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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Quem conta um conto aumenta um ponto

Uma das armas mais utilizadas pelos quinta-colunas é a difusão de boatos, atacando de dentro

Por Deonísio da Silva - Atualizado em 8 jul 2019, 13h36 - Publicado em 7 jul 2019, 12h40

Deonísio da Silva

Guiglelmo Marconi estava na Itália e de lá enviou um sinal de rádio para acender as luzes da estátua do Cristo Redentor, no Brasil.

Quem ajudou o cientista italiano e Prêmio Nobel de Física a fazer isso foi um notável pensador da direita, flor quase solitária na república das letras, pois a intelligentsia brasileira é de esquerda e tem intensos e reiterados ataques de burritsia, embora frequentemente ignore crimes! Como aqueles revelados por companheiros e sucessores de um ícone da ideologia tanto cultivada e disseminada por todos urbi et orbi, o ditador soviético Joseph Stálin. Até uma célebre entrevista de um deputado comunista, dada depois que deixou de ser, o escritor Jorge Amado, famoso autor de Gabriela, deTeresa e de Tieta, entre tantos romances deliciosos, é evitada ou escondida sempre que possível para não dar munição ao inimigo. Porém as redes sociais agora andam exibindo sem nenhum cuidado e os interessados podem conferir quando e onde quiserem em seus celulares, smartphones e computadores. São exatos dois minutos e trinta e dois segundos, estão no Museu Jorge Amado e podem ser vistos aqui: https://www.youtube.com/watch?v=LVgFK0PTb6s

O pensador de direita que ajudou Marconi era então um engenheiro elétrico que mais tarde se transformaria no escritor Gustavo Corção, autor de Lição de Abismo, seu único romance, e de vários livros sobre política e conduta. O personagem principal do livro é um professor chamado José Maria que, diagnosticado com câncer terminal, reserva os três meses restantes de vida para refletir sobre questões essenciais da existência entre livros e botões de rosa.

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Três alqueires e uma vaca é outro livro importante do omitido auxiliar do italiano naquela noite de tempestade, raios e trovões, que sem sua ajuda talvez tivessem impedido a inauguração da estátua famosa. Neste outro livro, entre tantos publicados, Gustavo Corção, aquele engenheiro, faz sua homenagem ao escritor que mudou sua vida, o inglês Gilbert Keith Chesterton, criador de célebre personagem, o sacerdote-detetive Padre Brown. Chesterton dizia que ao tocar no famoso tabuleiro ouija deu-se conta de que o Diabo realmente existia. No Brasil, espiritualistas usam este tabuleiro, copos ou outras variantes para se comunicar com os mortos, o que é vituperado por teólogos por ensejar possessões de difícil exorcismo.

O Diabo mora em detalhes e é preciso discernir a importância que têm ou não têm. É um detalhe sem importância e por isso pouco lembrado que o rosto do Cristo Redentor foi criado por um escultor romeno chamado Gheorge Leonida, cujo trabalho mais famoso foi justamente Le Diable (O Diabo). Como sempre souberam o cineasta Glauber Rocha, o escritor Guimarães Rosa e o povo brasileiro, aqui estão unidos Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Mas cientista, cineasta e escritor pertencem às categorias que não dão ibope hoje no Brasil e não chegam à fama de nomes de políticos, muitos dos quais incensados ladrões, e de personalidades que preferem ser notadas por suas regiões glúteas, pelo que fazem na vida privada ou por outras qualidades artísticas imunes ao pudor e ao pundonor. Aliás, para ser mais lido convém evitar que os leitores precisem ir ao dicionário, prática hoje abandonada, mas que tornou possível àqueles que hoje escrevem aprendessem a ler, a interpretar e a entender melhor os outros, falantes ou escreventes.

No lugar do Cristo Redentor, no morro do Corcovado, no Rio, poderia estar uma estátua da princesa Isabel, a Redentora. Foi o que lhe propuseram seus áulicos em maio de 1888 quando a princesa assinou a Lei Áurea, assim chamada por ter sido assinada com uma caneta de ouro, que declarava extinta a escravidão no Brasil. A Regente, católica e modesta, recusou a homenagem.

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No ano seguinte veio a República e foi abandonada a ideia de construir um monumento cristão a mais de 700 metros de altitude. Mas foi retomada nos anos 20 e 30 do século seguinte e enfim inaugurada às 19h16  de 12 de outubro de 1931, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, hoje com uma capela ao pé do monumento, no alto do morro chamado Corcovado, justamente por sua aparência de corcova, e está rodeado de lugares com nomes de santos, como Santa Teresa, Santa Marta e São Cristóvão.

Quem lhe pôs este nome, Corcovado, foi o povo, por lhe parecer ter forma de corcova ou corcunda,  mudando assim a designação original que lhe dera Américo Vespucci, o navegador italiano cujo nome ofuscou o de Colombo na denominação da América. Ele o chamou Pináculo da Tentação, justamente aquele lugar muito alto para onde o Diabo levou Jesus para ser tentado. Dali podiam ser vistos todos os reinos do mundo e, como nos contam três dos quatro evangelhos, o Diabo ofereceu a Jesus todas as riquezas de todos aquelas nações, desde que ele, prostrado, o adorasse. Antes lhe tinha oferecido uma cesta básica no deserto – transformar pedras em pão – e aconselhado que despencasse voluntariamente do alto do templo — os anjos viriam socorrê-lo – e por fim pedido que o adorasse, a ele, Diabo.

O Padre Vieira faz interessante reflexão e maiêutica destes episódios no Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, pregado em São Luís de Maranhão, em 1653. Ele diz que o Diabo usa três verbos principais: primeiro oferece, depois aconselha e por fim pede.

Quaisquer semelhanças com traidores, seus asseclas e o contexto em que antigos e novos quinta-colunas atuam no Brasil não serão meras coincidências. Pão e submissão a uns e  poder a outros continuam a ser pontos cardeais na política.

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De curiosidade adicional lembremos que a expressão quinta-coluna nasceu da boca de comandantes militares durante a guerra civil espanhola. Avançando sobre Madrí, um deles teridito por rádio que liderava quatro colunas militares, mas que havia uma quinta, silenciosa, no meio da multidão, apoiando as (outras) quatro. Desde então, a expressão designa aqueles que ajudam o inimigo espionando e sabotando, com o fim de apoiar a facção rival. Uma das armas mais utilizadas pelos quinta-colunas é a difusão de boatos, atacando de dentro. Isto é, quando deixam que eles façam isso. O Brasil deixa.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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