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Diário da Vacina Por Laryssa Borges A repórter Laryssa Borges, de VEJA, relata sua participação em uma das mais importantes experiências científicas da atualidade: a busca da vacina contra o coronavírus. Laryssa é voluntária inscrita no programa de testagem do imunizante produzido pelo laboratório Janssen-Cilag, braço farmacêutico da Johnson & Johnson.

Você toparia pegar Covid de propósito para ajudar a ciência?

Ensaio clínico britânico quer que jovens se infectem com o vírus em ambiente controlado e ajudem a entender melhor a doença que mudou o mundo em 2020

Por Laryssa Borges 2 mar 2021, 12h20

2 de março, 11h10: Dentro de poucas semanas, 90 pessoas se trancarão em um hospital e serão acompanhadas dia e noite. Farão exames periodicamente, recolherão amostras de sangue e esperarão o tempo passar. Todos são adultos saudáveis entre 18 e 30 anos de idade selecionados para participar do primeiro estudo de desafio humano com coronavírus de que se tem notícia. Isso significa que eles concordaram em receber não duas doses de vacina, como é o desejo de dez entre dez habitantes sensatos deste planeta, e sim duas doses do novo coronavírus nas narinas. Os 90 homens e mulheres estão preparados para se infectar de propósito e usar seus corpos como laboratório para ajudar a ciência a entender melhor a doença que já matou mais de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

Poderia ser só mais um reality show de gosto duvidoso, mas o controverso experimento acaba de ser aprovado pelo comitê de ética de ensaios clínicos do Reino Unido. No ambiente controlado de um hospital, eles serão voluntários em uma pesquisa para descobrir questões como quanto de carga viral é necessário para se contaminar, se a doença é mais grave ou mais amena a depender de onde se aloja o vírus no aparelho respiratório, a quantidade de vírus que pode ser espalhada por uma pessoas jovem e que tratamentos seriam possíveis para combater a Covid-19. A expectativa é que as informações colhidas também permitam que laboratórios aperfeiçoem as vacinas anti-Covid.

Os pacientes passarão por testes de triagem e serão colocados em quarentena no hospital Royal Free, em Londres. Dois dias depois receberão gotas com o novo coronavírus no nariz (as novas variantes estão descartadas, por enquanto) e se submeterão a monitoramento 24 horas por dia durante pelo menos 14 dias. No programa da pesquisa há testes para que detectem cheiros, já que a perda de olfato é um dos sintomas mais comuns entre pessoas infectadas com a Covid, e exames cognitivos. Depois de receberem alta, ainda serão acompanhados por um ano para que sejam monitorados sintomas de longa duração, ou o que médicos americanos têm chamado de PASC.

A faixa etária dos voluntários foi pensada para minimizar o risco de o paciente, ao tentar ajudar a ciência, apresentar complicações e migrar para um caso grave de infecção. Ainda assim, existem riscos ao se decidir por ser recrutado para um estudo clínico desta natureza. O projeto é uma parceria do governo britânico, do Imperial College, de Londres, da Fundação Royal Free, ligada ao sistema público de saúde, o NHS, e da empresa clínica hVIVO.

As inscrições continuam abertas. Voluntários?

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