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Pedro da Luz Moreira: “Mais do que metodologia, as obras do país precisam de projeto e planejamento”

Arquiteto questiona a obrigatoriedade do BIM e a falta de controle custos e prazos

Por Mariana Barros Atualizado em 31 jul 2020, 00h04 - Publicado em 19 nov 2015, 10h48
Esboço desenvolvido a partir do uso de BIM (Imagem: Tekla/Divulgação)

Esboço desenvolvido a partir do uso de BIM (Imagem: Tekla/Divulgação)

O buraco, como sempre, é mais embaixo. Enquanto os deputados discutem se é o caso de o Brasil adotar uma metodologia de trabalho para as obras públicas, nossos maiores problemas nesse setor seguirão sem solução. Os constantes estouros no prazo e no orçamento das obras públicas pouco têm a ver com o tipo de tecnologia usada para especificar informações de materiais e fabricantes. Sem a compreensão da importância de fazer e levar a sério os projetos, o país continuará vivendo uma sucessão de surpresas ruins, como estádios esportivos que dobram de preço como num passe de mágica.

A convite do blog Cidades sem Fronteiras, Pedro da Luz Moreira escreveu o artigo a seguir sobre o BIM e suas limitações:

 

Projeto e permeabilidade social das tecnologias

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Uma audiência pública realizada ontem na Câmara dos Deputados, em Brasília, discutiu a obrigatoriedade da adoção da metodologia de trabalho baseado em Building Information Modelling (BIM), ou Modelador das Informações da Construção, em uma tradução livre. O método passaria a ser aplicado em todas as obras públicas por parte das firmas que prestam serviço de projeto. Por meio do BIM, os profissionais passam a desenvolver seus projetos em 3D e podem incluir uma enorme quantidade de informações, como o tipo de material utilizado, fabricante, custo e vida útil.

O debate ocorre no âmbito da revisão da lei federal 8666/93, que regula a compra de materiais, a contratação de serviços de projetos e a realização de obras por parte do poder público. No contexto atual da sociedade brasileira, o debate sobre essa regulação, o acompanhamento e o monitoramento das obras brasileiras são fundamentais para a definição do país que queremos ser. Após os descalabros das obras da Copa do Mundo, dos escândalos do Petrolão, dos recorrentes descontroles de prazo e de preços das obras brasileiras, repensar e reavaliar as formas de contratação do plano e do projeto é fundamental para buscar a correta adequação dessas mesmas obras públicas ao interesse público e geral, impedindo que sejam privatizadas por interesses particulares e restritos. Mas será que o problema que temos pela frente pode ser resolvido apenas pela adoção de uma metodologia?

O Modelador das Informações da Construção (BIM) é uma promessa para o desenvolvimento dos projetos, da coordenação das disciplinas que compõem a matéria e da simulação dos impactos de uma edificação para um contexto específico. Pode, enfim, medir a adequação de uma transformação. É uma tecnologia que, como qualquer outra, só poderá ser avaliada na medida em que contar com ampla aceitação social e for adotada por sistemas públicos (EMOP, SCO, SISCOB), calculistas, instaladores e projetistas. Por isso, a sugestão aqui é apenas de estímulo e de incentivo da adoção dessa metodologia, jamais a sua obrigatoriedade. Há outro aspecto prioritário para que o país tenha mais controle sobre prazos e preços das obras: a adoção de uma cultura que privilegie o planejamento e o projeto, itens considerados pouco relevantes pela sociedade brasileira.

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A etimologia da palavra projeto, com seu prefixo pro, aponta antecedência e previsão. O sufixo tem sua origem em jactar, que significa lançar, se antecipar, se arriscar numa proposição, modificação ou transformação. A palavra projeto aponta que, antes de fazer, é importante prever, afastar o imprevisto e o improviso, enfim, pensar antes de executar. Isso envolve o estudo profundo, articulado e sensível, com as possibilidades de transformação e a adequação da obra a um contexto existente. Enfim, é a adoção da obrigação da existência de projeto completo e executivo antes da contratação de qualquer obra.

Um pouco antes da Copa do Mundo de 2014, a imprensa noticiou que a obra do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, com previsão inicial de 600 milhões de reais, atingiu o custo de 1,2 bilhão de reais. A maioria dos especialistas aponta que a principal causa dessa imprevisível cifra foi a inexistência de projetos detalhados e de debates sobre as hipóteses de desenho que toda ação dessa natureza envolve, como acessos e retiradas, fluxos de torcedores, curva de visibilidade do espetáculo, posicionamentos de equipamentos e comodidades.

Por tudo isso, a falta de protagonismo do plano e do projeto na sociedade brasileira me parece um fato, e reverter essa cultura é fundamental para que tenhamos mais consciência daquilo que queremos construir e realizar. Essa reversão é, na verdade, muito mais simples que a obrigatoriedade da adoção de uma metodologia, que ainda levará um certo tempo para ser amplamente utilizada por uma diversidade de agentes e atores que se dedicam ao controle de custos e de prazos de uma obra, o projeto.

* Pedro da Luz é arquiteto e doutor em Urbanismo (UFRJ/FAU-Prourb). Sócio-gerente da Archi5 Arquitetos Associados Ltda, desenvolveu projetos para o Rio Cidade e o Favela-Bairro, e para o Jardim Botânico e o Parque do Vale dos Contos, em Ouro Preto. Foi professor adjunto da PUC-Rio e coordenador-geral do programa Morar Carioca. Atualmente, é professor adjunto (UFF/EAU), diretor do IAB e presidente do IAB-RJ.

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