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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Um dia, um gato

Alguém disse ironicamente que a Rússia trata muito bem os escritores, depois de mortos. Mas a verdade é que o país lê muito

Por Fernando Gabeira - Atualizado em 30 jul 2020, 20h24 - Publicado em 27 jun 2018, 17h19

Fernando Gabeira (publicado no Globo)

Escritores são importantes na Rússia, sobretudo os do século XIX. Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Gogol, Gorki e alguns outros são patrimônio da Humanidade e uma espécie de interface da Rússia com o mundo. Museus, estátuas, estações de metrô, parques, muitos pontos vitais das grandes cidades levam o nome de um escritor.

Mas só na Rússia, especificamente aqui em São Petersburgo, um gato vive num museu representando um escritor, Joseph Brodsky, que ainda não tem o seu próprio museu. O gato e dois amigos estão hospedados no Museu Anna Akhmatova, considerada a maior poeta russa.

Anna era mentora de Brodsky, sabia que ele amava gatos e, inclusive, achava-o parecido com um gato e meio, como costumava dizer. Por causa dessa relação, os gatos vivem no Museu Anna Akhmatova e representam uma atração especial para quem conhece a história da poeta.

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A presença dos bichos no museu, que na verdade é o apartamento na ala sul do Palácio Sheremetev, talvez seja o lado mais lírico e suave da história que o lugar conta.

Ana Akhmatova sofreu muito no período estalinista. Em primeiro lugar porque ao racionar a comida, os comissários políticos puniam os intelectuais mais independentes.

Um deles afirmou: é preciso dar o mínimo de comida a esses intelectuais. Mas o que é o mínimo alguém perguntou? O bastante para que se lembrem do cheiro.

Ana conseguiu um lugar no apartamento que, na verdade, era ocupado pelo pintor Nikolai Punin e sua mulher. O governo exigia que as pessoas tivessem um endereço e ela se abrigou ali.

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O filho foi preso pela polícia de Stalin. A própria Anna Akhmatova uma vez recebeu a visita de Isaiah Berlin, que trabalhava na Embaixada da Inglaterra e a admirava muito.

Isso para o governo significa traição e venda ao estrangeiro. O comissários da cultura afirmavam que ela era uma mistura de freira e prostituta.

Agora é interessante ver o museu dedicado a ela frequentado por muitos russos que procuram tomar conhecimento de sua história. Eles veem seu retrato pintado por Modigliani, que era amigo de Anna. E talvez fiquem perplexos como tudo isso pode ter acontecido no passado recente.

Alguém disse ironicamente que a Rússia trata muito bem os escritores, depois de mortos. Mas a verdade é que o país lê muito. Alguns livros chegaram a vender três milhões de exemplares.

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Essa paixão não acabou na era digital. Apenas foi transferida para a internet. Existem hoje ainda as 115 mil bibliotecas abertas pelos comunistas. Mas num mundo virtual há 150 bibliotecas que funcionam intensamente, inclusive lançando novos títulos.

O gato no museu de Anna Akhmatova, por exemplo, representa um escritor, Brodsky, que passou cinco anos um campo de prisioneiros no Ártico foi praticamente expulso da Rússia e passou a morar nos Estados Unidos. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Outro dia, constatei que a Rússia tem tantas estátuas que até uma espécie de cemitério delas foi criado nos fundos da galeria Tretiakov em Moscou. E nele há uma estátua do mais querido de todos os poetas russos: Alexander Pushkin, que tem museus e homenagens por toda parte.

Enfim é tão grande a celebração da literatura dos mortos que não me espantaria se o gato do museu um dia também arriscasse a lançar um romance pensando na vida póstuma.

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