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Valentina de Botas: Picar cebola, refinar-se.

A extrema esquerda enlouqueceu com a loucura da extrema direita e ambas se esfregam no escurinho da intolerância que só tem um lado: o da intolerância

Minhas raras noites insones são despertadas por ver nelas os olhos da menina que fui. Eles lembram à mulher madura que me tornei a simplicidade da inquietude que impregna o mundo do encanto possível. Enquanto houver inquietude, há esperança. Não sei, mas tenho a sensação de que a tradução madura da inquietude salta de “por que…?” – pergunta mais ligada à infantilidade mental ou espiritual – para “o que…?”, que parece investigar menos causas e razões tão sujeitas a circunstâncias (por definição, impermanentes) para tentar uma aproximação com a essência das coisas e das pessoas, tocar nela e por ela sermos tocados. Como fazer isso? Não sei. Mas aqueles olhos me fazem continuar tateando esse não saber que, não raro, é a nossa melhor parte.

Posso dar exemplos de usos para a tal pergunta madura “o que…?”: o que está pensando o sujeito que me xinga e me ameaça na redessociolândia? Meus textos alcançam, se muito, uma ou duas centenas de pessoas. O que é um mundaréu de gente para quem jamais pretendeu falar a multidões e acha ridícula a carreira de subcelebridade da internet. Eles só trazem a opinião de uma mulher anônima, confortável com a própria desimportância e com a liberdade frugal, conquanto essencial e inalienável, de expressar o que pensa. Quando pensa. Sim, pois tem hora que só quero não pensar; e outra em que penso e me calo. Então, o sujeito sai da casinha para chamar de “vaca” uma mulher desconhecida e cuja opinião não tem a pretensão nem o poder de mudar a opinião, o dia ou a vida dele. O sujeito vem torcer para que eu “morra devagar” depois de ver minha filha “morrer devagar”. É da fricção de ideias que resulta a fagulha que ilumina o território além delas. Mas essas reações são só patologia e, como não estou à disposição de patologias alheias – as minhas já me dão muito trabalho –, higienizo o recinto sem responder e bloqueio a figura.

O mesmo se aplica a certos “seguidores” que fruem gozo patológico semelhante aos que discordam da opinião publicada: o que está pensando a criatura que ilustra com uma fotomontagem de Lula num caixão um comentário a um texto em que explico por que o considero o pior fenômeno da história da nossa política? O que está pensando outro seguidor que despeja palavrões em torno da foto de Rodrigo Janot decorada com rabo e chifre num post em que digo como a atuação do arqueiro-parcial da república prejudicou a Lava Jato, sabotou o país e ignorou as leis a pretexto de a cumprir tentando depor Temer ilegalmente? Apago tudo porque não quero para os outros o que não quero para mim, porque lixo não é argumento, porque é feio, estéril, bruto.

Sobretudo porque busco me refinar como gente quando estou na minha cozinha picando a cebola que refogarei para temperar o feijão, ou sentada na minha varanda minúscula fazendo à mão a barra da calça do uniforme escolar da minha filha, ou ajudando minha querida mãe a organizar os trocentos álbuns de fotografias dela e ouvir de corpo inteiro, pela trocentésima vez, as histórias sobre a multidão de parentes, a maioria já morta; tanto como quando me empenho no meu trabalho de revisão de texto ou de tradução que me exigem um repertório mental e lexical remunerado a 1/3 do que vale; ou ainda quando recuo mesmo hesitante diante de vulnerabilidades alheias cuja exploração me traria vantagem. É que assim também se forja um caráter que, anseio, seja refinado.

Não estou dizendo que o alvo dessas patologias deveria ser apenas gente famosa ou relevante. Mas é ser muito mega-super-hiper zé-mané atacar uma zé-mané. Tá bom, admito minha esperança leviana: acho que ninguém deveria ser alvo dessas patologias. O que estou pensando com essa leviandade? Que a desmedida expulsou o refinamento de pensamentos e ações, impondo a histeria às reações tanto frente a meras opiniões como a ações que exigem uma resposta firme, sim, mas tão somente na medida da ação.

Querem ver? Kevin Spacey é um canalha, certo? Certo. Lamento que um grande ator, cujo talento provavelmente ainda se expandiria, termine a carreira de modo tão miserável. Culpa dele, claro. Mas Ridley Scott (que adoro) precisava mesmo apagar o ator de um filme já pronto? Christopher Plummer (por quem sou apaixonada e está magnífico no sensacional “Memórias Secretas”) será enxertado artificialmente numa presença que deformará o filme. Afinal, os atores que contracenaram com Spacey reagiram a um gestual, um olhar, uma dicção, uma presença, em resumo, que não era a de Plummer. Ademais, essa decisão atrelou o filme a Spacey para sempre. Entre os brasileiros, a maioria dos comentários que ouvi a respeito concorda com a atitude de Scott e me divertiu até quase me enternecer a hipocrisia de muitas alminhas simples que, cultivadas no mundinho plano delas cujo eixo é o simplinho bem X mal, ficassem chocadas com o fato de Kevin Spacey ser gay e, mesmo assim (?!), ter cometido assédio. Resistem em admitir que abuso/assédio não é uma questão de sexo/gênero, mas de poder.

