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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Vacinação contra Covid-19: uma corrida que todos precisam ganhar

É a vacina que abrirá caminho para a normalização das vidas de todos nós

Por Cláudio Lottenberg 22 nov 2021, 19h14

A população brasileira entendeu que ainda não há medida mais efetiva contra a Covid-19 que a vacina. Prova disso é que pouco mais de 60% dos brasileiros – ou seja, mais de 128 milhões de pessoas – já estão completamente imunizadas contra a doença. Acompanhada da rotina a que já estão adaptados – uso de máscara, distanciamento social e higienização frequente das mãos –, é a vacina que abrirá caminho para a normalização das vidas de todos nós. E foi isso também que levou o país a superar os Estados Unidos nessa frente.

O Brasil entrou na campanha de vacinação contra a Covid-19 no dia 17 de janeiro deste ano. Em 11 meses, o país saiu do zero e chegou ao estágio atual. O início do processo foi turbulento, com problemas ligados à distribuição e disponibilidade de insumos para produzir os imunizantes. Os Estados Unidos, por sua vez, começaram cerca de um mês antes (14 de dezembro de 2020) a vacinar. Chegaram a pouco mais de 59% da população vacinada – cerca de 195 milhões de pessoas.

Por lá, o avanço foi intenso nos primeiros movimentos: em março, o país já havia vacinado 100 milhões – o que representa cerca de 40% de sua população adulta. O Brasil, tendo iniciado em janeiro, só alcançou 100 milhões de pessoas totalmente imunizadas em outubro. Há, por óbvio, diversos fatores que influenciam os desempenhos daqui e de lá, a começar pelos recursos para compra de vacinas e da capacidade instalada da indústria farmacêutica norte-americana – mais bem abastecida de insumos que a nossa para a produção de imunizantes.

Um motivo para que o processo tivesse caminhado de forma acelerada por lá foram os números de óbitos: os EUA ainda lideram essa trágica contagem, com mais de 770 mil (dados da Universidade Johns Hopkins e do governo federal). E a perspectiva é pouco animadora: Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e principal especialista em doenças infecciosas do país, já disse que há pouco tempo para tentar evitar a chegada de um “perigoso” novo surto de infecções, com as festas de fim de ano e as inevitáveis aglomerações que elas ocasionam.

Os Estados Unidos ainda enfrentam um obstáculo cultural, isto é, os movimentos antivacina comuns em certas partes do país. Algumas empresas já adotaram políticas que podem resultar na demissão de funcionários. Mas uma pesquisa, de junho, da Kaiser Family Foundation (KFF), uma organização sem fins lucrativos voltada a temas de saúde, verificou que metade dos trabalhadores norte-americanos prefeririam sair do emprego a serem obrigados a tomar vacina. Vencer essa resistência é um dos fatores a ser superado para que o cenário da Covid-19 nos EUA venha a mostrar perspectivas mais positivas.

A Europa também vive uma “quarta onda” de infecções – que vem acompanhada de protestos devido às medidas restritivas que voltam a ser erguidas em diversos países. Holanda e Bélgica tiveram episódios de violência; a Áustria instituiu novo lockdown (por dez dias, para toda a população) que começa hoje e prepara uma lei para tornar obrigatório tomar a vacina a partir de fevereiro de 2022; e a Alemanha, apesar de ter imunizado 67% de sua população, viu um forte aumento do número de casos e de óbitos. No continente como um todo, as estatísticas mostram 230 novos casos por 100 mil habitantes (a maior taxa semanal de infecções per capita no mundo), de acordo com levantamento recente da Organização Mundial de Saúde (OMS), que considerou até o último dia 14.

Embora os números de casos novos, de óbitos ou de internações tenham desacelerado, o Brasil é o segundo país com mais mortes no mundo por Covid-19, com 612 mil vidas perdidas. O fim de ano e as festas ainda estão pela frente, vale lembrar. Para que a boa tendência que os dados atuais indicam continue, não se pode mudar a estratégia que até aqui se mostrou eficiente: máscara, álcool em gel e o distanciamento possível. E, mais recentemente, a vacinação de reforço, que também já segue em curso por aqui.

Não se pode deixar de lado o fato de que em vários países da África ainda não se aplicou uma única vacina que seja, enquanto alguns países desenvolvidos já partiram para a terceira dose. Isso não só é uma injustiça monumental, mas um erro, sob a ótica sanitária: enquanto houver circulação descontrolada do vírus, seja em que área for, haverá o risco de alastramento, do surgimento de variantes e estaremos sempre inseguros.

Não se trata aqui de uma competição, claro. Se for para usar alguma metáfora esportiva, diria que essa é uma corrida que todos os países precisam ganhar. O novo coronavírus não distingue fronteiras nem qualquer outra divisão. Com o tempo, espera-se que as resistências diminuam em toda parte e que a vacina chegue ao maior número possível de pessoas, no Brasil e além. Só assim alguma normalidade voltará a se estabelecer.

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