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Afugentar eleitores é uma forma esquisita de buscar a reeleição

Agarrado ao convertido fiel, Bolsonaro perde capital para disputar em 2022

Há governantes que optam por dividir as forças políticas em seu entorno para reinar. Há os que preferem aproveitar a passagem pelo poder para somar e há o método Jair Bolsonaro de subtrair apoios no intuito de mais livremente governar e, desse modo, almejar a conquista de um novo mandato. É difícil entender essa estratégia da subtração, mas, enfim, é a propagada por ele.

Eleito em 2018 com pouco mais de 55% dos votos válidos, o presidente hoje aparece nas pesquisas com menos de 30% de avaliação positiva em viés a ser visto como de queda, dada a paulatina redução dos que se alinham na categoria dos firmemente convertidos. Segundo o instituto Datafolha, eles residem na casa dos 12%.

No caso de a ideia ser mesmo a da reeleição, a lógica aconselha o presidente a alterar o rumo da caminhada, embora ele não pareça disposto a prestar homenagem ao bom-­senso. Jair Bolsonaro prefere seguir seus instintos referidos na vitória eleitoral alcançada, a despeito de critérios da normalidade e da evidência de que o cenário agora é outro.

Quase um ano depois dos idos de 2018, Bolsonaro não é mais o maluquete que, segundo as expectativas, se enquadraria nos ditames da Presidência. É o maluquete que tenta enquadrar a Presidência nos seus ditames. Trata-­se de um modo de pensar e de atuar alta­mente desagregador, que propicia movimento contrário àquele que lhe permitiu atrair eleitores.

Hoje o presidente os afugenta, e nada sugere que pretenda mudar suas maneiras para reagrupar a tropa e tentar ganhar a eleição de novo em 2022. Talvez seja a expressão da pretendida nova política, cuja eficácia, entretanto, foge à compreensão dos comuns, tal a quantidade de gente querendo manter distância de Jair Bolsonaro.

Afastam-se ostensivamente dele governadores, entre os quais os dos três maiores colégios eleitorais do país, os movimentos que inicialmente organizaram as manifestações contra a presença do PT no poder, parcela significativa do empresariado, a ala radical de defensores da Lava-Jato, os admiradores de Sergio Moro, os críticos à indicação do filho para embaixador nos EUA, os envergonhados com os maus modos do presidente, os constrangidos com a má figura que esse comportamento leva o Brasil a fazer na cena mundial, parte considerável de parlamentares, aí incluídos vários de seu partido.

É um contingente mais que expressivo de perdas. Nelas se incluem outras que dificultam a repetição das condições de 2018. Na próxima eleição, Bolsonaro não terá mais o PT como antagonista forte, não terá a vantagem de esperança no ainda não experimentado, nem contará com as circunstâncias do atentado de Juiz de Fora, que lhe deram ao mesmo tempo projeção no noticiário e proteção para não se expor nos debates.

Vai ver Bolsonaro é um tremendo estrategista e não percebemos o alcance da jogada. Aguardemos a evolução dos acontecimentos, mas, no momento, é impossível enxergar vantagem competitiva no quesito produção de votos nesse método de gradativa redução de ganhos.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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