Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Circuito de insultos

Educação e comedimento estão em baixa na escala de valor social

Por Dora Kramer - Atualizado em 1 nov 2019, 10h18 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Transformadas em instrumentos de chantagem e mera pressão, as comissões parlamentares de inquérito perderam a relevância de outrora. Isso, muito em virtude do papel ativo da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal na investigação de malfeitorias pú­blico-­privadas. Baixou-lhes o facho também a falta de moral dos congressistas para atirar a primeira pedra na direção de quem quer que seja.

Uma CPI recente, no entanto, ensaia retomar lugar de destaque no noticiário. Por razões tortas, diga-se. Mista, composta de senadores e deputados, a comissão parlamentar criada com o alegado intuito de destrinchar o universo das notícias falsas divulgadas para difamar e desmoralizar poderia prestar bom serviço ao tema se contribuísse para reduzir o elogio à ignorância vigente no Brasil. Segundo pesquisa do Instituto Ipsos, somos o país onde há o maior número (62%) de pessoas que acreditam nas tais fake news. Só aqui para uma turma de difamadores contar com assento no palácio de governo, o chamado gabinete do ódio.

Nada sugere, contudo, que haverá contribuição positiva para reduzir o tamanho e o alcance da chaga, ao contrário: a julgar pelo elenco de convocados e pelos pronunciamentos já antecipados por seus autores, essa CPMI promete ser uma grande lavanderia de roupa suja, bem ao gosto destes tempos em que a educação e o comedimento andam em baixa na escala de valores da sociedade.

O moderado virou vilão. É chamado de “isentão” em tom de ofensa pessoal

Dessa banda, o governo Bolsonaro é o general. Comandante em chefe de uma tropa que não inclui apenas seus seguidores, digamos, ideológicos. É integrada também por aqueles que o criticam considerando que fazê-lo em termos igualmente vulgares e grosseiros equivale a um belo exercício cívico, quando na verdade expressa apenas falta de educação e dá notícia da existência de preguiça mental. Mas é isso que faz sucesso. A continência verbal está fora de moda. Deu lugar à contundência tóxica, fator de mobilização daquele tipo de indignação temperada pela sensação de engajamento político-social.

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Tão numerosos são os adeptos dessa moda da estação que a moderação, antes um atributo positivo, agora é tratada como defeito. Quem professa crença na compostura é chamado de “isentão”, termo que passou a ter caráter pejorativo e de uso atualmente difundido entre aqueles que se dizem contrários a modos exacerbados. Apenas em tese porque na prática exibem comportamento que nada deixa a dever às tresloucadas incontinências do presidente e companhia.

Boa parte se diz moderna, de esquerda, progressista, em contraponto aos ditos retrógrados, de direita, conservadores. Ora, conservadorismo nem de longe se confunde com condutas primitivas. Ressalta o valor da polidez, cultiva o tradicional, não necessariamente o anacrônico, preza a formalidade e respeita os rituais.

Tudo isso é depreciado pelos considerados de esquerda e nada disso está presente no cardápio dos que se dizem representantes da direita, mas que na realidade atuam para desmoralizar de antemão uma corrente existente na sociedade e que está sub-representada nesta nossa democracia ainda imatura, distante do ideal de pluralidade e convivência entre contrários.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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