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Um assassinato disfarçado de suicídio fez nascer a assombração que vai antecipar a morte política de Cristina Kirchner

Nunca se viu um suicida tão de bem com a vida na véspera da morte. Neste 16 de janeiro, um sábado, o promotor federal Alberto Nisman saudou com um largo sorriso quem o viu sair do prédio onde morava em Buenos Aires. De volta ao apartamento no bairro de Puerto Madero, fez a lista de […]

Nisman-kirchner

Nunca se viu um suicida tão de bem com a vida na véspera da morte. Neste 16 de janeiro, um sábado, o promotor federal Alberto Nisman saudou com um largo sorriso quem o viu sair do prédio onde morava em Buenos Aires. De volta ao apartamento no bairro de Puerto Madero, fez a lista de compras para a semana seguinte e pareceu muito animado aos amigos com os quais conversou por telefone. A um deles, enviou por celular uma foto que mostra alguns documentos sobre a mesa de trabalho. Eram parte das provas do envolvimento de Cristina Kirchner e figurões do governo numa cabeludíssima trama político-policial.

O ousado homem da lei estava pronto para apresentar ao Congresso, na segunda-feira, a documentação que sustentava a denúncia que uma semana antes espantara milhões de argentinos: em parceria com o governo no Irã, a presidente vinha agindo nas catacumbas para sepultar as investigações sobre o atentado terrorista sofrido em 1994 pela Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA). O arquivamento do caso garantiria a impunidade dos oito iranianos que planejaram a explosão da bomba que matou 85 pessoas. Em troca da criminosa manifestação de apreço, os aiatolás atômicos beneficiariam a comparsa com generosos acordos comerciais.

No domingo, o corpo de Nisman foi encontrado no banheiro, ao lado de um revólver calibre 22, com uma bala enfiada na cabeça. Os integrantes do esquema de segurança juram que foram dispensados do serviço, entre a noite de sexta e a manhã do domingo, pelo homem que deveriam proteger. Também juram que tentaram inutilmente falar com Nisman por telefone. Intrigados com o silêncio do outro lado da linha, chamaram a mãe do promotor, que não encontrou o código para abrir a porta. Chamaram então um chaveiro, que topou com uma segunda porta apenas encostada.

Engrossado por autoridades que nada têm a ver com apurações do gênero, o grupo demorou quase 15 horas para topar com o cadáver. Demoraria mais um dia para descobrir que havia uma terceira entrada, com marcas de pegadas recentes e impressões digitais. O ritmo arrastado do primeiro ato contrastou com a rapidez da promotora Viviana Fein, escalada para cuidar da história. A doutora chegou ao cenário da tragédia no início da madrugada de segunda-feira. Uma hora depois, ressurgiu diante dos jornalistas com o mistério solucionado: “Foi suicídio”.

O parecer de duas palavras ganhou o imediato endosso de Cristina Kirchner, que não perdeu a chance de culpar o morto e, claro, a oposição. A sherloque de tango concluiu que Nisman optou pelo suicídio ao constatar que, tapeado por adversários do governo, acreditara em invencionices, avalizara provas fabricadas e fora injusto com governantes inocentes. Em resumo: aos 51 anos, morreu de remorso. Na terça-feira, peritos informaram que não havia resíduos de pólvora nos dedos do morto. “Lamentavelmente, deu negativo”, suspirou Viviana Fein, que nem por isso se rendeu.

“É preciso fazer outro exame, porque disparos com armas desse calibre às vezes não deixam vestígios”, foi à luta. Na quinta-feira, Viviana e o restante do país se espantaram com a abrupta guinada da viúva profissional. “O suicídio foi um assassinato”, mudou Cristina de rota sem mudar de culpado. Na versão reciclada, os carrascos de Nisman devem ser procurados entre antigovernistas muito espertos. Eles adivinharam que, na cabeça da gente comum, a morte de um acusador da presidente só poderia ser coisa de parceiros da acusada, nunca de adversários beneficados pelas acusações. “Eles o usaram vivo e agora precisavam dele morto”, deduziu Cristina.

Viviana Fein não se abalou: “Podemos até examinar outras hipóteses, mas entendo que foi suicídio”. Entre segunda e sexta, o que começou como suspeita já virara certeza. A promotora irredutível continuou onde sempre esteve: na contramão da verdade. E ali permanece: “”Foi suicídio”, reiterou neste fim de semana depois de confrontada com a revelação do El Clarin: o tiro foi disparado a uma distância de 15 a 30 centímetros. “A distância foi de um centímetro”, devolveu de canela Viviana.

Num país sério, ela já estaria contando o que sabe sabe numa sala de interrogatório. Na terra devastada por uma gangue peronista, segue devotada à missão de exorcizar com mentiras o fantasma que confiscou o sossego da chefona. Perda de tempo. Viviana Fein e milhões de argentinos logo saberão que o promotor federal suicidado se transformou na assombração que vai antecipar a morte política de Cristina Kirchner.

