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Sem GPS

Algumas pessoas nascem sem uma bússola interna, sem senso de direção na alma. Outras parecem saber o rumo a tomar desde que nasceram

Lembro de um texto em que o autor dizia: “Sou capaz de me perder na Avenida Paulista”. Fiquei com isso na cabeça porque me soou familiar. E acrescento: sou capaz de me perder na estrada, na cidade ou se entro em uma rua errada e o quarteirão não é quadrado. Desligada que sou, saio um pouco do ar e já não sei onde estou. Não tenho noção de espaço ou direção, e isso já me rendeu muitas histórias. Numa delas, entrei na contramão no estacionamento de um shopping. Noutra, pela primeira vez fui para São Paulo dirigindo um carro e quase acabei na estrada que leva ao litoral.

Tudo isso aconteceu quando não havia sistema de navegação em veículos e celulares. Por isso, dá para imaginar como fiquei feliz quando inventaram o GPS. Eu me encontrei, literalmente. E deixei de me perder pelos caminhos.

Pouco antes do lançamento do aparelho, eu havia me perdido nos Estados Unidos, com o filho e meus pais no carro. Entrei numa saída errada e fomos parar em outro Estado. Foi o clímax da minha desorientação. Por sorte, no mês seguinte, lançaram o GPS.

Desde que comecei a usá-lo, virei outra pessoa. Eu me sinto mais segura. Não só por chegar ao destino certo, mas pela precisão no horário de chegada. Não só não erro mais o caminho como também não me atraso.

Pois fiquei perdida novamente há poucos dias. O GPS parou de funcionar. E não há nada que o faça ressuscitar. Parou justamente na semana em que precisava procurando um endereço novo, numa cidade vizinha. Nem preciso dizer que foi o caos. Entrei em ruas erradas. Não havia sinalização. No fim, tive que pedir a uma alma generosa que me guiasse até o destino.

Consegui chegar ao endereço, mas toda essa história me fez pensar. Será que tudo isso é um sinal? Um alerta de que preciso definir meu caminho não nas estradas viárias, mas na vida? Será que tenho que ajustar meu GPS interno?

Acho que algumas pessoas nascem sem uma bússola interna, sem senso de direção na alma. Não sabem ou não conseguem se orientar. Tentam uma rua, não percebem que era sem saída, e acabam tendo que voltar para trás. E toda hora precisam começar do zero, procurar outra via, uma nova direção. Como se tivessem um GPS quebrado. Estão sempre perdidas.

E outras parecem ter noção exata de onde querem ir desde que nasceram. Não se equivocam, não escolhem o caminho errado. São, instintivamente, guiadas na direção perfeita. Não enfrentam transtornos nem entram na contramão.

Conclui que, de verdade, quero apenas consertar meu GPS. Os dois.

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  1. A questão merece uma abordagem profissional. Muito interessante nos dois aspectos, o espacial e o social.

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  2. Sonia Fausta Tavares Monteiro

    Pois é, Débora, ao que parece, GPS´s não são tão confiáveis como parecem! Tanto aquela maravilha da tecnologia que tem a responsabilidade de nos guiar através de destinos desconhecidos, como também aquele que orienta as nossas vidas e escolhas.. A boa notícia é que este último sempre volta a funcionar , e nos orientar quanto à direção mais acertada a seguir; é só esperar e acreditar!!!

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