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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Afugentar eleitores é uma forma esquisita de buscar a reeleição

Agarrado ao convertido fiel, Bolsonaro perde capital para disputar em 2022

Por Dora Kramer - Atualizado em 20 set 2019, 09h46 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Há governantes que optam por dividir as forças políticas em seu entorno para reinar. Há os que preferem aproveitar a passagem pelo poder para somar e há o método Jair Bolsonaro de subtrair apoios no intuito de mais livremente governar e, desse modo, almejar a conquista de um novo mandato. É difícil entender essa estratégia da subtração, mas, enfim, é a propagada por ele.

Eleito em 2018 com pouco mais de 55% dos votos válidos, o presidente hoje aparece nas pesquisas com menos de 30% de avaliação positiva em viés a ser visto como de queda, dada a paulatina redução dos que se alinham na categoria dos firmemente convertidos. Segundo o instituto Datafolha, eles residem na casa dos 12%.

No caso de a ideia ser mesmo a da reeleição, a lógica aconselha o presidente a alterar o rumo da caminhada, embora ele não pareça disposto a prestar homenagem ao bom-­senso. Jair Bolsonaro prefere seguir seus instintos referidos na vitória eleitoral alcançada, a despeito de critérios da normalidade e da evidência de que o cenário agora é outro.

Quase um ano depois dos idos de 2018, Bolsonaro não é mais o maluquete que, segundo as expectativas, se enquadraria nos ditames da Presidência. É o maluquete que tenta enquadrar a Presidência nos seus ditames. Trata-­se de um modo de pensar e de atuar alta­mente desagregador, que propicia movimento contrário àquele que lhe permitiu atrair eleitores.

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Hoje o presidente os afugenta, e nada sugere que pretenda mudar suas maneiras para reagrupar a tropa e tentar ganhar a eleição de novo em 2022. Talvez seja a expressão da pretendida nova política, cuja eficácia, entretanto, foge à compreensão dos comuns, tal a quantidade de gente querendo manter distância de Jair Bolsonaro.

Afastam-se ostensivamente dele governadores, entre os quais os dos três maiores colégios eleitorais do país, os movimentos que inicialmente organizaram as manifestações contra a presença do PT no poder, parcela significativa do empresariado, a ala radical de defensores da Lava-Jato, os admiradores de Sergio Moro, os críticos à indicação do filho para embaixador nos EUA, os envergonhados com os maus modos do presidente, os constrangidos com a má figura que esse comportamento leva o Brasil a fazer na cena mundial, parte considerável de parlamentares, aí incluídos vários de seu partido.

É um contingente mais que expressivo de perdas. Nelas se incluem outras que dificultam a repetição das condições de 2018. Na próxima eleição, Bolsonaro não terá mais o PT como antagonista forte, não terá a vantagem de esperança no ainda não experimentado, nem contará com as circunstâncias do atentado de Juiz de Fora, que lhe deram ao mesmo tempo projeção no noticiário e proteção para não se expor nos debates.

Vai ver Bolsonaro é um tremendo estrategista e não percebemos o alcance da jogada. Aguardemos a evolução dos acontecimentos, mas, no momento, é impossível enxergar vantagem competitiva no quesito produção de votos nesse método de gradativa redução de ganhos.

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Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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