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  1. Comentado por:

    Kitty

    Parabéns Augusto pelo brilhante texto, até parece ter sido escrito por um anti-kirchnerista de pura cepa..ou por um argentino de boa índole que não se conforma de ver seu país envolvido em um crime que querem que seja à força um suicídio..emocionante o seu relato..!
    O caso ocupou um bom tempo no telefone com meu irmão e a conversa foi frutífera.//Quando todo mundo pensou que seria a economia que derrubaria Cristina, mesmo que em decadência, ela tem seguidores como os ‘Jefes y Jefas’ de familia, a versão porteña dos bolsas-votos do Brasil, domesticados pela Campora, um forte grupo de militantes sob a batuta do filho Máximo, a fazem ainda temida. Porém, a morte do promotor Alberto Nisman, mudou o panorama e não mais será a economia que poderia derrubar Cristina, mas a política e por um fato inesperado que estourou no colo do governo e do mesmo Estado como uma bomba. A denuncia de Nisman bateu forte no governo e o desnorteou. Sua misteriosa morte mostra o lado clandestino do Estado e fica exposta a incapacidade da presidente para assumir seu rol de chefe de estado, apequenando-se no mais modesto rol de chefa de facção.
    Sem sombra de dúvidas, o grupo governante está em crise. Devido a sua radical verticalidade, a falha do condutor semeia o desconcerto entre os submissos seguidores obrigando-os a descartar o analise político e seguir a presidente nas suas idas e vindas e desvarios. Pode-se observar que o resto do peronismo cristinista advertiu os riscos eleitorais de seguir uma presumida chefa que perdeu o rumo e os obriga estudar alternativas. Hoje seus adversários mais temidos não é mais a mídia–Clarin e La Nación–mas alguns segmentos do estado que o kirchnerismo pensou que estavam sob controle e cooptados. A rebelião dos fiscais é relativamente recente. Tudo isso indica que o poder kirchnerista está prestes a desmoronar e o caso Nisman potencializou entre eles a preocupação pela economia, a insegurança e a indômita corrupção tudo acompanhado pela impunidade que reina absoluta desmoralizando assim a legitimidade deste governo.
    Lá, o olho do furação é o gradual desmonte do Estado de Direito. Após o ‘suicídio’ induzido do fiscal Nisman todos ou quase todos os argentinos se sentem ameaçados de alguma maneira. Até hoje, o problema era os assaltantes, os motoqueiros-ladrões ou os narcos, e agora teme-se ao governo e a sua cumprida e pesada mão.. Este governo, na sua louca carreira final em prol do poder total, parece haver ultrapassado um limite. Pelo exposto e os fatos reais vivenciados pelos argentinos que trabalham, lutam por um futuro melhor para si e seus descendentes e se sentem ameaçados deverão se unir ao setor opositor da sociedade, já que não se pode esperar muito do governo e sua equipe formada por retrógrados apegados a ideologias ultrapassadas e, nem da presidente que parece conspirar contra ela mesma.Se existe a possibilidade de unir a oposição ainda é cedo para descobrir. O positivo deste setor é que houve uma saudável reação impulsionada por políticos da oposição..isso vislumbra uma pequena luz verde no final túnel da quase resignada Argentina subjugada por um grupo de facínoras…Habemus esperança, caro Augusto, que sempre se diz que é a última a morrer…Je suis Nisman! Espero que se faça justiça e o assassino do jovem promotor e os possíveis mandantes sejam descobertos e punidos.//Carinhos-Kitty
    Obrigado pelas informações, querida Kitty. Um beijo

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  2. Comentado por:

    Júnior

    Augusto, numa investigação dessa magnitude, esse promotor não teria cópias das provas, não teria deixado com alguém de sua confiança, uma vez que sua vida corria risco?
    Não se noticia sobre isso?

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  3. Comentado por:

    piconze

    Caro Amigo/Irmão Augusto, tanto lá como aqui o governo joga a mesma política suja, lá temos o corajoso Promotor que com certeza jogaria tudo no ventilador, mas calaram ele, aqui, calaram o Celso Daniel, o Toninho de Campinas e podem esperar, vão costurar a boca de mais alguém. Um abração.

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  4. Comentado por:

    Rarilson Barbosa

    Os culpados são os seguranças. Foram retirados os seguranças que não avisaram que não tinham mais conseguido contato com o Procurador. Estes devem sutil e providencialmente, sumir do mapa.

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  5. Comentado por:

    Rarilson Barbosa

    Se me permite, Neo Reaça – 27/01/2015 às 19:28. Na verdade deu sim. Depois de alguns alegarem que tinha sido assassinato e se ferrar, anos depois o STF se dignou a publicar uma nota concordando que havia sido sim assassinato, na verdade, um duplo assassinato. Os policiais é que foram julgados. Se vão seguir a mesma receita…

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  6. Comentado por:

    Marcos F

    Viviana podia, ao menos, disfarçar e dizer que o promotor usou um “pau de selfie”.

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  7. Comentado por:

    alex madeira

    Como é o nome dela, é Viviana eu acho que ela nasceu e se formou nas faculdades de direito do Brasil e pelo que querem alguns poderá ser indicada ao STF brasileiro pois nasceu na américa do sul.

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  8. Comentado por:

    Lidia Santana

    Os mesmos métodos, as mesmas armas. Malditos tiranos.

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  9. Comentado por:

    Simone

    Bravo, Augusto Nunes!

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  10. Comentado por:

    Joaquim

    .
    Se cuida Sergio Moro…pelo amor de Deus!!!…se acontecer com vc nossa nação fica viúva!!!

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