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Cidades sem Fronteiras Por Mariana Barros A cada mês, cinco milhões de pessoas trocam o campo pelo asfalto. Ao final do século seremos a única espécie totalmente urbana do planeta. Conheça aqui os desafios dessa histórica transformação.

Parque suspenso de Nova York é concluído, mas prossegue a discussão sobre os efeitos que grandes atrações exercem nas cidades

Há algumas semanas, foi inaugurado, em Nova York, o terceiro e último trecho do High Line Park, um dos principais pontos turísticos da cidade e também uma das áreas mais populares entre os nova-iorquinos. Desde a inauguração do primeiro trecho, em 2009, construído no espaço de uma linha de trem desativada, o parque permitiu a […]

Por Mariana Barros Atualizado em 31 jul 2020, 02h54 - Publicado em 9 out 2014, 14h28
Vista para o rio Hudson no terceiro e último trecho, recém inaugurado, do High Line Park, em Nova York

Vista para o rio Hudson no terceiro e último trecho, recém inaugurado, do High Line Park, em Nova York

Há algumas semanas, foi inaugurado, em Nova York, o terceiro e último trecho do High Line Park, um dos principais pontos turísticos da cidade e também uma das áreas mais populares entre os nova-iorquinos. Desde a inauguração do primeiro trecho, em 2009, construído no espaço de uma linha de trem desativada, o parque permitiu a seus visitantes estarem na metrópole sob uma nova perspectiva. E isso não apenas porque antiga linha era suspensa e, assim, originou um passeio elevado com cerca de 30 metros de altura, mas também porque uma nova forma de convivência foi criada. O High Line oferece um extenso calendário de eventos que inclui shows, performances, instalações artísticas, degustação gastronômica e atividades infantis. A paisagem é outro ponto instigante, pois cada pedaço tem uma vegetação distinta e trilhas diferentes. Intercalam-se hortas, bancos de madeira de demolição, mesas de piquenique, arquibancadas de concreto e antigos trilhos aparentes. Inicialmente concebido para receber 200.000 pessoas por ano, o High Line contabiliza 5 milhões de visitantes ao ano.

Com a ampliação ocorrida em 2011, após a inauguração do segundo trecho, o parque ganhou a vantagem adicional de se transformar numa via expressa de pedestres, que encontraram um meio prazeroso de cortar caminho e evitar a espera de semáforos. Agora, a abertura deste terceiro e último trecho, o mais ao norte dos três, vem trazendo mais mudanças.

Assim como o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, o parque americano partiu do design e da arquitetura para transformar uma parte importante da cidade. Projetado pelo renomado arquiteto canadense Frank Gehry e construído entre 1992 e 1997, o museu de Bilbao aproveitou uma área degradada para criar um espaço cheio de vida e com grande potencial econômico, sintetizando um processo de recuperação de terrenos ocupados pelo porto local e galpões de indústrias. Nos anos seguintes, a cidade tornou-se uma das mais pujantes e caras da Espanha.

O museu Guggenheim de Bilbao, projeto por Frank Gehry

O museu Guggenheim de Bilbao, projeto de Frank Gehry

O que se vê em Nova York é um processo semelhante. Depois que tanto o parque quanto o museu ficaram prontos, iniciou-se a uma valorização sem precedentes no entorno dessas novas atrações. O mais curioso do caso americano é que a criação do High Line foi amplamente democrática e voltada ao cidadão comum. A história é contada por Joshua David e Robert Hammond, fundadores do movimento que culminou na criação do parque, no livro High Line – a História do Parque Suspenso de Nova York (editora BEI).

