governo anuncia uma reforma de ministério para dezembro, iniciada com a troca de guarda nas pastas das Cidades, dos Direitos Humanos e da Secretaria de Governo (articulação política), ocupadas por tucanos insatisfeitos e/ou insatisfatórios. Michel Temer acrescenta ao plano a ideia de aproveitar o ensejo para antecipar a saída daqueles que serão candidatos, anteriormente prevista para abril de 2018, e que já reclamam da pressa manifestando disposição de ficar onde estão até o prazo final permitido por lei.

Não existe perspectiva de reformulação de fato, por várias razões. Há o problema de alguns que não têm mandato com a perda do foro especial de Justiça, há a incerteza dos que podem até lá estar inelegíveis por prisão ou condenação e há a resistência de todos eles a abrir mão de gordas verbas do Orçamento da União. Só no Ministério das Cidades a coisa chega à casa dos 15 bilhões de reais.
Acrescentem-se a esse valor astronômico as verbas destinadas às pastas da agricultura, saúde, educação, ciência e tecnologia, transportes, indústria e comércio, trabalho, esporte, meio ­ambiente, todas com cargos de primeiro escalão ocupados de acordo com o critério do loteamento partidário, supostamente garantidor da chamada governabilidade. O foco dos partícipes é o manejo do dinheiro e do poder disponível para os que disputam votos.

Nessa conversa de reforma que tomará o noticiário nos próximos dias, fala-se de tudo menos do principal: a razão original da existência de ministérios que deveriam, cada qual na sua área, trabalhar para melhorar a vida das pessoas. O desempenho propriamente dito não entra na discussão.

Quando há obras em lugares públicos, costumamos ver aquelas placas de escusas pelo transtorno, informando que “estamos em reforma para melhor atendê-­lo”. No caso da reforma do ministério, o critério de melhoria no atendimento não entra em pauta. Não há pedido de desculpas pelo transtorno nem o aviso de que a obra tem por objetivo o melhor para os partidos, desconsiderando-se o que pode ser pior para a sociedade.

Aos eleitores, na maioria gente do público pagante de altos impostos, ficam reservados os lugares mais baratos das arquibancadas, de onde mal conseguem enxergar com nitidez o que se passa em campo.

Tal nebulosidade imposta à visão clara dos fatos é uma (se não a principal) das razões pelas quais arrivistas, populistas e oportunistas de todo tipo conseguem acesso a cargos eletivos com facilidade desproporcional aos respectivos e parcos atributos para governar. Chegam lá por intermédio de questões alheias à qualidade, provada ou pressuposta, do trabalho.

Para saber como impedi-los, é primordial entender como funcionam: seres sinuosos, nunca explícitos, em geral extremamente simpáticos e gentis. De uma educação social aparentemente à prova de cenas mais grosseiras. Até que são revelados na intimidade de conversas como aquelas em que Michel Temer e Aécio Neves mostravam a Joesley Batista a face até então oculta do público.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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