Há pessoas determinadas não apenas a não assistir ao filme “O Jardim das Aflições” (com/sobre Olavo de Carvalho) e outras tantas decididas a não apenas não ver a palestra da filósofa Judith Butler sobre ideologia de gênero, mas todas estão empenhadas em também impedir que umas assistam ao filme e que outras vejam a palestra. A extrema esquerda (muito mal-acostumada com a até outro dia tímida resistência à agenda cultura e intelectual imposta por mais de uma década) enlouqueceu com a loucura da extrema direita e ambas se esfregam no escurinho da intolerância que só tem um lado: o da intolerância. Ninguém é obrigado a assistir ou deixar de assistir a um filme, palestra etc. Mas todos somos obrigados a sair do caminho alheio. Você é contra? Proteste, é um direito teu, direito este que não anula o direito de quem quiser ver a coisa.

Enquanto essas reações exageradas se naturalizam, a falta de ação perante o terrorismo do MST mascarado na Bahia e perante o terrorismo de cara limpa embalado por show de MPB em São Bernardo do Campo, onde a milícia de Guilherme Boulos invadiu uma propriedade, dá a medida das desmedidas no país. O Estadão noticiou, nesta segunda-feira, que o governo Temer (este que tem 4% de popularidade nos quais me incluo, reafirmo) regularizou mais terras do que Lula e Dilma, mas a notícia da legalização de propriedade não animará Caetano Veloso como uma invasão de propriedade.

Para terminar, uma palavra ainda sobre o caso William Waack. Não estamos mais a sós: o BBB fugiu do zoológico do Projac, vestiu armadura fundamentalista e está nas câmaras dos celulares e nos teclados da patrulha politicamente correta movida a ressentimento canalha e burrice turbinada pela tecnologia: o alegado objetivo de discutir o racismo por aqueles que divulgaram a conversa privada pôde esperar um ano até que eles fossem demitidos. Depois de quase uma semana, tudo o que conseguiram foi empobrecer ainda mais o debate público com a ausência de Waack e manter o racismo tão denso quanto antes.

Quem condenou o jornalista, que racista não é, afirma que a piada indigna, justamente porque dita em privado, “desmascarou o racista-de-direita” porque é na vida privada que as pessoas se mostram como são. Mesmo? Ora, uma só frase não basta definir alguém na privacidade, é necessário conhecer mais falas de Waack na chuva, na rua, na fazenda e na casa dele. Os caçadores de consciência nem imaginam que agora mesmo, entre quatro paredes, o caráter refinado de um homem, cuja longa atuação pública e o relato de quem o conhece na intimidade o inocentam da acusação fraudulenta, está fazendo piada da mediocridade da patrulha ressentida desmascarada, ela sim, ao se mostrar na sua suja inteireza e revelar seus cúmplices. 

Comentários
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  1. Carla L.S- Lieberman

    William Waack é uma vítima da estupidez. Eventualmente, também de alguma chantagem. Que tudo tenha se originado de um vídeo inútil guardado apenas para inventário da emissora, apenas adiciona uma crueldade a mais numa história já suficientemente sórdida. Um cara decente perdeu seu trabalho – aliás, brilhante – porque militantezinhos sem importância decidiram ir à forra contra “a direita”. É o mundo. Os que detonaram tudo, e nos privaram da inteligência, da dignidade e da competência de Waack, são dois tipinhos absolutamente banais, sem graça, sem nada além de sua cor pra defender (e defender da maneira mais cretina que se pode imaginar). Mas, sim, meus caros: é esse o legado “global” com que ficaremos agora. Um dia, um deles ainda aparece apresentando o Jornal da Globo. Depois de O Planeta dos Macacos, está na hora de alguém filmar O Planeta dos Estúpidos. Já sabemos como tudo começou…

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  2. Cleide Bragliollo

    Ler esse texto me da o alívio de ver que ainda há vida pensante sobre o solo brasileiro. São poucos mas existem. Obrigada Valentina.

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  3. Após ler (e reler, reler, reler…) mais este texto encantador na simplicidade, belo na inteligência e magnífico na humildade restou só uma ponta de sórdida inveja de Christopher Plummer – e óbvio, não foi pelo “enxerto artificial” no tal filme -, mas que foi escorraçada pela felicidade de compartilhar suas reflexões: este também é um privilégio inigualável. Nas minhas frequentes noites insones conferir se há notícias suas tem o melhor sabor da expectativa infantil nas noites de Natal, sem decepções: o presente sempre supera as expectativas. Obrigado. Beijo.

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  4. luiz antonio Fidelis

    SALVE VALENTINA!

    Parece que o Janot enfim, conseguiu derrubar o presidente Frank Underwood.
    Willian Waak paga o preço da sua independência estar a serviço de uma emissora engajada, com o atraso.
    Eu também sou racista! Só gosto de banda que contem “black”, no nome, BLACK SABbATH, BLACK OAK ARKANSAS, BLACK EYED PEAS……acho que as milicias lideradas pelo velho baiano vão pedir minha cabeça.

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  5. VARLICE RAMOS

    Ler seus textos lava a minha alma, Valentina. Parece que você lê meus pensamentos.
    Grande abraço.

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  6. JOSE ROBERTO GUZZO

    Alô VALENTINA

    Muito bom ! Muito bem feito ! Nota 10 !

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  7. JOSE ROBERTO GUZZO

    Cara Valentina,

    Nota 10 ! Excelente.

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  8. Valentina De Botas

    Muito obrigada a todos pela leitura. Carla, gostei muito do teu comentário. Paulo, outro beijo. Luiz Antonio, salve! Varlice, grande abraço. Cleide, quem agradece sou eu. Guzzo, um beijo muito especial.

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