Em vez de conceber um projeto e apresentá-lo à comunidade, a dupla optou pelo caminho inverso. Contrataram um profissional para fotografar o espaço dos antigos trilhos da maneira como estava, cheio de mato nascido ao acaso. A paisagem era linda e imediatamente ganhou uma legião de fãs. A partir daí, as pessoas começaram a engajar-se no projeto e a propor as mais variadas ideias para implantar ali. Foi criado um concurso aberto de propostas para o primeiro trecho, que tinha 1,6 quilômetro. Entre as mais curiosas, apareceram as de criar uma piscina de 1,6 km ou uma montanha russa que percorresse toda a extensão. Boa parte dessas ideias integrou uma grande exposição na Grand Central Station, que serviu para apresentar a discussão à cidade. A repercussão foi enorme. Com todo esse material em mãos, David e Hammond consultaram escritórios de arquitetura interessados em fazer o projeto final. O escolhido foi o James Corner Field Operations, por ter enxergado que o parque deveria tanto oferecer lazer como servir de via de passagem.

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Em seguida, eles criaram a ONG Friends of High Line, a responsável pela administração e arrecadação de fundos para a construção e manutenção do parque. Sabiam que os imóveis ao longo do parque valorizariam tanto que os impostos recolhidos desses proprietários seriam suficientes para que o investimento se pagasse. A dupla pesquisou experiências de outros parques ao redor do mundo e constatou que a valorização do entorno havia ficado entre 6% e 13%. Calcularam um custo inicial de 100 mil dólares e posterior arrecadação de 262 mil dólares em impostos. Na prática, tanto o custo quanto a arrecadação ultrapassaram a estimativa: ficaram em, respectivamente, 150.000 dólares e 900.000 dólares.

Vista do parque elevado que se tornou sensação entre os nova-iorquinos

Vista do parque elevado que se tornou sensação entre os nova-iorquinos

Hoje, a maior parte desse dinheiro vem de fundos privados, interessados na valorização de determinadas áreas da cidade. A engenharia financeira é muito bem feita , mas traz um complicador. Se por um lado permitiu a criação de um espaço maravilhoso usado por todos, por outro deu início a um processo de gentrificação, termo técnico dado ao fenômeno de expulsão dos mais pobres, já que apenas os mais ricos têm condição de adquirir um imóvel nas redondezas. Isso vale especialmente para a parte próxima ao rio Hudson, de onde se tem uma vista deslumbrante e apenas os multibilionários têm vez. A tendência tem sido chamada por críticos de “efeito Guggenhein”, a exemplo do que ocorreu em Bilbao. Antes de qualquer juízo de valor, porém, deve-se olhar a questão com atenção.

Lance Freeman, professor de planejamento urbano na Universidade Columbia (NY), ganhou notoriedade em 2005 ao analisar as estatísticas americanas sobre habitação para verificar se os moradores de baixa renda mudavam de bairro conforme estes começavam a se valorizar. Sua conclusão foi de que a coisa não acontece bem assim. Embora o aluguel suba, muitos preferem aumentar suas despesas com moradia e aproveitar os benefícios dessa vizinhança mais bem cuidada e estruturada. E, quando decidem partir, é normalmente porque querem ter na mão a quantia equivalente ao valor da casa onde moravam.

Mais recentemente, Freeman e outros especialistas, como o economista e professor de Harvard Edward Glaeser, estudioso das grandes cidades, passaram a defender que a gentrificação é capaz de trazer vantagens a todos. Vejamos as principais: 1) é possível estipular uma taxa a ser paga pelos investidores a ser revertida em bons projetos de moradia popular; 2) pode-se ainda aumentar a a arrecadação voltada a serviços públicos dos mais variados; 3) áreas valorizadas, com comércios e pontos turísticos, tornam-se mais movimentadas e, portanto, mais seguras; 4) edifícios mais modernos podem trazer menor impacto ambiental no longo prazo, com o uso de energia alternativa e maior ventilação natural.

Conforme experiências urbanas como estas se sucedem, vai ficando evidente que não é possível nem interessante tentar impedir uma cidade de se transformar. O desafio é como colocar essas transformações a serviços de todos.

Por Mariana Barros

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