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Cidades sem Fronteiras Por Mariana Barros A cada mês, cinco milhões de pessoas trocam o campo pelo asfalto. Ao final do século seremos a única espécie totalmente urbana do planeta. Conheça aqui os desafios dessa histórica transformação.

Carnaval de rua atesta que o paulistano redescobriu o prazer de estar no espaço público

As pessoas querem ir para a rua e ali permanecer. Quem nunca para ousou parar por nada, e o cinza ousou se colorir

Por Mariana Barros - Atualizado em 30 jul 2020, 23h37 - Publicado em 1 fev 2016, 05h45
Bloco Pilantragi, em Perdizes, na Zona Oeste (foto VejaSP)

Bloco Pilantragi, em Perdizes, na Zona Oeste (foto VejaSP)

O final de semana de pré-Carnaval levou para as ruas de São Paulo mais de 400 mil foliões. O tamanho da festa, que só está no esquenta, gerou preocupações nas mesmas proporções.

Para falar dos desafios da convivência desta época de Carnaval, o secretário municipal de Cultura Nabil Bonduki conversa hoje às 19h com o público no mezanino da Livraria Cultura de Arte, no Conjunto Nacional (Avenida Paulista 2073). Quem gosta e quem detesta o Carnaval, quem concorda e quem discorda das regras para a folia de rua está mais do que convidado. Raphael Guedes, do bloco Casa Comigo, e Roberto Suplicy, do Gueri-Gueri, também estarão lá para compartilhar suas experiências. A entrada é gratuita e há mais informações aqui.

Quando ainda se discutia a melhor fórmula para o Carnaval paulistano, houve quem sugerisse que os blocos deixassem as ruas e migrassem para um espaço de eventos de grande porte, como o autódromo de Interlagos ou o Anhembi durante o pré-Carnaval.

A esses, é preciso lembrar que o que fez deslanchar o Carnaval em São Paulo foi que as pessoas redescobriram o prazer de estar em um espaço público. Por que isso aconteceu é difícil de explicar, envolve vários fatores e foi certamente embalado pelas manifestações de julho de 2013. Fato é que as pessoas querem ir para as ruas e ali permanecer. Em vez de cenários artificiais, preferem explorar a paisagem real, com sua beleza, feiúra, encantos, barulhos, odores e fedores. Nada de ficar olhando a cidade pela janela do ônibus, pelo vidro do carro, pelos flashes do metrô. As pessoas querem colocar os pés no chão, caminhar, ver de outra forma os lugares de sempre, ou ver pela primeira vez lugares que estão fora da nossa rotina. Desfrutar do privilégio de ter tempo de parar e estar. Contemplar aquilo que é delas e, ao mesmo tempo, não pertence a ninguém.

Outro ponto que inviabiliza a ideia de extirpar os blocos das ruas é que eles vêm amadurecendo suas identidades. Pasteurizá-los todos sob um mantra carnavalesco qualquer é tirar o que têm de mais saboroso. Os blocos são diferentes entre si, atraem pessoas distintas para locais distintos, interpretam canções variadas. E mantém orbitando ao seu redor pessoas afins, permitindo que amigos se reencontrem por acaso e novas amizades possam surgir. Uma saudável oportunidade de encontro numa cidade tão grande e recortada de regiões.

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Mas seria muito romantismo parar por aqui.

Quem mora no bairro da Vila Madalena, ímã de foliões de todas as regiões da cidade, sofre com o barulho madrugada adentro, sujeira na porta de casa (lixo, garrafas, xixi), pessoas usando drogas e fazendo sexo na calçada. Blocos numerosos que se espremeram pelas ruelas no ano passado foram conduzidos para vias mais largas. Avenidas como Pedro Álvares Cabral, Faria Lima, Tiradentes e Consolação viraram ponto de folia.

No ano passado, a PM entrou em cena e em algumas ocasiões jogou bombas para dispersar os carnavalescos. Para evitar que as cenas se repetissem, o bairro vive uma série de restrições. Ruas foram fechadas e o acesso tornou-se exclusivo aos moradores. O horário de fazer barulho se encerra às 16h ou, em algumas ruas, às 20h. Ainda assim, às 2h do domingo, a PM jogou bombas para dispersar um grupo de jovens que permanecia próximo à Rua Inácio Pereira da Rocha, seguindo o mesmo script do ano passado. Os policiais afirmaram que o grupo ameaçava depredar veículos estacionados.

Os paulistanos ainda não encontraram a fórmula ideal para seu Carnaval, mas têm o grande mérito de tentar conviver em paz e se fazerem presentes nas ruas da cidade. Numa cidade sem praias e de poucas praças, o espaço público é de asfalto e concreto, mas nem por isso menos público. Aqueles que nunca param ousaram parar por nada. E o cinza ousou se colorir.

 

Por Mariana Barros

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