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Outras vidas paralelas

"Inês é morta" também para o Presidente. A eleição já passou, ele é o novo Presidente. Todavia parece ainda muito preocupado com os vencidos

Por Deonísio da Silva - 28 jul 2019, 11h21

Deonísio da Silva

O presidente Jair Bolsonaro “não é nenhum santo”, como não o era o rei Dom Pedro, o Cru e Justiceiro, entre outros epítetos, mas por que comparar mandatários tão distantes um do outro, embora lusófonos, à moda das Vidas Paralelas, obra de Plutarco que compara célebres personalidades da Roma e da Grécia antigas? Para recomendar uma terceira leitura, bem curtinha e preciosa, de um autor português falecido há apenas quatro anos, lida e trabalhada em escolas de qualidade.

Aqueles que deram indulgências plenárias a diversos políticos, pegos em tempos recentes com a boca na botija, são os mesmos que tratam com extraordinário rigor o atual Presidente, assim como são mais delicados ao falar de bandidos e mais rudes quando comentam o comportamento esperado ou mesmo deslizes de autoridades que os combatem. Ora, uns já foram condenados. Outros nem réus são ainda!

O presidente Bolsonaro parece empenhado em dar razão a quem o marca tão duramente, pois na semana passada incorreu de novo em “emenda pior do que o soneto” — outra frase famosa para evitar explicações — nos tropeços sobre a palavra “paraíba”, utilizada popularmente no Rio para designar o migrante nordestino, equivalente a “baiano” em São Paulo. A uns e outros o Brasil inteiro deve muito!

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Diz o brocardo que “temos duas orelhas e uma boca para ouvir o dobro e falar a metade”. Depois de proferidas as inconveniências,  “Inês é morta” e “se não tem remédio, remediado está”.

Há vários políticos brasileiros conhecidos por seus destemperos, sobretudo verbais, mas o atual Presidente lembra o soberano português que mandou retirar do túmulo o cadáver da amada, “aquela que depois de morta foi rainha”, para a cerimônia do beija-mão, de vila em vila.

Ora, “Inês é morta” também para o Presidente. A eleição já passou, ele é o novo Presidente. Todavia parece ainda muito preocupado com os vencidos e de resto talvez dê atenção exagerada a assuntos que deveriam estar “mortos e enterrados”, como diz outra expressão da rica fraseologia do português para designar coisas sobre as quais nada se pode fazer.

Seu humor, por vezes cruel e desjeitoso, lembra o conto Teorema, do escritor português Herberto Hélder, mais conhecido como poeta, falecido em 2015, aos 84 anos.

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Em trecho do conto, quando da execução dos carrascos de sua amada, o soberano ordena: “Preparem-me esse Coelho, que tenho fome”. “O rei brinca com o meu nome”, diz um dos “brutos matadores” de Inês, “aquela que depois de morta foi rainha”, amante do soberano justiceiro, executada por ordens do sogro. O narrador da história é o supliciado, de quem arrancam o coração pelas costas e o servem ao rei numa bandeja de prata.

Eram três os algozes, os três conseguiram escapar, mas dois foram extraditados de Castela, o reino vizinho, e foram executados em praça pública lotada.

Tomado de vingança, em ato horroroso, presidido pelo soberano, foram mortos Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves, que teve o coração retirado pelo peito. Como se misturaram lenda, história e literatura, consta que o carrasco tentou demover o rei do modus operandi proposto, gestos sanguinolentos por serem de quase impossível execução. Mas foram mortos como o rei ordenou.

Diogo Lopes Pacheco, o terceiro algoz, continuava na França, que não o extraditara, e foi perdoado por Sua Alteza, já então no leito régio de morte. Ou talvez o indulto seja lenda e o perdão tenha sido dado por seu sucessor.

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O carrasco viveu até aos 88 anos. O rei cruel, filho do rei benigno, morreu aos 47. Uma curiosidade adicional: Dom Pedro, o Cru, era neto de Santa Isabel de Aragão, esposa de Dom Dinis, o primeiro rei de Portugal.

Nem sempre o Bem vence o Mal, inicialmente. É por isso que é indispensável ser persistente nas boas ações, não nas más. Ou, para terminar a crônica, mais uma frase emblemática: “fazer o bem sem olhar a quem”. E quanto aos poderosos do dia, o conselho de Luís de Camões, que tratou de Inês de Castro em Os Lusíadas: “Queria perdoar-lhe o Rei benigno,/ Movido das palavras que o magoam;/ Mas o pertinaz povo, e seu destino/ Que desta sorte o quis, lhe não perdoam”. Logo no episódio seguinte, Camões dirá do sucessor de Dom Pedro, o Cru: “um fraco Rei faz fraca a forte gente”.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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