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Tuma Junior não pode continuar no gabinete que desonrou

Neste começo de maio, o Estadão apresentou ao país, de uma vez só, um delegado que mantém há 30 anos relações promíscuas com um bandido preso há vários meses, um deputado estadual que promoveu a assessor parlamentar o chefe da máfia chinesa em São Paulo, um presidente do Conselho de Combate à Pirataria que compra […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 21 fev 2017, 18h25 - Publicado em 9 maio 2010, 21h36

Neste começo de maio, o Estadão apresentou ao país, de uma vez só, um delegado que mantém há 30 anos relações promíscuas com um bandido preso há vários meses, um deputado estadual que promoveu a assessor parlamentar o chefe da máfia chinesa em São Paulo, um presidente do Conselho de Combate à Pirataria que compra produtos contrabandeados,  um figurão federal que pressiona policiais para infiltrar no funcionalismo público o genro reprovado em concurso e um secretário nacional de Justiça que comete todas as infrações que cumpre ao ocupante do cargo coibir. São cinco espantos da fauna brasileira. Todos atendem pelo nome de Romeu Tuma Junior. É muito pecado para um só pecador.

Entre outras atribuições, cabe à Secretaria Nacional de Justiça rastrear contas bancárias no exterior, impedir a evasão de divisas e localizar estrangeiros em situação irregular. Amparado em provas colhidas pela Polícia Federal, o Estadão informou que o secretário interferiu em favor de amigos barrados na Alfândega quando tentavam embarcar com dinheiro escondido e apressou a emissão de vistos de permanência para imigrantes chineses que entraram clandestinamente no Brasil. Fora o resto. Conversas telefônicas grampeadas e mensagens eletrônicas escancaram um vasto acervo de  patifarias, frequentemente praticadas em parceria com Li Kwok Kwen, o Paulinho Li, um chinês naturalizado brasileiro que comanda em São Paulo a maior quadrilha de contrabandistas.

O amigo poderoso jura que não sabia que tinha um amigo bandido. O amigo bandido sempre soube que tinha um amigo poderoso. Assim que o camburão estacionava na frente do esconderijo, Paulinho Li exibia o cartão de visitas de funcionário da Secretaria Nacional de Justiça, sacava o celular do coldre e, na frente dos policiais encarregados de prendê-lo, berrava pedidos de socorro a Tuma Junior. Foi o que fez no fim do ano, quando a Polícia Federal concluiu a operação que acabou tropeçando em Tuma Junior. O truque desta vez não funcionou. O mafioso aguarda julgamento na cadeia. O delegado aguarda em liberdade a volta do parceiro.

Eis aí um caso de polícia de bom tamanho, certo? Errado, corrigiu o suspeito. “É um problema político”, explicou. É mesmo, hoje está claro. Sabe-se agora que Tuma Junior não virou secretário nacional de Justiça por ter “uma folha de serviços prestados ao país”, nem por ser “um delegado muito experimentado na polícia paulista, na polícia brasileira”, como fantasiou o presidente Lula na quinta-feira. Virou figurão do Ministério da Justiça por ser filho do senador Romeu Tuma e, portanto, beneficiário de uma cláusula do acordo fechado em 2007 entre o parlamentar paulista e o governo. Se o pai se bandeasse do DEM para o PTB governista, previa esse item do contrato, o primogênito teria a vida resolvida com o empregão em Brasília. E assim foi feito.

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“É preciso esperar o fim das investigações”, recitou Lula no fecho da ladainha. O que o presidente eternamente em campanha eleitoral espera é que o PTB decida se vai apoiar Dilma Rousseff ou José Serra. Para defender o filho, basta ao senador defender a aliança entre seu partido e o PT. Não precisa preocupar-se com investigações. Não existem investigações em curso. As copiosas evidências e provas materiais reunidas pela Polícia Federal não pareceram suficientes ao Ministério Público Federal para que Tuma Junior fosse processado. É assim o Brasil da Era Lula.

As declarações deste fim de semana avisam que, se depender do presidente, o filho do senador ficará onde está. Mas é provável que, como Antonio Palocci ou José Dirceu, acabe afastado da Secretaria Nacional de Justiça. Ainda que todas as outras acusações fossem improcedentes ─ e não são ─ as ligações mais que perigosas com o mafioso amigo já bastariam para desqualificá-lo para qualquer cargo público, além de colocá-lo na alça de mira da Justiça. Se Tuma Junior permanecer no gabinete que desonrou, o sucessor de Lula saberá que, desde o primeiro minuto na presidência, estará absorvido pela tarefa de debelar a necrose moral que devasta o governo.

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